terça-feira, 9 de dezembro de 2025

O QUE É ARTE

O QUE É ARTE? 
UMA INTRODUÇÃO FILOSÓFICA, 
HISTÓRICA E CULTURAL


1. Introdução
Arte como problema filosófico e humano

A pergunta “O que é arte?” atravessa toda a história da humanidade. Cada sociedade produziu imagens, sons, rituais e objetos que expressam modos singulares de existir no mundo. Desde as primeiras pinturas nas cavernas até as instalações contemporâneas, a arte acompanha a trajetória humana como forma de simbolizar experiências, comunicar sentidos e transformar a realidade.

Michel Foucault e Marilena Chauí nos ajudam a compreender esse fenômeno para além da ideia de “beleza” ou “técnica”: ambos destacam que a criação artística se insere em modos de vida, sistemas simbólicos e formas de relação com a verdade e com a comunidade.

2. A Arte e o Problema da Verdade: o olhar de Foucault
2.1 Do discurso-verdade à institucionalização da verdade

No Ocidente, religião e ciência tornaram-se instituições que reivindicaram o monopólio da verdade. Nesse processo, a busca pessoal pela verdade — entendida pelos gregos como uma prática de vida — foi enfraquecida. Entre os estóicos, por exemplo, verdade significava coerência entre o modo de viver e aquilo que se afirma.

Foucault observa que, com a ascensão das instituições, não era mais necessário transformar a si mesmo para dizer a verdade: bastava pertencer ao corpo religioso ou ao corpo científico.

Ele afirma:

“Se a prática científica [...] basta para garantir o acesso à verdade, o problema da verdadeira vida desaparece. [...] A questão da verdadeira vida não parou de se extenuar no pensamento ocidental.” (Foucault, 2011, p. 207).

A arte, diferente da ciência institucionalizada, preserva justamente essa dimensão existencial, pois exige uma relação direta entre o que se expressa e o modo como o artista vê e vive o mundo. Assim como a parrhesia, o “falar verdade” que implica risco, a arte envolve exposição, vulnerabilidade e coragem.


2.2 A parrhesia e a criação artística

A parrhesia grega, retomada por Foucault, é a coragem de dizer a verdade colocando-se em risco. No campo da arte, isso aparece quando o artista cria algo que pode contrariar expectativas, desafiar normas, romper tradições ou revelar tensões sociais.

Exemplo:
Uma obra que denuncia violência estatal, desigualdade social ou discriminação de gênero pode gerar conflitos, mas é justamente essa franqueza que fundamenta muitas produções artísticas contemporâneas.


3. Por que o ser humano cria arte?

Desde que construiu seus primeiros utensílios, o ser humano decorou, pintou, esculpiu, isto é, atribuiu significados que iam além da função prática.
Isso revela que a arte é expressão da interioridade: do eu, da imaginação, da liberdade criadora.

Exemplos históricos

Arte rupestre: animais pintados em cavernas para ritualizar a caça ou marcar narrativas do grupo.

Grécia antiga: esculturas que valorizam a harmonia e a forma humana como ideal estético e ético.

Renascimento: retorno ao humanismo e à perspectiva científica do mundo.

Sobre essa criatividade essencial, Chauí afirma:

“Da obra de arte não se exige funcionalidade. Espera-se que exprima significações e verdades, cuja beleza decorre de seu poder expressivo.” (Chauí, 2004).

4. Arte como transformação

Um pôr-do-sol, embora belo, não é arte. Mas quando o artista o traduz em pintura, música, fotografia ou poesia, há uma transformação simbólica da experiência sensível.

“A obra de arte é primeiro obra, depois obra de arte.” (Fernando Pessoa).

Exemplo:

O vaso doméstico é apenas utensílio; quando recebe grafismos, ornamentos ou pinturas, transforma-se em expressão simbólica.

5. Arte e História: principais períodos

A história da arte é um recorte didático que organiza diferentes estilos e modos de expressão:

Arte pré-histórica – desde 50.000 a.C.

Arte antiga – Egito e Mesopotâmia (a partir de 4.000 a.C.)

Arte clássica – Grécia e Roma (séc. VIII a.C. – V d.C.)

Arte medieval – da queda de Roma (476) à tomada de Constantinopla (1453)

Arte renascentista – séculos XIV a XVI

Arte moderna – do século XIX ao início do século XX

Arte contemporânea (pós-moderna) – do final do Modernismo até hoje

6. Formas de Arte


Pintura

Escultura

Dança

Teatro

Literatura

Cinema

Música

Performance

Instalação

Happenings

Cada linguagem utiliza materiais, técnicas e expressões próprios, mas todas são formas de simbolizar e transformar o mundo.

7. Arte como compreensão do mundo

A arte revela valores sociais, modos de vida e crenças de cada época.
Ela não retrata apenas como as coisas são, mas como podem ser, segundo a visão do artista.

Funções da arte

Interpretar o mundo

Expressar sentimentos e necessidades

Construir identidade cultural

Gerar reflexão crítica

Transformar a realidade

“A arte dá e encontra forma e significado como instrumento de vida na busca do entendimento de quem somos.”


8. Arte, tempo e existência

A arte não progride como a tecnologia — não substitui obras antigas por novas.
Ela se transforma porque nós nos transformamos.

Alberto Caeiro (heterônimo de Pessoa) expressa isso poeticamente:

“Sei ter o pasmo essencial [...].
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo.”

A arte é justamente essa união entre o eterno e o novo. Merleau-Ponty comenta:

“O primeiro desenho nas cavernas fundava uma tradição porque recolhia outra: a da percepção.” (Merleau-Ponty, apud Baeta, 2013)

Assim, a arte acompanha a existência humana e seu fluxo de criação.


9. Arte e Religião

Nos primórdios, não havia separação entre arte, religião, trabalho e vida coletiva.
Rituais de caça, semeadura, cura, morte e celebração envolviam música, dança, pintura corporal e objetos simbólicos.

Chauí explica:

“Semear e colher, caçar e pescar, assim como pintar, esculpir, dançar e cantar surgiram como atividades técnico-religiosas.” (Chauí, 2004).

A arte nasce, portanto, dentro do sagrado e do ritual, expressando a ligação entre humanos, natureza e cosmos.


10. Apreciação estética

Para compreender uma obra, é necessário:

repertório (experiência e conhecimento)

sensibilidade e abertura

imaginação

atenção à intenção do artista

As categorias estéticas ajudam a classificar diferentes experiências: o belo, o feio, o sublime, o trágico, o cômico, o kitsch, o irônico, o grotesco.


11. A arte é universal?

A arte não tem um significado único e eterno.
Uma pintura europeia do século XIX pode não ser compreendida por uma sociedade indígena, cujos valores simbólicos são outros.
A arte depende de contexto cultural, histórico e social.


12. Conclusão: por que a arte importa?

A arte é uma das formas essenciais de expressão humana.
Ela atravessa o tempo, transforma o real, revela mundos possíveis e nos ajuda a compreender quem somos.
Ao criar e apreciar arte, participamos de uma tradição que acompanha a humanidade desde o início — uma tradição que busca sentido, beleza, verdade e transformação.



Bibliografia 


Baeta, A. Merleau-Ponty e a tradição da arte. 2013.

Candido, Antonio. Vários escritos.

Chauí, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2004.

Foucault, Michel. A Coragem da Verdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.

Merleau-Ponty, Maurice. A linguagem indireta e as vozes do silêncio.

Pessoa, Fernando. Poemas Completos de Alberto Caeiro.

Safranski, Rüdiger. Ser Único: Uma filosofia da liberdade.

Prata, V. “Perspectiva Filosófica”, v. 47, n. 1, 2020.



sexta-feira, 28 de novembro de 2025

BICO DE PENA DE BAMBU PARA DESENHO

BICO DE PENA OU ESTILO DE BAMBU

Como fazer bico de pena de bambu para desenho com nanquim

A seguir desenvolvi um tutorial claro, prático e seguro para fabricar penas de bambu (caniços) para desenho com nanquim. 
Este método é tradicional em caligrafia e ilustração e não requer ferramentas complexas.

Materiais necessários

Segmento (ramo) de bambu seco (diâmetro entre 0,8–1,5 cm)

Serra pequena ou estilete reforçado

Faca afiada ou canivete

Lixa fina (180–400)

Água ou recipiente para amolecer a fibra (opcional)

Lápis e régua

Nanquim para testes

Furadeira (veja o vídeo no final)

Figura mostrando alguns passos da produção do bico de pena de bambu.


Passo a passo

1. Escolha e preparo do bambu
Busque um segmento seco e maduro, pois o bambu verde se deforma e racha mais facilmente.
O ideal é usar partes próximas dos nós, pois são mais resistentes.
Corte um pedaço de 10 a 15 cm de comprimento.
Remova qualquer irregularidade externa com a lixa.

2. Marcação da ponta
Escolha qual será o lado da ponta (evite áreas rachadas).
Marque com lápis um ângulo de 30° a 45°, semelhante ao corte de uma pena tradicional (corte em bisel, biselado ou chanfrado).
Este ângulo determinará o estilo do traço, ângulos mais agudos produzem linhas mais finas.

3. Corte inicial da ponta
Com a faca ou estilete, faça o corte diagonal seguindo a marcação.
Mantenha o corte firme e limpo, evitando lascas.
Lixe ligeiramente a face cortada para suavizar.
Nesse ponto você pode fazer o furo com uma broca bem fininha e depois aumentar com uma mais grossa. 

4. Criação da fenda (fissura)
A fenda é crucial para alimentar o fluxo de nanquim.
Apoie a ponta do bambu em uma superfície estável.
Com a ponta da faca, faça um corte reto no centro da ponta, alinhado ao eixo do bambu.
A fenda deve ter cerca de 5,0 a 8,0 mm.
Cuidado para não abrir demais, isso diminuirá o controle do volume da tinta.

Dica: Se o bambu estiver muito rígido, deixe a ponta de molho 10 minutos em água para amolecer as fibras antes de cortar.

5. Modelagem da ponta
Aqui você decide o tipo de traço.

5.1. Ponta chata (estilo caligráfico)
Regularize a lâmina com a lixa.
Se quiser variação de espessura, mantenha a borda com leve curvatura.

5.2. Ponta fina (desenho detalhado)
Afine apenas a extremidade da ponta, mantendo as paredes internas firmes.
Evite afinar demais para não quebrar.

5.3. Ponta chanfrada
Perfeita para linhas expressivas e desenhos soltos.

6. Refinamento e polimento
Use lixa fina (400) na borda para deixar o fluxo mais suave.
Passe o dedo na ponta (com cuidado) para sentir irregularidades.

7. Teste com nanquim
Mergulhe a ponta levemente no nanquim.
Faça traços em diferentes ângulos e pressões.
Se os traços estiverem ásperos:
arredonde levemente a borda com a lixa;
diminua um pouco a fenda;
refine o corte frontal.

Dicas adicionais

Mantenha várias pontas com cortes distintos para explorar texturas.

O bambu, por ser fibroso, produz linhas mais orgânicas que penas metálicas, aproveite isso artisticamente.

Para aumentar a durabilidade, aplique uma fina camada de óleo mineral na parte externa (exceto na ponta).



Referências Bibliográficas

Bosse, Michael. The Art of Bamboo Pen Drawing. Kyoto: Kogei Publications, 1998.

Graves, Douglas. Drawing with Traditional Tools: Reed Pens, Bamboo Pens, and Quills. New York: Watson-Guptill, 2004.

Edwards, Betty. O Desenho no Lado Direito do Cérebro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. (Seção sobre ferramentas alternativas de desenho).

Thompson, Daniel V. The Materials of Medieval Painting. New Haven: Yale University Press, 1956. Referência clássica sobre caniços e penas históricas.

Heller, Steven; Chwast, Seymour. The Illustrator’s Bible. Londres: A&C Black, 2006, capítulos sobre instrumentos manuais.

https://cappuccinocomnanechan.blogspot.com/2013/09/gambiarra-caneta-bico-de-bambu.html







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