O QUE É ARTE?
UMA INTRODUÇÃO FILOSÓFICA,
HISTÓRICA E CULTURAL
1. Introdução
Arte como problema filosófico e humano
A pergunta “O que é arte?” atravessa toda a história da humanidade. Cada sociedade produziu imagens, sons, rituais e objetos que expressam modos singulares de existir no mundo. Desde as primeiras pinturas nas cavernas até as instalações contemporâneas, a arte acompanha a trajetória humana como forma de simbolizar experiências, comunicar sentidos e transformar a realidade.
Michel Foucault e Marilena Chauí nos ajudam a compreender esse fenômeno para além da ideia de “beleza” ou “técnica”: ambos destacam que a criação artística se insere em modos de vida, sistemas simbólicos e formas de relação com a verdade e com a comunidade.
2. A Arte e o Problema da Verdade: o olhar de Foucault
2.1 Do discurso-verdade à institucionalização da verdade
No Ocidente, religião e ciência tornaram-se instituições que reivindicaram o monopólio da verdade. Nesse processo, a busca pessoal pela verdade — entendida pelos gregos como uma prática de vida — foi enfraquecida. Entre os estóicos, por exemplo, verdade significava coerência entre o modo de viver e aquilo que se afirma.
Foucault observa que, com a ascensão das instituições, não era mais necessário transformar a si mesmo para dizer a verdade: bastava pertencer ao corpo religioso ou ao corpo científico.
Ele afirma:
“Se a prática científica [...] basta para garantir o acesso à verdade, o problema da verdadeira vida desaparece. [...] A questão da verdadeira vida não parou de se extenuar no pensamento ocidental.” (Foucault, 2011, p. 207).
A arte, diferente da ciência institucionalizada, preserva justamente essa dimensão existencial, pois exige uma relação direta entre o que se expressa e o modo como o artista vê e vive o mundo. Assim como a parrhesia, o “falar verdade” que implica risco, a arte envolve exposição, vulnerabilidade e coragem.
2.2 A parrhesia e a criação artística
A parrhesia grega, retomada por Foucault, é a coragem de dizer a verdade colocando-se em risco. No campo da arte, isso aparece quando o artista cria algo que pode contrariar expectativas, desafiar normas, romper tradições ou revelar tensões sociais.
Exemplo:
Uma obra que denuncia violência estatal, desigualdade social ou discriminação de gênero pode gerar conflitos, mas é justamente essa franqueza que fundamenta muitas produções artísticas contemporâneas.
3. Por que o ser humano cria arte?
Desde que construiu seus primeiros utensílios, o ser humano decorou, pintou, esculpiu, isto é, atribuiu significados que iam além da função prática.
Isso revela que a arte é expressão da interioridade: do eu, da imaginação, da liberdade criadora.
Exemplos históricos
Arte rupestre: animais pintados em cavernas para ritualizar a caça ou marcar narrativas do grupo.
Grécia antiga: esculturas que valorizam a harmonia e a forma humana como ideal estético e ético.
Renascimento: retorno ao humanismo e à perspectiva científica do mundo.
Sobre essa criatividade essencial, Chauí afirma:
“Da obra de arte não se exige funcionalidade. Espera-se que exprima significações e verdades, cuja beleza decorre de seu poder expressivo.” (Chauí, 2004).
4. Arte como transformação
Um pôr-do-sol, embora belo, não é arte. Mas quando o artista o traduz em pintura, música, fotografia ou poesia, há uma transformação simbólica da experiência sensível.
“A obra de arte é primeiro obra, depois obra de arte.” (Fernando Pessoa).
Exemplo:
O vaso doméstico é apenas utensílio; quando recebe grafismos, ornamentos ou pinturas, transforma-se em expressão simbólica.
5. Arte e História: principais períodos
A história da arte é um recorte didático que organiza diferentes estilos e modos de expressão:
Arte pré-histórica – desde 50.000 a.C.
Arte antiga – Egito e Mesopotâmia (a partir de 4.000 a.C.)
Arte clássica – Grécia e Roma (séc. VIII a.C. – V d.C.)
Arte medieval – da queda de Roma (476) à tomada de Constantinopla (1453)
Arte renascentista – séculos XIV a XVI
Arte moderna – do século XIX ao início do século XX
Arte contemporânea (pós-moderna) – do final do Modernismo até hoje
6. Formas de Arte
Pintura
Escultura
Dança
Teatro
Literatura
Cinema
Música
Performance
Instalação
Happenings
Cada linguagem utiliza materiais, técnicas e expressões próprios, mas todas são formas de simbolizar e transformar o mundo.
7. Arte como compreensão do mundo
A arte revela valores sociais, modos de vida e crenças de cada época.
Ela não retrata apenas como as coisas são, mas como podem ser, segundo a visão do artista.
Funções da arte
Interpretar o mundo
Expressar sentimentos e necessidades
Construir identidade cultural
Gerar reflexão crítica
Transformar a realidade
“A arte dá e encontra forma e significado como instrumento de vida na busca do entendimento de quem somos.”
8. Arte, tempo e existência
A arte não progride como a tecnologia — não substitui obras antigas por novas.
Ela se transforma porque nós nos transformamos.
Alberto Caeiro (heterônimo de Pessoa) expressa isso poeticamente:
“Sei ter o pasmo essencial [...].
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo.”
A arte é justamente essa união entre o eterno e o novo. Merleau-Ponty comenta:
“O primeiro desenho nas cavernas fundava uma tradição porque recolhia outra: a da percepção.” (Merleau-Ponty, apud Baeta, 2013)
Assim, a arte acompanha a existência humana e seu fluxo de criação.
9. Arte e Religião
Nos primórdios, não havia separação entre arte, religião, trabalho e vida coletiva.
Rituais de caça, semeadura, cura, morte e celebração envolviam música, dança, pintura corporal e objetos simbólicos.
Chauí explica:
“Semear e colher, caçar e pescar, assim como pintar, esculpir, dançar e cantar surgiram como atividades técnico-religiosas.” (Chauí, 2004).
A arte nasce, portanto, dentro do sagrado e do ritual, expressando a ligação entre humanos, natureza e cosmos.
10. Apreciação estética
Para compreender uma obra, é necessário:
repertório (experiência e conhecimento)
sensibilidade e abertura
imaginação
atenção à intenção do artista
As categorias estéticas ajudam a classificar diferentes experiências: o belo, o feio, o sublime, o trágico, o cômico, o kitsch, o irônico, o grotesco.
11. A arte é universal?
A arte não tem um significado único e eterno.
Uma pintura europeia do século XIX pode não ser compreendida por uma sociedade indígena, cujos valores simbólicos são outros.
A arte depende de contexto cultural, histórico e social.
12. Conclusão: por que a arte importa?
A arte é uma das formas essenciais de expressão humana.
Ela atravessa o tempo, transforma o real, revela mundos possíveis e nos ajuda a compreender quem somos.
Ao criar e apreciar arte, participamos de uma tradição que acompanha a humanidade desde o início — uma tradição que busca sentido, beleza, verdade e transformação.
Bibliografia
Baeta, A. Merleau-Ponty e a tradição da arte. 2013.
Candido, Antonio. Vários escritos.
Chauí, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2004.
Foucault, Michel. A Coragem da Verdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.
Merleau-Ponty, Maurice. A linguagem indireta e as vozes do silêncio.
Pessoa, Fernando. Poemas Completos de Alberto Caeiro.
Safranski, Rüdiger. Ser Único: Uma filosofia da liberdade.
Prata, V. “Perspectiva Filosófica”, v. 47, n. 1, 2020.























































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