sexta-feira, 14 de agosto de 2026

QUÍMICA DAS CORES

A QUÍMICA DAS CORES

Como professor de Arte e pesquisador da história dos materiais cromáticos, compreendo o fascinante universo que conecta a “alquimia”, a química e a expressão visual.

Produção de cores secundarias pela união de cores primárias.
A extração de matérias corantes a partir de elementos do cotidiano, como plantas, fungos, solos e minerais, transcende a mera experimentação técnica, configurando um poderoso elo pedagógico e transdisciplinar entre a ciência e a arte. Ao investigar os processos químicos de isolamento e fixação das cores, os estudantes não apenas despertam para o método científico, mas também resgatam práticas ancestrais de produção de materiais artísticos, que se desenvolveram anteriores a era do bronze, passando pela idade média, pelos saberes originários até os dias atuais. Essa imersão prática transforma o ateliê em um laboratório de experimentação elementar, onde a curiosidade intelectual é estimulada pela revelação física e visual das cores ocultas na natureza.
Na produção artística, esses pigmentos extraídos tornam-se a base para a criação de tintas atóxicas e sustentáveis, fundamentais para uma prática contemporânea consciente. Ao misturar as partículas sólidas dos pigmentos a aglutinantes naturais, como a goma arábica, a gema de ovo para a têmpera, a cola de casseina (produzida com leite) ou a emulsão acrílica, ou até mesmo o óleo de linhaça (ou óleo de nozes ou de papoula), os alunos compreendem a materialidade da pintura para além do tubo de tinta industrializado. Esse fazer artesanal confere uma textura e uma paleta de cores orgânicas únicas às obras de arte, conectando o criador diretamente à origem de sua matéria-prima e promovendo uma autonomia expressiva segura para todas as idades.
Já no campo do tingimento têxtil, o foco desloca-se para os corantes solúveis, substâncias que penetram e se ligam quimicamente às fibras do tecido. A aplicação dessas soluções exige o entendimento sobre mordentes, fixadores naturais como o alúmen de potássio ou o ferro, que garantem a solidez da cor diante da luz e das sucessivas lavagens pelas quais passará o tecido. Ao dominar essas técnicas de estamparia e coloração capilar ou em tecidos (panos), os estudantes vivenciam a fusão perfeita entre o design de superfície e a química aplicada, transformando tecidos simples em suportes ricos de narrativa visual e herança cultural. (Paim, 2026)
Leia a seguir um importante artigo, produzido por colegas professores do Sistema Colégio Militar do Brasil (CMSP), sobre A química das cores.

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ARTIGO


A Química das cores: extração de pigmentos coloridos e criação de tintas atóxicas a partir de compostos presentes no nosso cotidiano

Autores

Oliveira, K.M. (COLÉGIO MILITAR DE SÃO PAULO) ; Secundo Pontes Damasceno, P.B. (COLÉGIO MILITAR DE SÃO PAULO) ; Serdeira da Luz, V. (COLÉGIO MILITAR DE SÃO PAULO) ; Oliveira Fagundes da Silva, E. (COLÉGIO MILITAR DE SÃO PAULO) (1) (2023).

Resumo

A extração dos pigmentos coloridos de diferentes materiais do cotidiano constitui um desafio químico e pedagógico atrativo para os alunos que estão despertando o interesse na atividade científica. A partir desses pigmentos é possível desenvolver tintas atóxicas para o tingimento de tecidos. Neste trabalho foram utilizados diferentes compostos presentes no cotidiano, solventes (água e etanol) e dois aglutinantes (polvilho e cola branca). Este projeto é o primeiro trabalho criado pelo clube de Iniciação Científica do 9º ano do Colégio Militar de São Paulo, criado em 2023. A parceria com o Zumzaravoice permitiu que as tintas obtidas fossem utilizadas para o tingimento de camisas que serão usadas pelos alunos na competição cultural do XV Jogos da Amizade do Sistema Colégio Militar do Brasil.
Palavras chaves

pigmentos coloridos; tintas atóxicas; extração


Introdução

Os primeiros indícios do uso de tintas remontam períodos anteriores a 30000 anos, geralmente associadas a pinturas em paredes rochosas realizadas por sociedades nômades primitivas. (PESSIS e GUIDON, 2009). Essas tintas eram obtidas através de terras coloridas, sangue, vegetais, além de compostos animais (BERMOND, 2017). Os pigmentos naturais podem ser obtidos por diversos processos como cocção, maceração, infusão, turbolização, entre outros. Após, é possível adicionar aglutinantes - materiais que auxiliam na fixação da tinta à superfície aplicada - podendo ser naturais ou artificiais (BERMOND,2017). Uma das grandes desvantagens desses pigmentos é sua baixa estabilidade frente à temperatura, oxigênio e luz, que afetam negativamente a qualidade e aparência dos produtos (SCHIOZER E BARATA, 2007). A composição química das diferentes substâncias de onde podem ser extraídos os pigmentos naturais influencia diretamente na obtenção da cor. A Curcuma longa L., popularmente conhecida como açafrão, apresenta como principal princípio ativo a curcumina. A curcumina é um polifenol amarelo extraído do rizoma do açafrão que faz parte dos pigmentos curcuminoides (SANTIN, 2014). Os pigmentos curcuminoides apresentam coloração amarelo- alaranjada, que conferem a cor amarela característica ao açafrão (MOREIRA, 2013). São facilmente solubilizados em etanol, porém pouco solúveis em água. Quando encapsulados em matrizes poliméricas biocompatíveis, a sua solubilidade em água aumenta (SANTOS, 2018). Extraído do urucuzeiro, o colorau é resultado da transformação da camada externa da semente do urucum em pó. É rico em bixina, considerada o principal pigmento presente nas sementes de urucum, pertencente à classe de pigmentos naturais denominados carotenoides, substância responsável pela sua coloração amarelo-alaranjada (DA COSTA e CHAVES, 2005). Os carotenoides são importantes pigmentos lipossolúveis, sendo solúveis em solventes orgânicos. São insolúveis na água, exceto quando formando complexos com proteínas, o que aumenta a sua solubilidade (MORAIS, 2006). São responsáveis pelas cores laranja, amarela e vermelha presentes em algumas algas, fungos, frutas, vegetais e flores (MALDONADO et al., 2003). A spirulina (Arthrospira platensis) é uma microalga da classe das cianobactérias, de coloração azul-esverdeada (MINATEL, 2021). Possui na sua composição pigmentos, como a clorofila, carotenoides e ficocianinas (MORAES; MIRANDA e COSTA, 2006). As ficocianinas pertencem à família das ficobiliproteínas, que se caracterizam por uma coloração azul intensa, sendo solúveis em água (ROMAY et al., 1998; FIGUEIRA, 2014). A clorofila é um pigmento verde, insolúvel em água, presente em quase todos os tipos de plantas, algas e em algumas bactérias (MAESTRIN et al., 2009). Nativo da Ásia Tropical, o Hibiscus rosa-sinensis, popularmente conhecido como hibisco, é um arbusto lenhoso fibroso que possui diversas variedades e formas, com flores geralmente vermelhas. Dentre as substâncias bioativas mais estudadas no hibisco, podemos citar os flavonoides, que constituem o mais importante grupo de compostos fenólicos. Os principais compostos fenólicos encontrados no hibisco são as antocianinas, responsáveis pela coloração vermelha característica da flor (GUINDANI et al., 2014). São pigmentos solúveis em solventes polares (LOPES et al., 2007). O extrato de repolho roxo apresenta uma coloração roxa e funciona como um indicador de pH, uma vez que é rico em ancitocinas. As ancitocinas sofrem mudanças de cor naturalmente, dependendo do pH do meio onde se encontram, variam de vermelho em meio ácido, passando para roxas em meio neutro, esverdeadas e azuis em meios básicos e amarelos em meios muito básicos (GONÇALVES, DOS SANTOS e SILVA, 2016). Essa característica permite que sejam adquiridas soluções de diversas cores, adicionando compostos com diferentes valores de pH. O objetivo geral deste projeto é a extração de pigmentos coloridos e a criação de tintas atóxicas a partir de materiais do cotidiano, que criou uma parceria entre o Clube de Iniciação Científica do 9º ano do Colégio Militar de São Paulo (CMSP) e o Clube Zumzaravoice responsável pela apresentação cultural do CMSP no XV Jogos da Amizade (JA) do Colégio Militar. Esta parceria tem o objetivo de produzir camisetas tingidas com pigmentos coloridos provenientes de tintas orgânicas atóxicas que serão usadas pelos alunos do colégio na apresentação cultural dos JA. Para tal, serão realizados os seguintes objetivos específicos: extração de pigmentos coloridos de compostos do nosso cotidiano utilizando como solventes a água mineral e o etanol 77ºGL; monitoramento da estabilidade da coloração das soluções obtidas após a extração quando tingidas em um tecido de algodão branco; avaliação da variação de coloração e da estabilidade da tinta orgânica quando adicionados aglutinantes às soluções extraídas; seleção dos melhores pigmentos/solventes/aglutinantes para a criação das tintas atóxicas e tingimento das camisas.
Material e métodos

Para este projeto foram utilizadas algumas especiarias e condimentos (páprica, colorau, açafrão e bicarbonato de sódio) algas (spirulina verde e azul em pó), plantas (hibisco desidratado e repolho roxo) e outros materiais de uso cotidiano (limão, sabão em pó e água sanitária) para a obtenção das 5 cores de interesse: vermelho, laranja, amarelo, verde e azul. Além disso, foram utilizados béqueres, funis de vidro, espátulas, balança semi-analítica, filtro de papel, tubos de ensaio, pipetas Pasteur, um liquidificador e uma peneira. Como solventes foram utilizados água mineral e etanol 77ºGL e como aglutinantes cola branca lavável e polvilho azedo.Para a extração dos pigmentos coloridos do açafrão, colorau, páprica, spirulina azul e verde, foram pesados e misturados 25,0g de cada uma das substâncias em um volume de 50,0mL de água mineral ou 50,0mL de etanol 77ºGL em um béquer, totalizando 10 misturas. Foi realizada uma agitação mecânica com o auxílio de uma espátula. O béquer foi vedado e a mistura deixada em repouso por 24 horas. Após as 24 horas, foi realizada a filtração das soluções. Foram pipetados 10,0mL de cada uma das soluções resultantes e acondicionados em tubos de ensaio. Para o hibisco desidratado, foram pesados e misturados 50,0g do material com 250,0mL de água mineral ou etanol 77ºGL. Foram repetidos os procedimentos de extração mencionados anteriormente. Para o teste de tingimento e coloração de tecido, foram utilizados pequenos pedaços de um tecido de algodão (100%) branco. Com o auxílio da pipeta, cada pedaço foi tingido com cada uma das soluções obtidas anteriormente. Os pedaços de tecido tingidos foram colocados sobre uma superfície impermeável e catalogados de acordo com a mistura de condimentos/ especiarias/plantas e o seu respectivo solvente. Foi também analisada a fixação e variação da cor dos pigmentos no tecido com e sem a adição do agente aglutinante. No caso, foram utilizados 2 agentes aglutinantes para cada pedaço de tecido, a cola branca e o polvilho azedo (misturado com água) na proporção de 4:1 (solução:aglutinante). O processo de secagem da tinta e fixação no tecido com e sem aglutinantes e estabilidade dos pigmentos foi acompanhado durante 2 semanas. Para a extração e obtenção dos pigmentos coloridos a partir do repolho roxo, foi adicionada uma folha de repolho roxo com 1,0L de água mineral em um liquidificador. Foi realizada a turbolização do material. A mistura resultante foi peneirada e o líquido colocado em um béquer. Foram pipetados 10,0mL da solução obtida em 4 tubos de ensaio, cada um contendo aproximadamente 2,0mL de suco de limão, 2,0mL de água sanitária, 2,0g de sabão em pó e 2,0g de bicarbonato de sódio. Os tubos foram agitados mecanicamente. O processo de tingimento do tecido de algodão, a variação da cor e estabilidade do pigmento com e sem aglutinantes, o tempo de acompanhamento do processo de secagem da tinta e fixação do pigmento foi semelhante ao mencionado acima.
Resultado e discussão

Os Colégios Militares (CM) são organizações militares (OM) que funcionam como estabelecimentos de ensino de educação básica, com a finalidade de atender ao Ensino Preparatório e Assistencial. O Sistema Colégio Militar do Brasil (SCMB), realiza, anualmente, uma competição esportiva entre os 15 colégios militares existentes no sistema denominada Jogos da Amizade. A partir do ano de 2015, foi criada uma competição cultural do evento denominada Zumzaravoice que inclui apresentações de dança, música e teatro. O Colégio Militar de São Paulo teve a sua primeira participação nos Jogos da Amizade e no Zumzaravoice no ano 2022. O tema da apresentação do CMSP no Zumzaravoice no ano de 2023 engloba, além de aspectos culturais da cidade de São Paulo, temas como a sustentabilidade na economia, sociedade e meio ambiente. Baseado na sustentabilidade, foi realizada uma parceria entre a Iniciação Científica do 9º ano com o Clube de Arte, Música e Cultura (Zumzaravoice) do colégio, com o intuito de produzir tintas atóxicas coloridas e o tingimento de camisas de 5 cores variadas (azul, verde, vermelho, laranja e amarelo) para os alunos usarem na competição cultural. O tecido de algodão branco foi tingido com técnica Tie Dye, uma técnica de tingimento a frio onde podem ser criadas estampas variadas, através da amarração do tecido de diferentes formas e posterior adição das tintas obtidas. No total, foram tingidas 25 camisas, 5 de cada uma das cores obtidas: vermelho, laranja, amarelo, azul e verde. O tempo de secagem foi de aproximadamente 3 dias e as camisas ficaram com os mais diversos padrões de estampas. A extração dos pigmentos coloridos das diversas substâncias analisadas deu origem a uma diversidade de cores e tons, dependendo do solvente e da adição do agente aglutinante. Para a extração com água, os melhores resultados foram obtidos com o hibisco (coloração avermelhada), spirulina verde (coloração verde mais intensa) e spirulina azul (coloração azul claro). A mistura de água mineral com açafrão, colorau e páprica deram colorações amarelas fracas (caso do açafrão) e alaranjadas muito claras (caso do colorau e páprica), em tom quase incolor. Em relação à estabilidade, a coloração dos pigmentos extraídos do hibisco, açafrão, spirulina verde e spirulina azul não sofreram grandes variações de tons no tecido durante as 2 semanas que foram monitorados. Para a extração com etanol, os melhores resultados obtidos foram com o açafrão (coloração amarelo intensa), spirulina verde (coloração verde), colorau (coloração laranja) e spirulina azul (coloração azul claro). A mistura do etanol com a páprica deu origem a uma coloração alaranjada menos intensa e com o hibisco a uma coloração rosada. Em relação à estabilidade, a coloração dos pigmentos extraídos do açafrão, colorau, spirulina verde e spirulina azul também não sofreram grandes variações de tons no tecido durante as 2 semanas que foram monitorados. Este fato pode ser explicado pela solubilidade nos diferentes solventes: a ficocianina, responsável pelo pigmento azul da spirulina, apresenta solubilidade na água e no etanol, assim como a clorofila e clorofilina, responsável pela cor da spirulina verde, solúveis em etanol e água respectivamente. A cor laranja do colorau é derivada dos carotenoides, solventes em etanol e insolúveis em água, exceto quando formando complexos com proteínas. Este fator explica a melhor extração do pigmento laranja do colorau no etanol, comparativamente à água. A cor amarela extraída do açafrão é devida aos pigmentos curcuminoides. Este tipo de pigmentos é facilmente solubilizado em etanol, porém pouco solúveis em água. Quando encapsulados, a sua solubilidade aumenta, o que pode justificar a extração da cor amarela do açafrão também na água, porém com menor intensidade. As antocianinas são pigmentos solúveis em solventes polares, por isso solúveis em água e etanol, o que explica a sua boa extração da coloração vermelha do hibisco nos dois solventes. Em relação às misturas originárias da mistura entre a solução de repolho roxo e as substâncias do cotidiano analisadas, os resultados não foram satisfatórios em termos de coloração e estabilidade do pigmento colorido. A mistura entre a solução de repolho roxo e bicarbonato de sódio originou uma solução azul, resultando numa mistura de pH básico, corroborando com a literatura, uma vez que o pH do bicarbonato de sódio é em torno de 8,6. Entre repolho roxo e limão, deu origem a uma solução avermelhada, o que indica um pH ácido. O pH do limão gira em torno de 2, coincidindo novamente com a faixa de variação de coloração da solução de repolho roxo. A mistura entre repolho roxo e sabão em pó resultou numa solução verde-azulada clara, com pH próximo de 11, idêntico ao do soluto; e entre repolho roxo e água sanitária, uma solução amarelo-clara, que indica um pH próximo a 14. Todos os experimentos corroboram com a literatura. Porém, após 24h de monitoramento, foi observado que todos os tecidos que haviam sido tingidos com essas soluções tiveram as suas cores muito alteradas: as soluções com água sanitária e bicarbonato de sódio estavam em tons amarelo e azul aguados de fraca intensidade; a solução de sabão em pó estava incolor e a de limão em um tom rosado de fraca intensidade. Com 1 semana de monitoramento, as cores haviam praticamente desaparecido do tecido, o que mostra que a estabilidade deste tipo de solução é muito curta. Sendo assim, as soluções de colorações mais intensas e vivas escolhidas para o tingimento dos tecidos foram: açafrão com etanol (amarelo), hibisco e água (vermelho), colorau e álcool (laranja), spirulina azul e água (azul) e spirulina verde e água (verde). Após a obtenção dos pigmentos coloridos extraídos com os solventes, foi testado o efeito do aglutinante na cor e na estabilidade da tinta. A mistura do aglutinante de polvilho azedo e água não obteve resultados satisfatórios, tanto nas soluções coloridas obtidas com água, quanto com etanol, pois não foi possível solubilizar as misturas no polvilho azedo, uma vez que este ficou com uma consistência sólida. Para a obtenção de tinta, é necessário que a solução resultante seja líquida. No caso da adição da cola branca como aglutinante, houve variação de cor e um pequeno aumento da estabilidade da coloração da tinta em alguns experimentos. Foi observado que a tinta obtida a partir da spirulina azul com água manteve a sua coloração azul clara mais intensa durante as duas semanas com a adição da cola branca do que sem ela, porém ao adicionar cola branca à spirulina com álcool, esta mudou de cor e consistência, passando para uma cor azul-esverdeada e com a cola branca não se dissolvendo totalmente na mistura. No caso da spirulina verde com água, a cola branca tornou a coloração verde intensa um pouco mais clara e a tinta muito espessa. Em relação ao pigmento amarelo obtido com açafrão e etanol, a estabilidade da coloração durante as duas semanas foi semelhante, variando apenas o tom de amarelo - com cola branca o amarelo ficou um pouco mais claro. O vermelho extraído da mistura de hibisco com a água ficou em tons próximos do rosa escuro quando foi adicionada a cola branca, mudando o tom de coloração que era desejado, porém a estabilidade da cor da tinta com e sem aglutinante foi semelhante nos dois casos. Para a mistura de colorau e etanol, a mistura com a cola branca tornou o laranja menos intenso e mais voltado para um laranja salmão, não tendo ganhos significativos de estabilidade da cor, quando comparados à solução sem aglutinante.


Conclusões

A partir dos resultados obtidos, foi possível determinar as melhores substâncias e solventes para produção das cinco cores de deram origem às tintas orgânicas atóxicas do projeto. Os pigmentos coloridos selecionados derivaram das misturas de: açafrão e etanol, que deu origem a uma coloração amarelo intensa; spirulina verde e azul com água, resultando em soluções de coloração verde e azul claro, respectivamente; colorau e etanol, obtendo-se uma solução laranja e hibisco com água, para a obtenção da coloração vermelha. As misturas obtidas com a solução de repolho roxo resultaram em cores de interesse do projeto, porém a instabilidade das misturas obtidas foi inferior a 24h, o que inviabilizou o seu uso. Foi possível verificar que a adição do aglutinante polvilho azedo não obteve resultados satisfatórios e a cola branca alterou a coloração da maioria das tintas, passando-as para tons pastel. Além disso, o ganho de estabilidade da cor das tintas obtidas no tecido de algodão não foi significativo com a adição do aglutinante, durante as 2 semanas de monitoramento. O projeto possibilitou a criação e tingimento com técnica Tie Dye de 25 camisas que serão usadas pelos alunos do CMSP na competição artística Zumzaravoice no ano de 2023, seguindo o tema da sustentabilidade abordado pelo colégio na apresentação. Esta parceria permitiu a criação do primeiro projeto do grupo de Iniciação Científica do 9º ano do CMSP, criado no ano de 2023 e a sua projeção no Sistema Colégio Militar do Brasil e na comunidade.
Agradecimentos


Referências

BERMOND, J. Apostila Intuitiva de Pigmentos Naturais. Rio de Janeiro Arte da Terra, 2017. Disponível em: <https://mac.arq.br/wp-content/uploads/2016/03/Apostila-Pigmentos-Naturais,pdf.> Acesso em: 05 jun. 2023.

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PINTURA

COMO PINTAVAM OS GRANDES MESTRES


"A pintura é poesia que se vê e não se sente, e a poesia é uma pintura que se sente e não se vê." 
(Leonardo da Vinci; 1452-1519)


"Cada criança é um artista. O problema é como permanecer um artista depois de crescer." 
(Pablo Picasso; 1881-1973)



Por trás do realismo impressionante e da luminosidade etérea que imortalizaram as maiores obras da história da arte, esconde-se um segredo técnico pautado pela paciência, rigor e maestria. Pintar era uma verdadeira alquimia, desde a escolha dos pigmentos, sua moagem e preparo, produção da tinta e preparo das colas para a colagem da tela. 

Com o artista que manipula a matéria, do arqueólogo que escava os vestígios tecnológicos e do historiador que decifra os contextos cronológicos, podemos observar a evolução da pintura como uma jornada de domesticação química dos pigmentos. Nos primórdios do Paleolítico Superior, a produção das tintas baseava-se em uma alquimia de subsistência rudimentar e imediata. As análises arqueológicas das paredes rochosas de Altamira (norte da Espanha) ou da Serra da Capivara (estado do Piauí, nordeste brasileiro) revelam que o homem pré-histórico macerava minerais como o ocre, a hematita e o carvão vegetal. Esses pigmentos primitivos eram amalgamados com aglutinantes orgânicos disponíveis, tais como gordura animal, saliva, água ou sangue. Contudo, como aponta o portal de história da arte História das Artes, o naturalismo dessa arte parietal não buscava a sobreposição estruturada em fases; a tinta era aplicada de forma direta e bidimensional com os dedos, pincéis rudimentares de pelo ou técnicas de sopro, atuando muito mais como uma inscrição mística do cotidiano do que como uma ilusão de profundidade tridimensional.

A transição para uma metodologia rigorosamente estratificada começou a desenhar-se na transição da Antiguidade para a Idade Média, impulsionada pelo desenvolvimento de novos aglutinantes. Civilizações antigas, como os egípcios e romanos, expandiram a paleta cromática e introduziram ligantes como a goma arábica e a cera de abelha na encáustica. Todavia, foi a têmpera a ovo a grande precursora da pintura indireta na Europa Medieval. Sendo uma emulsão de secagem extremamente rápida, a têmpera impedia que o artista mesclasse as tintas diretamente no suporte de madeira. Conforme documentado no manual medieval De Diversis Artibus, atribuído ao monge Teófilo no século XII, os pintores eram forçados a construir os volumes de forma paciente, sobrepondo finas hachuras e camadas semitransparentes para simular gradações de luz e sombra. Essa necessidade técnica acabou por lançar as bases intelectuais para a separação sistemática entre o desenho, o valor tonal e a cor final.
O apogeu tecnológico desse processo ocorreu no século XV com o aprimoramento e a difusão da pintura a óleo, tradicionalmente associados ao mestre flamengo Jan van Eyck. Embora os óleos secantes já fossem conhecidos muito antes, os mestres do Renascimento do Norte e da Itália compreenderam que ao suspender os pigmentos em óleo de linhaça ou de nozes, obtinha-se um tempo de secagem estendido e uma transparência sem precedentes. Foi esse avanço que consolidou o Método Clássico de Camadas (ou pintura indireta), consagrado por titãs como Leonardo da Vinci, Rembrandt e Vermeer. A metodologia fatiou o ato criativo em fases perfeitamente estanques: iniciava-se pelo desenho (imprimitura), avançava-se para o estudo tonal monocromático (geralmente em tons de cinza ou esverdeados, conhecido como grisaille ou verdaccio) e finalizava-se com sucessivas camadas de velaturas transparentes (glazes). 
Conforme detalhado por Koehler (2023) essa sobreposição ótica permitia que a luz atravessasse as camadas translúcidas e rebatesse no fundo tonal ocre ou branco da tela, criando uma luminosidade e um efeito tridimensional impossíveis de replicar através da mistura física de tintas na paleta.
A revolução industrial nos séculos XVIII e XIX rompeu com essa tradição centenária de ateliê. A síntese laboratorial de novos pigmentos, como o azul de cobalto e o amarelo de cádmio, expandiu drasticamente o espectro disponível, enquanto a invenção dos tubos de metal colapsáveis em 1841 libertou os pintores da moagem manual de minerais em blocos de granito. Essa facilidade de transporte estimulou o surgimento do movimento Impressionista e da técnica alla prima (pintura direta e opaca, úmido sobre úmido), na qual a obra era concluída em uma única sessão ao ar livre. Na aurora do século XX, com a introdução das tintas acrílicas à base de polímeros plásticos e a ascensão do Modernismo, a pintura rompeu em grande parte com a ilusão do espaço tridimensional profundo. Como analisa Hatch (2026) no repositório Jackson's Art, o método clássico de camadas perdeu a hegemonia mercadológica para dar lugar à velocidade do imediatismo moderno, sobrevivendo principalmente nos bastidores da restauração e em academias focadas no resgate do realismo tradicional.

Como vimos os grandes mestres da pintura como Leonardo da Vinci (1452-1519), Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669), Paul Rubens, Diego Velasquez (1599-1660), e Johannes Vermeer (1632–1675) entre outros, utilizavam o método clássico de camadas (ou pintura indireta). Este processo leva meses devido ao tempo de secagem e é dividido em cinco etapas fundamentais, as quais estruturam a evolução meticulosa da forma, da luz e do sombreamento profundo na tela.(19&20, cozinhadapintura, chc)

1. Preparo do Suporte (a tela)
Esticagem: Fixação do tecido (linho ou algodão) em chassi de madeira.
A. Encolagem ou colagem
Historicamente, as colas mais utilizadas para a encolagem e impermeabilização das fibras da tela de pintura (como o linho e o algodão) foram as colas de proteína animal, com destaque absoluto para a cola de pele de coelho. Esse processo (conhecido como sizing ou encolagem) era vital para proteger o tecido contra a acidez corrosiva do óleo de linhaça das tintas e para esticar a tela no chassi.
A seguir apresento as colas mais usadas ao longo da história. (cozinhadapintura)

Colas animais (proteicas/colágeno)
Cola de pele de coelho (Rabbit skin glue): Considerada a mais tradicional e a mais usada desde a antiguidade até o século XX. Ela oferece excelente flexibilidade e alta tensão ao secar, esticando perfeitamente o tecido no chassi.
Cola de couro ou gelatina (Hide glue): Feita a partir de raspas de peles e tecidos conjuntivos de bovinos ou cervos. Era uma alternativa comum e ligeiramente mais barata ou acessível que a de coelho. 
Cola de peixe (Isinglass): Extraída principalmente da bexiga natatória de peixes (como o esturjão). Muito valorizada por sua pureza, transparência e alta flexibilidade, sendo amplamente usada na Ásia e na Europa Oriental. 
Cola de ossos (Bone glue): Uma variante mais rígida e escura, obtida pela fervura de ossos animais. Devido à sua falta de flexibilidade, era menos usada em telas e mais voltada para suportes rígidos de madeira ou marcenaria. 
Outras colas tradicionais
Cola de caseína: Produzida a partir da proteína do leite misturada com uma base alcalina (como cal, hidróxido de cá e bicarbonato de sódio). Embora muito resistente à umidade, tornava-se extremamente quebradiça, sendo mais aplicada em painéis de madeira do que em telas flexíveis.
Grudes de amido (trigo ou arroz): Embora fossem mais comuns na colagem de papéis e na arte oriental, em alguns períodos históricos os grudes vegetais foram testados para selar tecidos, mas caíram em desuso por serem muito suscetíveis a fungos e insetos.


B. Imprimatura (gesso): Camadas de gesso tradicional (cola + carbonato de cálcio) lixadas até a superfície parecer marfim. 

2. O Desenho inicial (imprimatura colorida e esboço)
A. Fundo tonal: Aplicação de uma camada fina e transparente de tinta terrosa (geralmente Siena Queimada ou Umbra).
B. Desenho: Esboço dos contornos feito com carvão ou pincel fino usando tinta diluída.
C. Fixação: Remoção do excesso de carvão, deixando apenas as linhas guias.

3. Subpintura (underpainting ou grisaille)
A. Monocromia: Pintura de toda a tela usando apenas tons de cinza (Grisaille) ou esverdeados (Verdaccio para peles).
B. Foco: Definição absoluta de luz, sombra, volumes e valores tonais, ignorando as cores finais.
Regra de ouro: Aplicação baseada no princípio do "gordo sobre magro" (camadas iniciais têm menos óleo e mais solvente). 

4. Camadas de cor (veladuras ou glazing)
A. Transparência: Aplicação de camadas ópticas ultrafinas de tinta a óleo misturada com muito meio (óleo de linhaça e resina).
B. Efeito ótico: A luz atravessa a camada colorida transparente, bate na subpintura clara e volta para o olho do observador.
C. Mistura ótica: O azul transparente sobre o fundo amarelo cria um verde muito mais vibrante do que se misturado na paleta.

5. Detalhes finais e verniz
A. Empastamento (impasto): Aplicação de tinta pura e espessa com pincel ou espátula nas áreas de brilho máximo (luzes altas).
B. Secagem: Cura total da pintura por um período de 6 a 12 meses.
Verniz de acabamento: Aplicação de verniz final (historicamente resina Damar) para unificar o brilho e proteger a obra.


O cenário moderno

Com o avanço da indústria química no século XX, as colas naturais foram amplamente substituídas por resinas sintéticas. Hoje em dia, os artistas utilizam predominantemente a cola PVA (acetato de polivinila) ou o gesso acrílico, que não ressecam com o tempo, são imunes a pragas e eliminam o risco de apodrecimento das fibras.

TINTA ÓLEO

O uso de tinta a óleo em uma superfície lisa e uniforme é consideravelmente diferente do preparo do suporte para midias mista ou para o acrílico. O óleo exige uma barreira absoluta para não deteriorar o suporte (tecido ou madeira), já que contém ácidos graxos, e o processo de lixamento deve ser impecável para que a tinta deslize como vidro.
Apresento um roteiro técnico que já usei para preparar sua tela ou painel para a pintura a óleo em uma superfície lisa:

1. Impermeabilização (isolamento total) 
Barreira química: A tinta a óleo contém ácidos linoleicos que corroem as fibras do algodão, do linho ou da madeira ao longo dos anos.
Aplicação: Aplique duas demãos de cola de acetato de polivinila (PVA) com pH neutro (específica para conservação de arte) ou resina acrílica pura (como o Paraloid B-72 ou médium acrílico). Isso sela os poros e impede que o óleo do ligante seja sugado pelo suporte.

2. Aplicação do gesso acrílico (primer)
Diluição: Use gesso acrílico tradicional. Para obter a lisura desejada, dilua a primeira camada com 10% a 15% de água destilada para que ela assente de forma bem plana.
Técnica de aplicação: Esqueça trinchas grossas que deixam marcas de cerdas. Use um rolo de espuma de alta densidade (aqueles de acabamento fino) ou uma espátula larga de inox para esticar o gesso como se estivesse aplicando massa corrida.
Número de demãos: Aplique de 4 a 5 demãos bem finas. Camadas grossas acumulam relevo e são difíceis de nivelar.

3. O Segredo do lixamento "espelho"
Tempo de cura: Aguarde pelo menos 4 a 6 horas entre as demãos. Não tenha pressa.
Grão das lixas: Use o método progressivo. Após a segunda demão, use uma lixa grão 320. Após a terceira, grão 400.
Acabamento final: Após a última demão, use uma lixa d’água grão 600 ou 800 seca. Esfregue em movimentos circulares leves até que a superfície pareça uma folha de papel acetinado ou marfim ao toque. Limpe todo o pó com um pano de microfibra úmido. 

4. Ajuste da absorção (a imprimação)
Aderência do óleo: Uma superfície excessivamente lixada e selada com acrílico pode ficar escorregadia demais, fazendo com que a tinta a óleo perca aderência a longo prazo (fenômeno de "rejeição").
Solução clássica: Aplique uma camada ultrafina de imprimação tradicional (Underpainting). Misture uma cor neutra (como terra de siena queimada ou cinza) bem diluída em solvente mineral (mineral spirits) e passe uma camada quase transparente sobre a tela lisa, limpando o excesso com um pano de algodão. Essa microcamada fosca dará a "mordida" necessária para as pinceladas a óleo subsequentes.


MÍDIA MISTA


Para trabalhar com mídias mistas sobre uma superfície perfeitamente lisa e uniforme, o segredo está no equilíbrio entre a aderência química e o lixamento mecânico. Como você vai misturar diferentes materiais (como nanquim, grafite, marcadores, acrílica ou colagem), a base precisa aceitar mídias secas e úmidas sem descascar ou absorver excessivamente o pigmento. A seguir, apresento o passo a passo técnico para preparar essa superfície ideal:

Escolha e selagem do suporte
Base rígida: Prefira painéis de madeira (MDF ou compensado naval) ou telas de algodão de trama muito fina (como o brim leve). Painéis rígidos evitam rachaduras em camadas de mídias mistas.

Isolamento inicial: Aplique uma demão de selador acrílico ou resina acrílica diluída. Isso impede que os ácidos da madeira ou do tecido manchem a pintura no futuro.

Aplicação e lixamento do gesso
Gesso acrílico: Use um gesso acrílico de alta qualidade. Adicione cerca de 10% de água na primeira demão para que ele penetre bem nos poros.

Camadas cruzadas: Aplique de 3 a 4 demãos finas. Alterne o sentido das pinceladas: se a primeira for horizontal, a segunda deve ser vertical.

Lixamento progressivo: Deixe secar por pelo menos 3 horas entre as demãos. Lixe suavemente entre cada camada usando uma lixa d'água grão 220, e use uma lixa grão 400 ou 600 após a última demão para obter o efeito liso "pele de ovo".

Ajuste de absorção (o ponto crítico)
Textura tátil: O gesso lixado fica extremamente macio, mas muito absorvente (poroso). Marcadores e nanquim podem "sangrar" ou borrar nas bordas se aplicados diretamente.

Camada de barreira: Para mídias mistas, aplique uma demão final de Matte Medium (médium acrílico fosco) puro ou levemente diluído sobre o gesso lixado.

Resultado: Isso criará uma película impermeável e acetinada. Ela mantém a superfície perfeitamente lisa, mas impede a absorção descontrolada, permitindo que canetas e tintas fiquem vibrantes na superfície.




Fonte



























PAPEL MACHÊ

PAPEL MACHÊ
UMA VISÃO CIENTÍFICA 


Papier mache donuts (1)

Donuts feito com papel machê
(



"Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma".
Lei da conservação da massa enunciada por Antoine-Laurent de Lavoisier (1743-1794)

Cores do mar, festa do sol
Vida fazer todo o sonho brilhar
Ser feliz, no teu colo dormir
E depois acordar
Sendo o seu colorido
Brinquedo de papel maché

Cores do mar, festa do sol
Vida fazer todo o sonho brilhar
Ser feliz, no teu colo dormir
E depois acordar
Sendo o seu colorido
Brinquedo de papel maché

Dormir no teu colo é tornar a nascer
Violeta e azul outro ser
Luz do querer

Não vai desbotar, lilás cor do mar
Seda cor de batom
Arco-í­ris crepom
Nada vai desbotar
brinquedo de papel machê

(Papel Machê, João Bosco, 1984)


A sala de aula é um laboratório vivo onde a matéria bruta encontra a criatividade e se converte em pensamento crítico, sensibilidade e expressão autoral. Iniciar as práticas de modelagem em papel machê é abrir um portal para a ideia da modelagem e da tridimensionalidade, oferecendo uma experiência tátil que conecta à mente, ao gesto, à estética e convida a subverter a lógica do descarte. 

Ao transformar jornais velhos, caixas de papelão, embalagens para ovos e papéis usados em uma massa moldável e durável, o estudante compreende que o ato criativo carrega uma profunda responsabilidade ecológica e social. A reciclagem na arte transcende o utilitarismo ecológico, convertendo resíduos cotidianos em suportes poéticos repletos de novas narrativas texturais e conceituais.

Como linguagem visual tridimensional, o papel machê consolida-se como um produto artístico legítimo e de pleno direito, equiparando-se historicamente à pintura, à escultura em bronze ou ao mármore. Afinal, a relevância de uma obra reside na idea criativa, na força de sua poética, no domínio técnico de sua execução, e não na sofisticação financeira de sua matéria-prima, pelo menos não deveria. Historicamente, essa técnica viabilizou manifestações fundamentais da cultura visual, desde máscaras ritualísticas e ornamentos teatrais antigos até as esculturas modernas que desafiam o peso e o espaço. 
Ao moldar essa massa, o estudante não realiza um mero passatempo decorativo, mas sim uma pesquisa formal séria que investiga conceitos de equilíbrio, luz e sombra e volume. 
A prática regular com o papel machê desafia a hierarquia tradicional dos materiais artísticos e expande as fronteiras metodológicas dentro da própria arte-educação. Esse processo experimental nos ensina que a criatividade humana é capaz de extrair beleza estética do que a sociedade rotula como obsoleto ou descartável. Dominar essa técnica significa instrumentalizar a imaginação para democratizar o fazer artístico, mostrando que o repertório crítico se constrói no manuseio atento de elementos simples. 

Dessa forma convido você a mergulhar os dedos nessa massa viva, compreendendo que cada forma esculpida é uma extensão legítima do pensamento contemporâneo e um testemunho do poder transformador da criação.

Compreender que o papel machê (papier mâché) não é meramente uma atividade recreativa, mas como um processo de engenharia de materiais biopoliméricos aplicado à tridimensionalidade.

Abaixo, apresento a formulação técnico-científica para a obtenção de uma polpa celulósica estável e homogênea, seguida pelo referencial teórico e repositórios práticos.

Formulação científica: massa base de polpa celulósica

O objetivo inicial deste procedimento é a desestruturação mecânica das fibras de celulose (que formam o papel) e sua posterior reaglutinação macromolecular por meio de um polímero adesivo sintético (PVA) e cargas minerais como gesso CaSO₄⋅0,5H₂O (sulfato de cálcio hemi-hidratado), garantindo estabilidade dimensional, plasticidade e resistência mecânica após a cura (secagem).

1. Insumos e reagentes

Matriz Celulósica
1 rolo de papel higiênico neutro de folha simples (alta hidrofilidade e fácil desintegração).

Agente Aglutinante / Matriz Polimérica
500g de Adesivo de Acetato de Polivinila (Cola PVA extra-branca com alto teor de sólidos).

Carga Mineral / Agente de Reforço
3 colheres de sopa de sulfato de cálcio hemihidratado (Gesso de secagem lenta) ou amido de milho (modificador de reologia).

Agente Conservante / Fungicida
3 colheres de sopa de ácido acético comercial (Vinagre de álcool) ou cloreto de sódio (Sal de cozinha), atuando como biocidas.

Veículo Solvente
Água destilada ou potável aquecida (approx 50ºC).


2. Protocolo de preparo (Metodologia)

Desfibramento hidrolítico
Submerja os fragmentos da matriz celulósica na água aquecida aditivada com o agente conservante. Permita a hidratação por 60 minutos para fragilizar as ligações de hidrogênio interfibras.

Comunuição mecânica
Submeta a mistura a cisalhamento mecânico (utilizando um mixer ou liquidificador industrial) até a completa homogeneização e formação de uma suspensão polposa, sem grumos visíveis.

Extração de solvente (sinfonagem/filtragem)
Deposite a polpa sobre um elemento filtrante têxtil de algodão de malha fina. Exerça pressão manual compressiva contínua para eliminar o excesso de umidade. A massa deve atingir um estado úmido estável (ponto de saturação sem gotejamento).

Agregação de elementos críticos
Transfira a polpa prensada para um cadinho ou bacia seca. Fragmente-a manualmente até obter um aspecto flocado. Adicione gradualmente o adesivo PVA.

Adição de carga reológica
Incorpore o sulfato de cálcio ou amido. Inicie o processo de mistura e sova mecânica. A massa estará estabilizada quando apresentar comportamento plástico não-newtoniano: maleabilidade ideal, coesão estrutural e ausência de adesividade nas mãos do operador.

Acondicionamento e conservação
Armazene o composto em invólucro polimérico hermético (filme de PVC ou saco plástico sem ar), mantido sob refrigeração (4ºC a 7ºC) para mitigar a proliferação de microrganismos e a evaporação precoce da água residual.



OUTRAS FORMAS DE FAZER


Materiais Base (A Massa)
Papel: jornal, papel higiênico neutro ou caixas de ovo de papelão.
Água morna: acelera a desintegração das fibras do papel.
Cola branca (PVA): garante a liga e a resistência após a secagem.
Farinha de trigo ou gesso: serve para dar corpo e textura à massa.
Vinagre branco: poucas gotas evitam o mofo durante a secagem.

Ferramentas de Preparo e Modelagem
Balde plástico: essencial para deixar o papel de molho.
Liquidificador ou mixer: opcional, mas agiliza a trituração das fibras.
Peneira fina ou pano velho: serve para escorrer o excesso de água.
Bacia grande: para misturar o papel escorrido com a cola.
Espátulas de plástico: auxiliam na modelagem dos detalhes.
Óleo de cozinha ou vaselina: para untar moldes e evitar que a massa grude.

Estrutura de Suporte (Armadura)
Arame galvanizado: ideal para criar o "esqueleto" de esculturas altas.
Fita crepe: fixa os elementos da estrutura decorativa.
Papel alumínio ou garrafas PET: preenchem volumes grandes e economizam massa.

Acabamento e Pintura
Lixa fina para madeira: nivela imperfeições após a secagem completa.
Tinta acrílica ou guache: confere cor e excelente cobertura à peça.
Verniz acrílico (fosco ou brilhante): sela e protege o trabalho contra umidade.


Papel machê com liquidificador

Encha o liquidificador com água e coloque um pouco desse  papel. A proporção é, mais ou menos, três partes de água para uma parte de papel.

Bata por dez segundos e desligue. Espere um minuto e bata novamente por mais dez segundos.

Em seguida despeje toda a massa numa peneira ou esprema com um pano de prato, espremendo até sair todo o excesso de umidade. 

Esfarele a massa e espalhe ela numa bacia, misture 200g de cola branca, 1 tampa de vinagre ou clorofina, 2 colheres e meia de gesso de secagem lenta e 1 colher de gesso comum, até ficar uma massa homogênea.

Por fim, junte à massa um mingau de farinha de trigo para que ela não fique partindo. O mingau pode ser feito com duas colheres de sopa de farinha de trigo com dois dedos de  água até engrossar, e antes de misturar espere esfriar.


Papel machê com embalagem de ovo

Separe a caixa de ovo e picote (fragmente) toda a caixa em pedacinhos pequenos. Em seguida, coloque os pedaços numa tigela cobrindo-os com água, deixe de molho por 24 horas. 

Coe e retire o excesso espremendo o papel com as mãos, depois coloque a massa de papel dentro Receita de papel machê com papel higiênico Culináriae receitas



Papel machê com papel higiênico

Picote todo o papel higiênico que será usado e despeje os pedaços em um recipiente com água. Deixe de molho por 12 horas (pode ser menos tempo), amasse bem o papel com água e, em seguida, coe e esprema bem com um pano de prato para retirar o excesso de água.

Esfarele a massa, misture a cola branca até desgrudar das mãos. Por fim, adicione uma tampinha de Lysoform ou clorofina e misture novamente. misture bastante, pode colocar no liquidificador para esfarelar bem.

Tire do liquidificador e acrescente cola branca e misture bem. Acrescente amido de milho (maizena) aos poucos e vá amassando como a massa de pão. 
Amasse até ficar consistente.



Papel machê com jornal velho

Pegue o jornal e rasgue em vários pedacinhos, colocando-os em um recipiente com água morna. Deixe de molho por 24 horas.

Coe numa peneira ou em um pano de prato mesmo, depois esprema bem para tirar o excesso de água.

Adicione a cola aos poucos e vá amassando, se quiser acrescente a maixena ou a farinha de trigo e amasse bem. Quando der liga a massa vai estar uniforme e desgrudando das mãos.



Papel machê com amido de milho

Coloque o papel que será usado em um recipiente com água e deixe de molho. Essa parte você já aprendeu né? Mas para essa receita, acrescente

Depois de pelo menos 12 horas de molho, vá esfarelando o papel ainda dentro d’água. Em seguida, coe bem e esprema para tirar o excesso de umidade.

Em uma outra tigela ou bacia sem água, esfarele o papel ao máximo. Acrescente o amido de milho e cola branca. Vá colocando aos poucos para ter controle da quantidade, a proporção é 2 colheres de amido de milho para um copo médio de cola branca.

Amasse bem até chegar ao ponto da massa: bem uniforme e desgrudando das mãos.
























Fundamentação teórica e 
literatura recomendada

A validação metodológica desta receita fundamenta-se nos seguintes estudos sobre conservação, restauro e manufatura tridimensional:

D’ALMEIDA, M. L. O. Celulose e Papel: Tecnologia de fabricação do papel. São Paulo: IPT/SENAI, 1988. (Essencial para compreender a estrutura físico-química das fibras de celulose e sua capacidade de absorção e aglutinação).

MAYER, Ralph. The Artist's Handbook of Materials and Techniques. New York: Viking Press, 1991. (A bíblia dos materiais de arte; detalha o comportamento biopolímero do papel machê e o uso de gesso e conservantes químicos para longevidade da obra).

REEDER, Dan. The Dragon Factory / Papier Mache Monsters. San Rafael: CreateSpace, 2011. (Literatura contemporânea com foco em engenharia estrutural de esculturas complexas e reologia de colas orgânicas e sintéticas).

RUSH, Peter. Papier-Mache. London: Macmillan, 1980. (Aborda a evolução histórica da modelagem em polpa e as transições de ligantes tradicionais, como o grude de farinha, para os polímeros modernos).

Acervo de Demonstração Visual (Aulas Práticas e Tutoriais)

Para fins de fixação didática e análise empírica do processo físico de mistura, recomendo a consulta aos seguintes repositórios e registros audiovisuais:

Técnica Tradicional com Papel Higiênico e Gesso: No registro Como fazer papel machê da maneira correta, demonstra-se metodicamente a adição de gesso para ganho de rigidez estrutural estruturada.

Abordagem Sustentável com Celulose Reciclada: O vídeo Como fazer MASSA de PAPEL MACHÊ com CAIXA DE OVOS explora a utilização de matrizes de celulose moldada e o uso do vinagre de álcool como agente conservante ativo.

Formulações com Ligantes Orgânicos Tradicionais: A plataforma internacional Ultimate Paper Mache Recipes fornece um denso estudo comparativo sobre o comportamento de colas de farinha crua e cozida na coesão do papel.

Processamento Técnico Simplificado: No vídeo Como Fazer Papel Machê com Ingredientes Simples, detalha-se o fracionamento térmico e mecânico das fibras utilizando um mixer e a aplicação de cloreto de sódio antifúngico.

Metodologias de Escultura e Acabamento Isento de Lixamento: A Aula gratuita do curso Escultura de Papel Machê aborda a análise comparativa entre as texturas geradas por diferentes fontes de fibra (papéis lisos vs. papéis rústicos).



Pequenos videos



Pote ou tigela de papel machê

Máscaras e esculturas

Tigela grande para frutas

Planeta ou globo de luz

Globo e figura

Ovo



 OBRAS EM PAPEL MACHÊ



























ARTE E RECICLAGEM




























































































































QUÍMICA DAS CORES

A QUÍMICA DAS CORES Como professor de Arte e pesquisador da história dos materiais cromáticos, compreendo o fascinante universo que conecta ...