terça-feira, 17 de março de 2026

ARTE ABSTRATA E ABSTRAÇÃO 3

ARTE ABSTRATA E ABSTRAÇÃO

A arte abstrata, ou abstracionismo, constitui uma das transformações decisivas da linguagem artística no século XX. Diferentemente das tradições figurativas, ela não se orienta pela representação reconhecível de objetos, figuras humanas ou paisagens, mas pela organização autônoma de formas, cores, linhas, texturas e campos cromáticos. 

Nessa perspectiva, a obra desvincula-se da obrigação de espelhar o real ou da imitação do mundo sensível, a mímesis, e passa a afirmar a autonomia dos elementos visuais como portadores de significação estética.
Em vez de reproduzir a aparência das coisas, a arte abstrata privilegia a expressão de estados interiores, ritmos formais e tensões visuais, abrindo espaço para uma experiência estética essencialmente subjetiva. A imagem já não depende de um referente objetivo no mundo exterior; ao contrário, ela se estrutura como um campo de relações internas, cuja interpretação se realiza no encontro do expectador e da obra. 

Por um lado o procedimento da arte abstrata afirma a ruptura com a figuração e enfatiza a autonomia dos elementos das artes visuais. Por outro, nosso cérebro conta com um processo engenhoso e sintético: a abstração que é o processo mental de isolar um aspecto, conceito ou ideia de um objeto concreto, enfatizando no que é essencial e ignorando detalhes julgados desnecessários. É a capacidade de simplificar a complexidade, transformando experiências em conceitos gerais e imagens não figurativas.

Em contraposição aos preceitos estéticos do Renascimento e à tradição da arte figurativa, a arte abstrata, também chamada de abstracionismo, distancia-se da proposta de narrar eventos ou representar a realidade de modo literal (mimese). Seu propósito fundamental é evocar sensações e estimular a imaginação do observador por meio da exploração das relações formais entre cores, linhas, texturas, planos e superfícies. Trata-se de uma linguagem plástica não representacional, que se desdobra, predominantemente, em três vertentes: a abstração lírica, a abstração geométrica e o expressionismo abstrato.

Arte abstrata: uma reflexão 

Como artista e professor, proponho que façamos uma reflexão sobre a natureza da imagem e a revolução silenciosa que a arte abstrata operou em nossa percepção estética. Para compreender a sua essência, é fundamental colocá-la em contraste com a sua antecessora milenar: a arte figurativa.

Convido-os a um exame profundo sobre a ontologia da imagem e a "revolução silenciosa" que a arte abstrata desencadeou em nossa percepção. Para decifrar o código da abstração, é imperativo confrontá-lo com sua gênese: a arte figurativa, que por milênios dominou o olhar ocidental através do conceito de mímesis. Enquanto a figuração busca a "imitação da natureza", como descreveu Aristóteles em sua Poética, a abstração rompe esse espelho. Segundo Wassily Kandinsky, em sua obra clássica Do Espiritual na Arte (1911):

"Quanto mais o mundo se torna terrível, tanto mais a arte se torna abstrata, ao passo que um mundo feliz produz uma arte realista."

Essa mudança não foi apenas técnica, mas uma alteração na própria estrutura do pensamento estético. Deixamos de buscar o "que" a imagem representa para sentir "como" os elementos puros, a linha,  a forma e cor, ressoam na alma. Como bem salientou o crítico Clement Greenberg, a arte moderna se volta para si mesma, encontrando na sua própria materialidade e aparecimento a sua justificativa de existência.

Visualização: O Espectro da Representação
Podemos afirmar que a arte desde o paleolítico superior até o final do seculo XIX toda arte produzida pelo ser humano é uma arte figurativa. E que a partir dessa data (final do seculo XIX) ocorreu uma desintegração da figura, ocorreu uma transição: o foco no objeto externo (figuração, mímesis) passa à exploração do sentimento e forma pura (abstração, arte informal) (que não possui formas reconhecíveis da natureza).
Isso nos mostra que, enquanto a arte figurativa exige que o espectador identifique formas conhecidas, a abstração opera em um campo de autonomia estética, onde o significado é construído na relação direta entre a obra e a subjetividade de quem a vê de quem a contempla.

A longa sombra da mímesis
A mímesis (ou mimese), entendida como a capacidade humana inata de imitar, representar e recriar a realidade, iniciou-se com a própria origem da humanidade. Embora o conceito tenha sido formalizado e analisado pelos filósofos gregos, Platão e Aristóteles na antiguidade, a prática mimética é conatural ao ser humano (Poética, Aristóteles) e acompanha a história do pensamento desde os tempos pré-históricos, durante o período Paleolítico, com evidências que remontam a mais de 50.000 anos atrás, expressando-se principalmente através da arte rupestre (pinturas e gravuras em cavernas) e pequenas esculturas, que coincide com a "explosão criativa" do Paleolítico Superior, quando o Homo sapiens moderno começa a produzir registros simbólicos sistemáticos. Podemos ver supor que essa característica, a de imitar, tem se expressado na aprendizagem infantil e nas primeiras formas de arte (Gombrich, 1995).
Desde sempre a arte ocidental foi dominada por um conceito central: a mímesis ou mimese. A palavra mímesis ou mimese, originária da Grécia antiga, μίμησις, mímēsis, é geralmente traduzida como “imitação” ou “representação”.
No entanto, para os seus primeiros pensadores, Platão e Aristóteles, o conceito era mais profundo do que uma simples cópia da realidade.

De simulacro enganoso à técnica exaltada
Para Platão, a mimesis (simulacro) era problemática. Para ele a verdadeira realidade habita o mundo espiritual (o mundo Hiperurânico ou Mundo das Ideias). O mundo físico que percebemos através dos sentidos seria uma cópia imperfeita do mundo ideal das “Formas”, εἶδος (eidos) de ode vem, ἰδέα (ideia) ou μορφή (morphē), "forma" que estavam na mente de um demiurgos.  
A arte, ao imitar o mundo físico, tornar-se-ia, portanto, uma “cópia da cópia”, uma cópia de segunda mão, afastando-se ainda mais da verdade. Era uma ilusão, um simulacro perigoso por enganar os sentidos.
Enquanto que para Aristóteles, a mímesis tinha um valor cognitivo e catártico fundamental. Em sua Poética, Περὶ ποιητικῆς, Peri Poietikês; latim: poiétikés ele defende que o ser humano tem um prazer natural em imitar e em reconhecer a imitação. 
A tragédia, por exemplo, imita ações humanas não para copiá-las servilmente, mas para universalizá-las, provocando no espectador a catarse (purificação da alma ou das emoções). A mímesis aristotélica não é cópia, mas sim uma representação idealizada e estruturante da realidade, que nos ajuda a compreendê-la. Assim, para Aristóteles, a mimese inclui tanto simulação (imitação) quanto emulação (superação) e implica identidade, embora não de modo completo, já que há semelhanças e diferenças na emulação e na simulação, quer dizer, há uma relação em que se percebe o que é emulado ou simulado, só possível pela aproximação da semelhança e pela distância da diferença. A mimética implica, por assim dizer, proximidade e distância, próprios da imitação (Silva, 2013).
Essa visão aristotélica, reinterpretada no Renascimento, solidificou a mímesis como o grande objetivo da arte. A pintura era vista como uma “janela para o mundo” (Leo Battista Alberti 1404-1472), e a excelência do artista era medida pela sua habilidade em iludir o olhar, em criar a ilusão de profundidade, volume e vida. 
A arte figurativa, portanto, sempre manteve um vínculo semântico (de sentido e significado) com o mundo objetivo: um quadro representava algo reconhecível, uma maçã, uma pessoa, uma paisagem, um mito, um deus. 

Pode-se dizer que a mímesis (imitação ou representação da natureza/realidade) perdurou desde as pinturas rupestres como o paradigma dominante na história da arte ocidental passando pela Grécia antiga até meados do século XIX. O seu enfraquecimento começou com o Impressionismo e consolidou-se com o surgimento da fotografia e movimentos de vanguarda, como o Abstracionismo que libertaram a arte da obrigação de reproduzir fielmente o mundo visível.
A mímeses tem persistido milênios porque ela não é apenas uma técnica artística, mas um mecanismo cognitivo fundamental do ser humano para compreender, interagir e comunicar sua experiência no mundo. Ela evoluiu de uma ferramenta de sobrevivência e magia para um sistema complexo de representação artística.

Arthur Danto afirma que o "fim da narrativa da mimese" representa o encerramento de uma longa história ocidental em que a arte era definida pelo progresso técnico na imitação fiel da realidade (representação). 
Para Danto, essa narrativa terminou quando a arte atingiu um ponto de autoconsciência filosófica, onde a capacidade técnica de imitar a realidade tornou-se irrelevante, libertando a arte para ser qualquer coisa.
Nesse sistema mimético o significado da obra estava, em grande parte, atrelado a esse objeto externo a ela.

A emancipação do olhar: a Arte Abstrata e a ruptura com a mímesis
A ruptura com a milenar tradição da mimesis (imitação da realidade/natureza) não ocorreu em um único momento, mas foi um processo gradual de crise da representação que se intensificou entre o final do século XIX e o início do século XX. Esse processo substituiu a arte como "espelho da natureza" por uma arte focada na subjetividade, na abstração e na fragmentação da realidade.

O ponto de ruptura modernista
Por volta do final do século XIX e início do XX ocorreu um momento histórico em que a importância da "cópia da realidade" deixa de ser o objetivo principal e a "liberdade da forma" passa a ser o novo norte. É aqui que situamos movimentos como o Impressionismo, o Cubismo e Fauvismo, onde ainda reconhecemos formas, mas a estética já começa a dominar a representação.

A arte abstrata, que inicia no final do século XIX e emerge com força no início do século XX, promove uma ruptura radical com essa tradição de dois milênios de pesquisa, reflexão e aprimoramento. Ela não é apenas um estilo, mas uma mudança de paradigma filosófico. Sua característica fundamental é a ausência de mímesis, a renúncia voluntária à representação do mundo visível.
Ao abolir o objeto reconhecível, ou a imitação, a arte abstrata rompe o vínculo semântico com a realidade externa. O quadro deixa de ser uma “janela” e torna-se um objeto em si mesmo e passa a ser um espelho, um campo autônomo de forças plásticas. 

A abstração não é vista apenas como um estilo, mas como uma ruptura que alterou a lógica da representação visual. Embora a abstração "pura" tenha se consolidado no início do século XX, ela gerou uma reação em cadeia que moldou quase toda a produção contemporânea.
Aqui estão os principais movimentos diretamente influenciados ou derivados da abstração:
Suprematismo e Construtivismo: Na Rússia, Malevich e Tatlin levaram a abstração ao limite geométrico e funcional, focando na "pureza" da forma e na utilidade social da arte.
De Stijl (Neoplasticismo): Liderado por Piet Mondrian, buscou a harmonia universal através de cores primárias e linhas retas, influenciando drasticamente o design e a arquitetura moderna.
Expressionismo Abstrato: O grande movimento pós-Segunda Guerra (Pollock, Rothko) que focou na gestualidade, na emoção e na escala monumental, eliminando qualquer figuração.
Minimalismo: Surgido nos anos 60, radicalizou a abstração ao focar na materialidade e no objeto "como ele é", sem metáforas ou subjetivismo emocional.
Op Art (Arte Óptica): Utilizou a abstração geométrica para explorar fenômenos ópticos e a percepção visual do espectador (como nas obras de Bridget Riley).
Abstração Informal (Tachismo): A resposta europeia ao expressionismo norte-americano, voltada para a manchas e campos de cor e no improviso matérico.

O que vemos não é a imagem de uma coisa, mas a própria coisa: a tela, a tinta, a linha, a cor, a textura, a ação, o gesto. Essa ausência de mímesis manifesta-se de diversas maneiras:

1. Abstração Lírica ou Sensível (Kandinsky)
Na abstração lírica, a arte busca expressar diretamente o mundo interior do artista, emoções, sensações, espiritualidade, sem a intermediação de figuras reconhecíveis. Kandinsky acreditava que a cor e a forma eram capazes de produzir uma “vibração na alma” do espectador, tal como a música, uma arte intrinsecamente não-figurativa. A pintura deveria ser um instrumento de expressão pura, libertando-se da tirania do objeto.

2. Abstração Geométrica ou Construtiva (Mondrian, Malevich)
Na concepção de Mondrian, a arte deveria buscar a realidade última e universal, que ele acreditava residir nas estruturas subjacentes ao mundo, as linhas retas, os ângulos retos e as cores primárias. Sua arte não imita a natureza, mas pretende revelar as suas leis plásticas fundamentais. Enquanto Malevich, com seu Suprematismo, levou essa ideia ao extremo ao apresentar um simples quadrado preto sobre um fundo branco. Para ele, o “quadrado preto” era o “grau zero” da pintura, a completa emancipação da arte do peso do mundo objetivo, um ícone da sensibilidade não-objetiva.

3. Expressionismo Abstrato (Pollock)
Nas drippings paint de Pollock (Action painting) , a mímesis é totalmente abolida. A tela, estendida no chão, torna-se uma arena para a ação do artista. O que vemos é o registro direto do movimento, do gesto, da energia vital do pintor. A pintura é um evento, um rastro um vestígio de um processo, e não a representação de algo exterior a ela.

A nova experiência estética: do reconhecimento à vivência

A ausência de mímesis na arte abstrata altera fundamentalmente o papel do espectador. Diante de uma obra figurativa, nossa mente inicia um processo de reconhecimento e identificação: “isto é uma mulher, isto é uma montanha, isso é uma maçã, uma caveira, uma bolha de sabão”.... Esse reconhecimento nos dá uma segurança inicial, uma âncora no mundo conhecido, e logo após iniciamos uma tentativa de narrativa, de entendimento. A partir daí, podemos então apreciar como o artista representou aquela mulher ou montanha, a pincelada, a cor, a composição.
Diante de uma obra abstrata, esse processo de reconhecimento é negado. Somos confrontados com o “nada figurativo”, o que pode gerar, num primeiro momento, estranhamento ou frustração. 
No entanto, é exatamente nesse vazio que se abre a possibilidade de uma nova experiência estética. Sem a muleta do tema, de elementos que podemos reconhecer somos convidados a uma vivência direta dos elementos plásticos:
somos forçados a sentir a tensão entre uma linha e outra.
A vibrar com a dissonância ou a harmonia das cores. A perceber o peso, a leveza, a densidade das formas e texturas. A acompanhar o ritmo visual do gesto do pintor.

A obra de arte abstrata não conta uma história, não ilustra um mito, não esclarece um evento, não retrata uma pessoa. Ela apresenta uma realidade, em vez de re-apresentar uma realidade conhecida. Ela é, em sua essência, um convite à introspecção e à percepção pura, um diálogo silencioso entre a materialidade da obra e a subjetividade do espectador.

Em suma, se a arte figurativa, por meio da mímesis, nos devolve o mundo transformado pela mão do artista, a arte abstrata nos oferece algo mais radical: a possibilidade de experienciar o próprio ato criador e a potência expressiva da matéria, libertos da obrigação de imitar aparências conhecidas. Ela não é a negação da realidade, mas a afirmação de uma nova realidade: a da própria arte.


RESUMO COM EXEMPLOS

1. Abstracionismo geométrico ou construtivo
Mondrian buscava uma arte universal, baseada na simplificação das formas e no uso de elementos plásticos elementares, como linhas retas, ângulos retos e cores primárias, expressando uma harmonia pautada pela reflexão intelectual e pela ordenação do espaço pictórico.
O abstracionismo geométrico ou construtivo de Piet Mondrian, base do Neoplasticismo, caracteriza-se pela redução da arte a elementos visuais puros e geométricos para buscar uma harmonia universal e espiritual ancorando-se em princípios da racionalidade, princípios filosóficos particulares de Mondrian, no equilíbrio estrutural e rigor compositivo. A fase final desse procedimento do artista utiliza apenas linhas pretas retas (horizontais/verticais), cores primárias (vermelho, amarelo, azul) e neutras (branco, cinza, preto), criando uma grade abstrata e não figurativa.

Características do abstracionismo de Mondrian

Neoplasticismo
Mondrian denominou seu estilo de "Neoplasticismo", onde buscava a expressão da "harmonia universal" através de uma ordem matemática e racional. O que resume a essência do pensamento de Piet Mondrian, o Neoplasticismo (Nova Arte Plástica, "Nieuwe Beelding" em holandês) não foi apenas um estilo artístico, mas uma teoria filosófica e estética profunda que ele desenvolveu a partir de 1917, intimamente ligada ao grupo e à revista De Stijl. Buscando a expressão da "harmonia universal" através de uma ordem matemática e racional. O grupo De Stijl era formado por Piet Mondriam, Theo van Doesburg (pintor e arquiteto), Gerrit Rietveld (arquiteto e designer de móveis), Bart van der Leck (pintor), e J.J.P. Oud (arquiteto).

Geometria Rigorosa
Uso exclusivo de formas geométricas planas, principalmente retângulos e quadrados, dispostos em grades perpendiculares.

Paleta Limitada
Utilização de cores primárias puras (vermelho, amarelo, azul) e cores neutras (branco, preto, cinza), rejeitando cores secundárias ou misturas complexas.

Linhas Pretas
Linhas pretas retas e sólidas são usadas para contornar ou definir as formas geométricas.

Abstração total (arte não figurativa)
Rejeição à representação da realidade naturalista. A obra de arte não retrata objetos, paisagens ou pessoas, sendo uma construção puramente abstrata, abstracionismo puro.

Destruição da ilusão do Volume
Mondrian buscava destruir a tridimensionalidade (ilusão de volume) para focar no plano bidimensional, usando linhas para cortar o espaço.

Equilíbrio Dinâmico
As composições visam um equilíbrio entre as cores e as linhas, criando uma "sinfonia visual" que reflete espiritualidade e ritmo, influenciado também pelo Jazz e Boogie-Woogie no final da carreira.

A fase final de Mondrian, muitas vezes chamada de abstracionismo geométrico, influenciou profundamente o design, a arquitetura e a moda moderna.

2. Abstracionismo lírico ou sensível
O abstracionismo lírico, cujo principal expoente é o artista russo Wassily Kandinsky (1866–1944), caracteriza-se pela ênfase no expressionismo subjetivo, na intuição criadora e na liberdade formal do artista. Para Kandinsky, a arte deveria expressar emoções internas e verdades espirituais, aproximando-se da musicalidade e da dimensão simbólica da cor. 
Hilma af Klint é considerada uma pioneira da arte abstrata e sua obra é caracterizada por uma fusão única que combina elementos do abstracionismo lírico com formas geométricas e simbólicas, frequentemente motivada por sua busca espiritual e mística. Principais características da obra de Hilma Af Klint:
Abstracionismo Geométrico e Simbólico. Ela utilizava frequentemente formas geométricas, como círculos, espirais e triângulos, além de diagramas e mapas, especialmente visíveis em séries como “Primordial Chaos”.
Abstracionismo Lírico e Orgânico. Ao mesmo tempo, suas obras, como a série “The Ten Largest” (As Dez Maiores), exibem formas orgânicas, cores pastéis vibrantes (rosa, laranja, azul) e linhas fluidas que evocam sentimentos e uma linguagem espiritual, características do abstracionismo lírico.

3. Expressionismo Abstrato
O expressionismo abstrato de Jackson Pollock é definido pelo dripping (gotejamento) e colocadas no chão (pintura de ação), onde telas gigantescas na horizontal recebiam tinta gotejada e arremessada. O estilo é marcado pela ausência de pincéis, criatividade espontânea, intensidade emocional, uso de corpo inteiro e composição "all-over" (sem foco central), resultando em obras caóticas, porém controladas.

Entre as características mais presentes no expressionismo abstrato estão a expressividade e o simbolismo. Esses dois elementos são muito importantes para atingir o objetivo desse movimento: expressar a emoção e subjetividade. Por isso, as obras do período buscam refletir aspectos da condição humana. Tamanha profundidade pode ser atingida através de outras peculiaridades, como:

Subjetivismo. Doutrina filosófica e tendência comportamental que coloca a experiência individual, sentimentos, crenças e interpretações pessoais como o centro da realidade.
A influência da psicanálise. A influência da psicanálise na arte abstrata é profunda e direta, consolidando-se no início do século XX, especialmente através do Surrealismo e do Abstracionismo Lírico.
Improviso e emoção. Improviso e a emoção na arte abstrata são os fundamentos do abstracionismo informal ou expressionismo abstrato, onde a criação não busca representar a realidade física, mas sim projetar o mundo interior do artista diretamente sobre a tela. Essa abordagem valoriza a espontaneidade, o gesto físico e a intuição, tornando o processo criativo tão importante quanto a obra final.
Apelo ao subconsciente e inconsciente. O inconsciente é visto como parte da estrutura psíquica que se manifesta através de sonhos, atos falhos e sintomas, não sendo apenas um local de armazenamento de memórias, mas uma linguagem ativa. Assim, é fontes primárias de criação, permitindo que emoções, memórias, traumas e desejos reprimidos sejam expressos sem a mediação da lógica ou da representação realista.
Técnicas enérgicas na pintura: "action paint", também chamado de gestualismo a pintura torna-se uma performance física e emocional, uma ação.
Uso de materiais diferentes em uma mesma obra. Frequentemente materiais diferentes, texturas variadas e técnicas mistas são usadas em uma mesma obra. A liberdade formal é um pilar da arte abstrata, permitindo que artistas explorem superfícies e materiais não convencionais para criar novas experiências visuais e sensoriais.

Principais Características da Arte de Pollock

Dripping (Gotejamento/Respingos)
Técnica extrema onde Pollock derramava ou respingava tinta líquida (óleo, resina, tinta industrial) diretamente na tela, criando linhas e texturas energéticas.

Action Painting (Pintura de Ação)
O ato de pintar era uma performance física. Pollock andava sobre as telas, usando todo o corpo para mover a tinta, transformando o gesto em arte.

All-Over Painting
Suas obras cobrem toda a superfície da tela de forma homogênea, sem um ponto focal, fundo ou figura definidos, criando uma experiência imersiva.

Caos Elaborado
Embora parecesse espontâneo e aleatório, Pollock afirmava manter controle absoluto sobre onde a tinta caía.

Grandes Dimensões
Utilizava telas monumentais que preenchiam o campo visual do espectador, intensificando o impacto emocional e sensorial.

Influência do Subconsciente
Influenciado pela psicanálise e surrealismo, buscava expressar emoções puras, angústia e energia interior, não formas reconhecíveis.

Essas técnicas romperam com a pintura tradicional, colocando Nova York no centro da arte moderna nas décadas de 1940/1950.

O Expressionismo abstrato costuma ser subdividido em duas correntes principais, que são usadas como sinônimos ou para descrever estilos específicos dentro dele: 1) Action Painting (Pintura de Ação ou Gestualismo): centrada no gesto, no movimento físico e na aplicação vigorosa da tinta (como nas obras de Jackson Pollock).
2) Color Field Painting (Pintura de Campos de Cor, tachismo): interessado em grandes áreas de cor sólida e planos, com uma abordagem mais meditativa, como nas obras de Mark Rothko.

Além desses fundadores, o abstracionismo consolidou-se como uma das correntes mais influentes da arte moderna por meio da contribuição de inúmeros artistas que expandiram suas fronteiras estéticas e conceituais. Entre os nomes de maior relevância internacional, destacam-se:

Hilma af Klint (1862 – 1944) foi uma artista e mística sueca e pioneira do abstracionismo, e na escrita automática; cujas pinturas foram consideradas uma das primeiras obras abstratas conhecidas na história da arte ocidental.

Paul Klee (1879–1940), artista suíço cuja obra dialoga com a poética das formas, o simbolismo e a musicalidade.

Pieter Cornelis Mondriaan (1872–1944), conhecido após 1911 como Piet Mondrian, foi um pintor e teórico da arte Holandês, considerado um dos maiores artistas do século XX. Ele foi um dos pioneiros da arte abstrata do século XX, ao mudar sua direção artística da pintura figurativa para um estilo cada vez mais abstrato, até chegar a um ponto em que seu vocabulário artístico foi reduzido a simples formas geométricos básicos.

Willem de Kooning (1904–1997), pintor holandês radicado nos Estados Unidos, figura central do expressionismo abstrato.

Kasimir Severinovich Malevich (1879–1935), pintor ucraniano, criador do suprematismo e autor do icônico Quadrado Negro.

Robert Delaunay (1885–1941), artista francês pioneiro no uso da cor como elemento estrutural e rítmico.

Hans Hartung (1904–1989), pintor alemão associado à abstração lírica, à gestualidade (bestialismo) e a linguagem do inconsciente (o que enriqueceu sua linguagem plástica).

Pierre Soulages (1919–2022), pintor e escultor francês conhecido por suas obras em preto e pela exploração da luz a partir da textura da matéria.

Jean Fautrier (1898–1964), pintor e escultor francês, precursor da arte informal;
(Tachismo, do francês, tache = mancha): O tachismo foi uma reação ao cubismo e ao expressionismo abstrato (1) e é caracterizado por pinceladas espontâneas, gotejamentos (dripping paint) e manchas de tinta diretamente do tubo e, às vezes, rabiscos que lembram a caligrafia. O tachismo está intimamente relacionado ao informalismo ou à arte informal (i.e., ausência de formas), que, em seu contexto crítico de arte francesa da década de 1950, se referia não tanto a um sentido de “arte informal”, mas sim a “uma falta ou ausência da própria forma”, não formal ou não formulada, e não a uma simples redução da formalidade. A arte informal tratava mais da ausência de estrutura, concepção ou abordagem premeditada (sans cérémonie). 

Em resumo, o tachismo é um estilo de pintura abstrata informal (ausência de formas) que surgiu na França entre as décadas de 1940 e 1950, caracterizado pelo uso de manchas, borrões, gotejamentos e pinceladas rápidas e espontâneas. É considerado a vertente europeia do expressionismo abstrato dos norte-americano, focando na gestualidade, na emoção e no acaso, sem formas geométricas (2).

Jean Dubuffet (1901–1985), pintor francês criador do conceito de art brut (arte bruta).

Antoni Tàpies (1923–2012), pintor catalão cuja obra incorpora materiais não convencionais e forte densidade expressiva.

Jackson Pollock (1912–1956), pintor americano, expoente máximo do action painting e da abstração gestual.

Karel Appel (1921-2006). Christiaan Karel Appel, conhecido como Karel Appel, foi um pintor, designer, artista gráfico, escritor e escultor holandes e co-fundador do grupo CoBrA, em 1948. Seu estilo é caracterizado pelo expressionismo abstrato, figuração crua e intenso uso de cores vibrantes, marcado pela espontaneidade e energia gestual. Como cofundador do movimento CoBrA, (acrônimo para Copenhage, Bruxelas, Amsterdã. Ele rejeitava o academicismo, inspirando-se na arte infantil, folclórica e bruta, criando figuras distorcidas com camadas espessas de tinta.

Esses artistas, cada qual a seu modo, o ampliaram os horizontes da criação artística no século XX, afirmando a abstração como um campo plural, dinâmico e permanentemente aberto à pesquisa e experimentação.

Hilma af Klint (1862–1944).

https://youtu.be/6ab_QfeL4u4?si=I7Td3JD4m2Cw3iH5



Paul Klee (1879–1940).

Paul Klee (1879–1940).


Como ser um artista de acordo com Paul Klee.(artsy).

1) Leve a linha para passear
“Uma linha ativa em um passeio, movendo-se livremente, sem objetivo.” Assim começa o Caderno Pedagógico de Klee, que serviu como uma espécie de livro didático para muitos alunos da Bauhaus. Cinco páginas seguem essa famosa descrição da mais básica das marcas humanas, delineando os vários tipos de linhas, desde aquelas que se circunscrevem até outras que contêm pontos fixos. Cada exemplo é acompanhado por um diagrama, que Klee provavelmente desenhava no quadro-negro durante suas aulas. Muitas das aulas de Klee se concentram nesse tipo de categorização, demonstrando as múltiplas maneiras pelas quais um ponto pode se tornar uma linha, uma linha pode se tornar um plano e assim por diante. Começando pelos fundamentos, Klee modelou seus métodos de ensino segundo a maneira como as crianças aprendem a ler. "Primeiro as letras, depois os símbolos e, finalmente, como ler e escrever", explicava ele. Assim como se pode reorganizar uma série de letras para formar palavras diferentes, Klee pedia a seus alunos que repetissem a mesma forma no maior número possível de posições. Essas tarefas meticulosas lançariam as bases para futuras obras de arte e design e precisavam ser dominadas antes que o tom e a cor entrassem em cena.

2) Observe atentamente um aquário 
(Estude a natureza)
Quando Klee dava aulas em sua casa, frequentemente pedia aos alunos que observassem os peixes tropicais em seu grande aquário. O artista acendia e apagava as luzes, incentivando os peixes a nadar e se esconder, enquanto encorajava os alunos a observarem atentamente suas atividades. Para aqueles que conhecem Klee como o “pai da arte abstrata”, essa lição pode parecer surpreendente. No entanto, Klee se preocupava profundamente em criar movimento em suas composições. E afirmava que todas as obras de arte — mesmo as mais abstratas — deveriam ser inspiradas pela natureza. “Sigam os caminhos da criação natural, o devir, o funcionamento das formas”, ensinava a seus alunos. “Então, talvez partindo da natureza, vocês alcancem suas próprias formações e, um dia, possam até se tornar como a própria natureza e começar a criar.”

3) Desenhe o sistema circulatório
Klee estudava a natureza obsessivamente e tinha um interesse particular nas formas ramificadas das plantas, nos sistemas orgânicos e nos cursos d'água. Em suas aulas, ele descrevia esses padrões com precisão científica, mapeando equações matemáticas e diagramas repletos de setas no quadro. Ele explorava como as sementes germinam, como as folhas desenvolvem nervuras e como os lagos se dividem em riachos, quase sempre terminando com uma afirmação inspiradora sobre a magia contida no crescimento e desenvolvimento da natureza.
Em uma dessas aulas, Klee explorou o sistema circulatório, esboçando no quadro-negro o movimento do sangue pelo corpo. Ele afirmava que esse processo corporal refletia a maneira como a arte é criada. Depois, Klee pediu a seus alunos que desenhassem o sistema circulatório. Seus desenhos, insistia ele, deveriam retratar a transição do sangue de um estágio para outro, mudando do vermelho para o azul, usando linhas e densidade para representar mudanças de peso, nutrientes e força. Vá em frente, tente.

4) Estude, considere as cores
Somente depois que os alunos compreenderam as complexidades das linhas e planos, e conseguiram encontrar essas formas na natureza, Klee introduziu a cor. Como grande parte de seus ensinamentos, as lições de Klee sobre cores combinavam precisão científica com um profundo senso de misticismo. Suas teorias baseavam-se principalmente no círculo cromático de Johann Wolfgang von Goethe, apresentado um século antes, em 1809, que propunha a ideia de que o vermelho se opunha ao verde, o laranja ao azul e o amarelo ao violeta. Klee adicionou uma nova dimensão a esse diagrama, transformando-o em uma esfera, com o branco no topo e o preto na base. Essa estrutura, ensinava ele, deveria abranger todos os aspectos da cor, incluindo matiz, saturação e valor. Klee exigia que seus alunos criassem seus próprios diagramas de cores, incluindo uma tarefa na qual eles comparavam visualmente uma cor com outra — a cor vermelha, como se constatou, é mais intensa que a cor azul. Embora tivesse uma sólida formação científica, Klee também era um romântico quando se tratava de cores. Ele frequentemente fazia conexões entre cores e música, explicando que combinações de cores (assim como notas musicais) podem ser harmoniosas ou dissonantes, dependendo da combinação. Às vezes, ele até tocava violino para seus alunos. A declaração mais existencial de Klee sobre cores, no entanto, veio de fora da sala de aula. "A cor e eu somos um só", declarou ele em seu diário em 1914. "Eu sou um pintor."

Paul Klee. Tabelas de cores. 1931.

5) Estude os grandes artistas.
Ao discutir o trabalho de outros artistas, Klee usava a seguinte metáfora. Se um novo produto, como uma pasta de dentes ou um detergente para roupas, fosse popular entre os consumidores, seus concorrentes deveriam pesquisar os elementos químicos do produto para replicar o sucesso. Ou, se um alimento causasse doenças, os cientistas deveriam se esforçar para determinar quais ingredientes específicos eram tóxicos e quais eram benignos. Assim, os artistas deveriam decompor as obras de seus contemporâneos e predecessores em seus componentes mais elementares: linha, forma e cor, para determinar o que torna uma imagem bem-sucedida ou problemática. “Não analisamos obras de arte porque queremos imitá-las ou porque desconfiamos delas”, disse ele certa vez. Em vez disso, fazemos isso “para começarmos a trilhar nosso próprio caminho”.
Em seus últimos anos na Bauhaus, Klee dava feedback aos alunos sobre seus trabalhos em sua casa. Os alunos traziam suas pinturas recém-feitas e as colocavam em cavaletes vazios, enquanto as obras inacabadas de Klee ficavam penduradas ao fundo. Klee sentava-se, balançando para frente e para trás em sua cadeira de balanço, e examinava as imagens em silêncio. Só então ele fornecia uma análise das obras, embora em seu estilo notoriamente elevado, abordando um problema mais amplo no campo da pintura ou identificando uma ideia subconsciente que se manifestava na obra. Depois, a turma se reunia em volta de um grande vaso de barro vidrado, fumava cigarros e discutia o processo criativo. De todos os mestres da Bauhaus, Klee foi o único que não atribuía notas.(Gottesmann, 2019).

A esquerda: Paul Klee. Paysage prè de E. (en Bavière) 1921. Óleo sobre tela.
A direita: Paul Klee. Park near Lu, 1938.
The EY Exhibition: Paul Klee - Making Visible, Tate Modern.





Piet Mondrian (1872–1944)

Willem de Kooning (1904–1997).

Willem de Kooning (1904–1997).

Willem de Kooning (1904–1997).

Kasimir Severinovich Malevich (1879–1935).

Kasimir Severinovich Malevich (1879–1935).

Kasimir Severinovich Malevich (1879–1935).

Robert Delaunay (1885–1941).

Robert Delaunay (1885–1941).

Robert Delaunay (1885–1941).

Robert Delaunay (1885–1941).

Robert Delaunay (1885–1941).

Robert Delaunay (1885–1941).

Hans Hartung (1904–1989).

Hans Hartung (1904–1989).

Hans Hartung (1904–1989).

Hans Hartung (1904–1989).

Pierre Soulages (1919–2022).

Pierre Soulages (1919–2022).

Pierre Soulages (1919–2022).

Pierre Soulages (1919–2022).

Pierre Soulages (1919–2022).

Jean Fautrier (1898–1964).

Jean Fautrier (1898–1964).

Jean Fautrier (1898–1964).

Jean Fautrier (1898–1964).

Jean Fautrier (1898–1964).

Jean Dubuffet (1901–1985)

Jean Dubuffet (1901–1985)

Jean Dubuffet (1901–1985)

Jean Dubuffet (1901–1985)

Jean Dubuffet (1901–1985)

Antoni Tàpies (1923–2012).

Antoni Tapies. (1923-2012) (mtà)



https://youtu.be/nBMkDZO2CE0?si=3TahkkGd6klc-nCk


https://youtu.be/soroENsI-QU?si=n27ziur1tD9pbFeI

https://youtu.be/RFlntOZgmy0?si=ObhlkmijH9Jg1AZh

Antoni Tàpies (1923–2012).

Antoni Tàpies (1923–2012).

Antoni Tàpies (1923–2012).

Antoni Tàpies (1923–2012).

Antoni Tàpies (1923–2012).

Antoni Tàpies (1923–2012).

Antoni Tàpies (1923–2012).

Antoni Tàpies (1923–2012).


Antoni Tàpies (1923–2012).

Antoni Tàpies (1923–2012).

Antoni Tàpies (1923–2012).

Jackson Pollock (1912–1956).

Jackson Pollock (1912–1956).

Jackson Pollock (1912–1956).

Jackson Pollock (1912–1956).

Jackson Pollock (1912–1956). Composição 19. 1948

Jackson Pollock (1912–1956).

Jackson Pollock (1912–1956).

Karel Appel (1921-2006).

Karel Appel (1921-2006).

Karel Appel (1921-2006).

Karel Appel (1921-2006).

Karel Appel (1921-2006).

Karel Appel (1921-2006).

Karel Appel (1921-2006).

Karel Appel (1921-2006).

Karel Appel (1921-2006).

Karel Appel (1921-2006).

Karel Appel (1921-2006).



EXERCÍCIO: ABSTRAINDO UMA ÁRVORE 

A abstração lírica de uma árvore é uma interpretação artística que vai além da forma física da entidade árvore, focando na essência, emoção, ritmo e cor que ela evoca, em vez de uma representação realista calçada na mimese. É uma abordagem centrada na "necessidade interior" do artista, comum na arte abstrata desde os fundadores como Wassily Kandinsky, Piet Mondrian, que associava cores e formas a sentimentos.

Aqui estão os elementos chave que definem uma abstração lírica de uma árvore:Expressão Emocional: A árvore não é apenas verde e marrom; ela pode ser representada por cores vibrantes que transmitem energia, tristeza, ou calma, como em estudos cromáticos.
Formas Orgânicas e Sensíveis: Ao contrário da geometria estrita, a abstração lírica utiliza linhas fluidas, manchas de cor e traços gestuais para sugerir galhos, raízes e folhas, focado na "alma" da planta.
A "Árvore de Sons" (Kandinsky): Exemplo claro onde a estrutura da árvore é diluída em cores e formas, sugerindo ritmo e música visual.
Simbolismo da Natureza: A árvore abstrata frequentemente simboliza conexão entre céu e terra, crescimento, renovação e o equilíbrio da vida, focando mais na sua força espiritual do que física.
Técnicas Comuns: Pinturas em aquarela com bordas suaves, uso de espátula para texturas ricas (remetendo ao estilo de Leonid Afremov), e sobreposição de transparências para dar leveza.

Essa abordagem artística transforma a árvore em uma "poesia visual", onde a experiência pessoal do espectador é tão importante quanto a intenção do pintor.




Adendo

1. O Demigurgo (Δημιουργός) de Platão é um deus artífice “criador” do mundo material. Ele contempla as formas perfeitas que habitam o mundo das ideias ou hiperurânio e as reproduz na matéria. Com esse gesto se dá origem ao mundo terreno e temporal que nós conhecemos. Em outras palavras, o Demiurgo modela este mundo a partir da imagem que observa do inteligível (mundos das formas ou das ideias, eidos), ele “põe os olhos no que é imutável e que utiliza como arquétipo quando dá a forma e as propriedades ao que cria. É inevitável que tudo aquilo que perfaz deste modo seja belo. Se, pelo contrário, pusesse os olhos no que devém e tomasse como arquétipo algo deveniente, a sua obra não seria bela” (Timeu 28a-b).


2. A questão da verossimilhança em Aristóteles está relacionada com algo que se apresenta de modo semelhante à verdade. Ou seja, é algo verossímil (εἰκός) que está identificado com a ideia de representar algum acontecimento ou fato sem que necessariamente estes existam na realidade da mesma maneira como foram representados. Desse modo, é possível ser verossímil “sem que exista qualquer probabilidade de que os fatos mencionados se tenham verificado” (ABBAGNANO, 1998, p. 1000). Contudo, um discurso poético ou outra representação artística qualquer, torna-se “verossímil [...] porque está de acordo com o que realmente acontece a maior parte das vezes em um determinado universo”. Dito de outro modo, “se é possível um discurso eikós, verossímil, é porque é possível um fato” (YAMIN, 2016, p. 149).


Para descrever a abstração total ou arte não representacional de outra forma, focando na desvinculação completa com o mundo real (formas reconhecíveis), podemos utilizar os seguintes termos e conceitos:

Termos Diretos e Técnicos
Arte Não Figurativa: O termo mais técnico e direto, indicando a ausência de figuras ou objetos reconhecíveis.

Abstracionismo Puro: Sugere uma abstração radical, sem concessões à realidade.

Abstração Não-Objetiva: Enfatiza que a obra não tem "objeto" como referência.

Não-Figurativismo: Foco na ausência da representação de seres ou coisas.

Termos Poéticos ou Filosóficos
Arte Concreta (em sentido estrito): Embora às vezes contraditório, refere-se à arte que não representa nada além de si mesma, sendo a forma e a cor o próprio assunto.

Linguagem Visual Pura: Foco em elementos como linha, cor e forma por si mesmos, sem intenção de imitar o real.

Forma Abstrata Pura: Obras que se expressam apenas pela estrutura, ritmo e cor.

Informalismo ou Abstracionismo Lirico/Informal: Quando a abstração é total, mas focada na emoção e no gesto do artista, desvinculando-se de qualquer forma geométrica ou figurativa.

Action Painting (Pintura de Ação): A arte focada no processo e no gesto físico, sem representar nada pré-definido.

Geometrismo/Abstração Geométrica: Quando a abstração utiliza apenas formas geométricas, fugindo do naturalismo.

Essas opções substituem a ideia de "abstração total" focando na ausência de figuras, objetos ou representação.



Fonte


GOMBRICH, E. H. A história da arte. Rio de Janeiro: LTC Livros Técnicos e Científicos, 1995.

Lott. H. A mimesis e sua perduração na arte: da realidade material à espiritualidade imaterial. Kairós: Revista Acadêmica da Prainha. Fortaleza, v. 20, n. 2, 2024.








ARTE ABSTRATA E ABSTRAÇÃO 3

ARTE ABSTRATA E ABSTRAÇÃO A arte abstrata, ou abstracionismo, constitui uma das transformações decisivas da linguagem artística no século XX...