A busca por autonomia na produção de materiais artísticos tem se consolidado como um campo relevante de estudo na interface entre a economia criativa e as artes visuais. Em um cenário onde o acesso a insumos profissionais é frequentemente limitado por barreiras financeiras, a validação de métodos alternativos para a fabricação de tintas caseiras surge como uma resposta democrática e viável.
Como professor de Arte e pesquisador de materiais expressivos, apresento algumas diretrizes técnicas e as formulações físico-químicas para a manufatura de tintas artísticas baseadas em pigmentos minerais e aglutinantes clássicos, operando sob as óticas históricas e laboratoriais.
Toda tinta artística é fundamentalmente constituída por dois elementos: o pigmento (partícula sólida particulada dispersa que confere opacidade e cor) e o veículo ou aglutinante (polímero ou substância fluida macromolecular que agrupa as partículas e as fixa ao suporte após a secagem).
Através de uma abordagem prática e inteligível, o presente trabalho demonstra que a simplificação dos processos químicos e industriais da produção de tinta pode caminhar metodologicamente alinhada à excelência estética e à inclusão social no fazer artístico.
Além disso, este texto apresenta a produção de formulações cromáticas de baixo custo e fácil acessibilidade, utilizando matérias-primas do cotidiano para estruturar uma paleta fundamental que atenda tanto a demandas pedagógicas quanto à prática artística independente.
Diretrizes gerais de manufatura (a levigação e moagem)
Para a obtenção de uma emulsão cromática estável e de alta qualidade reológica, o pigmento mineral deve passar por duas etapas cruciais:
1. Moagem mecânica
O mineral bruto deve ser pulverizado em um almofariz de porcelana ou ágata até atingir a granulometria de poeira fina.
2. Moagem com moleta (Muller)
A moagem com moleta (ou muller) é um processo manual usado para misturar pigmentos em pó com um aglutinante e transformá-los em tinta fluida e homogênea. Trata-se de uma ferramenta com base achatada feita de vidro ou acrílico que esmaga os grãos sobre uma placa lisa.
Sobre uma placa de vidro jateado, verte-se o pó mineral com água destilada. Utiliza-se uma moleta de vidro em movimentos circulares em forma de "8" para cisalhar os aglomerados de partículas, garantindo que o pigmento seja completamente "molhado" pelo diluente.
Receitas de cores primárias minerais
Na história da arte, o conceito de "primárias" em paletas puramente minerais varia devido à ausência de pigmentos sintéticos modernos (como as quinacridonas e ftalocianinas). Adotaremos o sistema clássico de aproximação cromática.
1. Vermelho Primário (Aproximação): Cinábrio ou Hematita
Pigmento
Sulfeto de Mercúrio (HgS), historicamente conhecido como Cinábrio ou Vermelhão clássico, ou Óxido de Ferro Vermelho (Fe₂O₃), conhecido como Vermelho de Ercolano ou Sinopia.
Aglutinante (Têmpera de Goma Arábica / Aquarela Clássica): Polissacarídeo extraído da Acacia senegal.
Formulação
Solução aglutinante básica
Dissolver 1 parte de Goma Arábica em pó em 2 partes de água destilada morna. Adicionar 5% de glicerina bi-destilada (com função higroscópica e plastificante para evitar craquelamentos).
Proporção da tinta
Misturar 1 parte da solução de goma com 1.5 partes do pigmento de Lápis-Lazúli purificado.
3. Amarelo Primário: Olho de Gato ou Giallorino (Limonita)
O nome amarelo de chumbo-estanho é uma designação moderna. Durante os séculos XIII a XVIII, quando era mais amplamente utilizado, era conhecido por uma variedade de nomes. Na Itália, era giallorino ou giallolino . Em outros países da Europa, era massicot, genuli (espanhol), Plygal (alemão), general (inglês) ou mechim (português). Todos esses nomes eram frequentemente aplicados a outros pigmentos amarelos, bem como ao amarelo de chumbo-estanho.
Óxido de Ferro Hidratado (FeO(OH)H2O), conhecido como Ocre Amarelo ou Limonita.
Aglutinante (Óleo de Linhaça / Óleo de Secagem Clássico): Lipídeo polimerizável rico em ácidos graxos insaturados.
Formulação
10 g de pó de Ocre Amarelo calcinado ou natural (extremamente seco).
7 a 10 ml de Óleo de Linhaça Clarificado e Prensado a Frio.
Modo de preparo
Incorporar o óleo ao pigmento gradualmente com uma espátula de aço sobre a placa de vidro até obter uma pasta homogênea, amanteigada e tixotrópica.
Receitas de cores secundárias minerais
1. Verde Secundário: Malaquita ou Terra Verde
Pigmento
Carbonato Básico de Cobre (Cu₂CO₃(OH)₂), denominado Malachita, ou Silicatos de Ferro com Potássio, conhecido como Terra Verde de Verona.
Aglutinante
Têmpera de Ovo.
Formulação
1 parte de Malachita moída fina (atenção: a Malachita perde intensidade se for excessivamente moída, tornando-se pálida).
1 parte de emulsão de gema de ovo.
Diluir sutilmente com água destilada durante a aplicação pictórica para regular a viscosidade cinemática.
2. Roxo / Violeta Secundário: hematita especular ou Purpurita
Pigmento
Óxido de Ferro (Fe₂O₃) de variedade violeta escura (Violeta de Marte) ou mineral Purpurita (MnPO₄).
Aglutinante
Caseína (Proteína do leite precipitada por ácido).
Formulação
Preparo do aglutinante
Dissolver 10 g de caseína em pó em 50 mL de água destilada, adicionando 2 g de carbonato de amônio para alcalinizar e hidrolisar a proteína.
Proporção
Misturar 1 parte deste aglutinante de caseína com 1 parte de pigmento mineral violeta. Produz uma tinta de altíssima opacidade e insolubilidade após a cura seca.
3. Laranja Secundário: Realgar ou Ocre Laranja
Pigmento
Monossulfeto de Arsênio (As₄S₄ - Realgar histórico, altamente tóxico) ou Ocre Laranja (Limonita submetida a calcinação moderada).
Nota de segurança
Para fins laboratoriais contemporâneos, recomenda-se estritamente o uso do Ocre Laranja seguro por motivos de toxicidade ocupacional.
Aglutinante: Têmpera de Goma Arábica ou Ovo.
Formulação
1 parte de Ocre Laranja mineral.
1 parte de solução de Goma Arábica a 35%.
MATERIAS EXPRESSIVOS PARA ARTE II
A investigação centra-se na manipulação técnica do sistema CMYK, empregando estritamente as cores primárias pigmentares, ciano, magenta e amarelo, além do preto como modulador de valor.
A partir desse quarteto essencial, explora-se a capacidade de síntese subtrativa para a obtenção de um espectro secundário e terciário completo, otimizando recursos sem comprometer a expressividade visual.
Podemos afirmar que resgatar as receitas históricas usando materiais modernos, baratos e acessíveis é uma das formas mais gratificantes de entender a ciência da cor.
Para produzir as quatro cores do processo CMYK (Ciano, Magenta, Amarelo e Preto) em formato de tinta guache/têmpera artesanal, utilizaremos uma base aglutinante simples e barata: goma arábica ou cola branca escolar, misturada com água e o pigmento correspondente em pó.
Abaixo estão as receitas detalhadas para cada cor, baseadas em tratados clássicos de pigmentos.
Pigmentos minerais
Os principais pigmentos minerais encontrados na natureza para fazer tintas são os ocres, a malaquita e o lápis-lazúli. Eles vêm de rochas e solos que dão cor sem precisar de química pesada.
Cores e minerais da terra
Amarelo, Marrom e Vermelho
Vêm dos ocres e argilas, que são ricos em óxido de ferro encontrados em vários tipos de solo.
Verde
Vem da malaquita (um mineral de cobre) ou da terra verde (silicatos).
Azul
Vem do lápis-lazúli ou da azurita, pedras raras e azuladas.
Preto
Vem do carvão vegetal ou da grafita, que formam um pó bem escuro.
Como preparar o pigmento
Coleta: Escolha terras ou pedras limpas de cores diferentes.
Moagem: Pique ou bata o material até virar um pó bem fino, use também um almofariz ou graal.
Peneira: Peneire o pó para tirar os pedaços maiores, que podem ser novamente moidos.
Mistura: Junte o pó com água e um fixador natural (como cola branca ou goma arábica) para virar tinta.
Base aglutinante universal (Veículo)
Antes de preparar as cores, misture a base onde o pigmento será fixado, que é um passo crítico na fabricação artesanal de tintas: a criação do veículo, que é o líquido responsável por colar o pigmento na tela.
O que é a Base Aglutinante (Veículo)?
Função principal: É o líquido que transporta o pigmento (pó) e o fixa permanentemente na superfície.
Sem aglutinante: O pigmento seco vira apenas poeira e cai da tela após a secagem da água.
Exemplos clássicos: Óleo de linhaça (para tinta a óleo), emulsão acrílica (para acrílica) e goma arábica (para aquarela).
Por que preparar a base das cores antes?
Homogeneidade: Garante que o aglutinante tenha a viscosidade correta antes de receber a carga de pó.
Consistência: Facilita a dispersão dos grãos de pigmento, evitando pelotas e texturas arenosas.
Padronização: Permite que todas as cores da sua paleta tenham o mesmo tempo de secagem e brilho.
O segredo do termo "Universal"
Nota: No jargão da fábrica, "universal" geralmente refere-se a uma base compatível com pigmentos orgânicos e inorgânicos.
Na prática: Significa que você pode usar o mesmo líquido base para moer o azul-ultramar, o amarelo cádmio ou o vermelho óxido sem reações químicas adversas.
Base aglutinante universal (Veículo)
Ingredientes 2 partes de cola branca escolar (ou goma arábica) e
1 parte de água filtrada.
Preparo
Misture bem até homogeneizar. Essa base garantirá a aderência ao papel.
1. Ciano (Cyan)
Nas receitas antigas, o azul vinha da rara e caríssima pedra Lápis-Lazúli. Além do famoso lápis-lazúli, outros minerais usados historicamente para produzir pigmentos azuis incluem a azurita, a lazulita e a calcantita. A azurita e Lazulita são aluminossilicato de sódio e cálcio com enxofre (um feldspatoide do grupo da sodalita). Para uma alternativa moderna, barata e de tom ciano perfeito, usamos um produto de lavanderia tradicional, conhecido como anil para roupas. Este é composto principalmente por corante (indigotina ou azul de indidogóide sintético).
Anil em pó (composto por Azul Ultramar sintético ou Azul de Prússia).
Receita
Use 1 colher de sopa de anil em pó bem fino.
Pingue gotas de água até formar uma pasta grossa.
Adicione 1 colher de sopa da Base Aglutinante.
Esfregue o pigmento contra o pires em movimentos circulares para garantir a quebra de todas as partículas de cor.
2. Magenta (Magenta)
O verdadeiro magenta histórico vinha da extração de cochonilha (insetos). Uma alternativa vegetal barata, muito pigmentada e de tom rosa-violáceo idêntico ao magenta é a beterraba concentrada.
Extrato seco de beterraba (comprado em casas de produtos naturais) ou suco de beterraba ultra-reduzido.
Receita
Se usar o pó de beterraba, misture 1 colher de sopa diretamente com 1 colher de sopa da Base Aglutinante.
Se usar a beterraba fresca: rale uma beterraba, esprema o suco num pano e leve ao fogo baixo até reduzir e virar um xarope grosso e escuro. Misture esse xarope diretamente na base.
Nota
Adicione uma gota de vinagre na mistura para preservar a cor viva do magenta vegetal.
3. Amarelo (Yellow)
Historicamente derivado do auripigmento ou ouropigmento, ou orpiment (tóxico) ou de terras naturais, o amarelo perfeitamente vibrante e barato hoje é obtido facilmente na cozinha.
Auripigmento, trisulfeto de arsênio (As2S3).
Amarelo-limão, amarelo-brilhante ou amarelo-alaranjado.
Pigmento
Cúrcuma em pó (açafrão-da-terra) puríssima.
Receita
Coloque 1 colher de sopa de cúrcuma em um pires.
Adicione algumas gotas de álcool 70% apenas para umedecer e "abrir" o pigmento.
Adicione 1 colher de sopa da Base Aglutinante.
Misture vigorosamente com uma espátula até sumirem os grumos.
Nota do Especialista
A cúrcuma gera um amarelo primário perfeito, mas é sensível à luz solar direta a longo prazo.
4. Preto (Key/Black)
O preto clássico dos mestres renascentistas e da caligrafia oriental sempre foi o "Preto de Fumo" (Carbon black), a forma mais barata e permanente de pigmento do mundo.
Acenda uma vela e segure uma colher de metal velha sobre a chama (sem encostar no pavio) para acumular a fuligem preta no fundo da colher. Raspe e junte esse pó.
Como alternativa mais rápida
Moa um pedaço de carvão de churrasco até virar uma poeira impalpável e passe por uma peneira fina.
Misture 1 colher de sopa desse pó preto com 1 colher de sopa da Base Aglutinante.
Referências
1. CENNINI, Cennino. Il Libro dell'Arte (século XV). Tradução e notas técnicas por Daniel V. Thompson Jr. (The Craftsman's Handbook). New York: Dover Publications, 1954. (Obra fundamental que detalha as dosagens reológicas de têmpera de ovo, moagem de lápis-lazúli e uso de terras minerais).
2. DOERNER, Max. The Materials of the Artist and Their Use in Painting. San Diego: Harcourt Brace, 1984. (Tratado científico contemporâneo sobre a química dos pigmentos minerais e comportamento dos aglutinantes como óleo e caseína).
3. MAYER, Ralph. The Artist's Handbook of Materials and Techniques. New York: Viking Press, 1991. (Manual químico de referência para dosagem de aglutinantes, aditivos e toxicologia de pigmentos).
Fontes consultadas e tratados históricos
Para a formulação e adaptação dessas receitas, baseei-me nos seguintes pilares da literatura de materiais artísticos:
Cennino Cennini (Séc. XV). "Il Libro dell'Arte" (O Livro da Arte). O manual definitivo do Renascimento sobre como moer pigmentos, criar aglutinantes de têmpera e extrair cores da natureza.
Theophilus Presbyter (Séc. XII). "On Divers Arts" (Sobre Diversas Artes). Tratado medieval que detalha a fabricação de tintas e o uso de fuligem e extratos vegetais.
Philip Ball. "Bright Earth: Art and the Invention of Color" (A Terra Brilhante: A Arte e a Invenção da Cor). Uma análise histórica e química excelente sobre como a busca por pigmentos moldou a história da pintura, detalhando a transição dos orgânicos para os sintéticos acessíveis.
Fontes da internet
Natural Pigments (EUA/Europa): Artigos técnicos sobre formulações medievais, gesso e emulsões tradicionais.
Royal Society of Chemistry (RSC Education): Roteiros de laboratório analítico para a reconstituição de tintas minerais à base de óxidos de ferro e carbonatos. Disponível em: RSC - Making Paint with Minerals.
Vamos fazer uma viagem no tempo e na Arte. Como seu professor de arte, preparei uma aula com ênfase no "fazer", explorando a expressividade dessa técnica milenar inventada na China que ganhou o mundo.
Zhōngguó mò (中国, Zhōngguó, China + 墨 Mò, tinta)
Zhōngguó mò, 中国墨, significa literalmente "tinta chinesa" (China Ink), ou nanquim, termo frequentemente usado internacionalmente para diferenciar a fórmula tradicional de outras tintas.
A tinta da China (Indian ink como é popularmente conhecida devido a ser comercializada pela India no passado), nanquim ou tinta chinesa é uma tinta preta ou colorida simples, outrora amplamente utilizada para escrita e impressão, e atualmente mais comumente usada para desenho e contorno, especialmente na arte-final de histórias em quadrinhos e tirinhas.
O Nanquim ou tinta da China ou tinta da Índia também é utilizada em aplicações médicas (para coloração de bacterias). Comparada a outras tintas, como a tinta ferrogálica, comum na Europa desde a idade média, o nanquim destaca-se pela sua cor preta profunda e intensa. Geralmente é aplicada com um pincel para tinta) ou uma caneta de pena. Em tradições do Leste Asiático, como a pintura com aguarela e a caligrafia chinesa, a tinta da Índia é comumente usada em forma sólida, chamada de bastão de tinta.
O nanquim é uma tinta negra usada para escrever e desenhar, disponível em forma líquida ou sólida (em bastão) e composta, normalmente de fuligem (picumã) pigmento também conhecido como negro-de-carbono ou negro-vegetal, obtido da fuligem proveniente da queima de plantas como pinheiro ou tungue.
Woods e Woods (2000) afirmam que o processo de fabricação de tinta da nanquim era conhecido na China já em meados do terceiro milênio a.C., no período Neolítico, enquanto Needham (1985) afirma que a fabricação de tinta começou talvez há três milênios na China. A tinta da Índia foi inventada na China, mas o termo inglês India(n) ink foi cunhado devido ao comércio posterior com a Índia. A Índia, comercializava esse produto com a Europa e o resto do mundo, via Reino Unido. Um número considerável de ossos oraculares do final da dinastia Shang (aproximadamente entre 1600 a.C. e 1046 a.C.) contém caracteres incisos com pigmento preto de um material carbonáceo identificado como tinta. Numerosos documentos escritos com tinta em pedras preciosas, bem como em tábuas de bambu ou madeira datadas dos períodos da Primavera e Outono, dos Reinos Combatentes e da dinastia Qin (221 a.C. e 206 a.C.) foram descobertos. Um artefato cilíndrico feito de tinta preta foi encontrado em tumbas Qin, datadas do século III a.C., durante o período dos Reinos Combatentes ou período dinástico, em Yunmeng, Hubei. Assim, a tinta nanquim tem sido usada desde antes da era do bronze e considerado um dos primeiro pigmento conhecido pelo homem.
O nanquim pode ser aplicado com caneta ou pincel e fabricado em diversas cores, a partir de outras fórmulas e ingredientes diferentes. O termo também nomeia os trabalhos realizados com essa tinta. Como vimos acima, comercialmente, existem duas formas de nanquim: o nanquim líquido e o nanquim sólido em barra.
Frascos com nanquim líquido comercial (modificado de nanquim, fruto)
A Cidade de Nanquim e a gênese da tinta e estilo homônimo
A etimologia do termo Nanquim (ou Nanjing) reflete sua importância geopolítica histórica: o nome traduz-se literalmente como "Capital do Sul", estabelecendo um contraponto terminológico a Pequim (Beijing), a "Capital do Norte". Ao longo das sucessivas dinastias chinesas, Nanquim consolidou-se como um dos principais centros administrativos e culturais da nação chinesa, servindo como capital oficial em diversos períodos, como na Dinastia Ming.
1. A Tinta Nanquim: origem e difusão
Os registros primordiais da substância pigmentar que leva o nome da cidade remontam a aproximadamente 3.000 a.C., evidenciados em manuscritos antigos.
Alguns pesquisadores como Needham, (1985) e Woods e Woods, (2000) afirmam que o processo de fabricação de tinta nanquim era conhecido na China já no tercerio milênio a.C., na China Neolítica. A tinta nanquim foi inventada primeiro na China, mas o termo inglês Indian ink foi cunhado devido ao seu comércio posterior com a Índia (1).
Tradicionalmente a tinta nanquim é composta por fuligem de madeira (geralmente pinho ou tungue) mesclada a aglutinantes animais. A tinta migrou para o Japão no século VI e em solo japonês, desenvolveu-se a técnica do Sumi-e, que utilizava uma versão adaptada da fórmula original, priorizando a acessibilidade e novos matizes de preto e cinza.
2. O etilo Nanquim e a Escola do Sul
Para além do produto material (tinta), "Nanquim" designa um movimento artístico fundamental na história da arte asiática. Surgido por volta do século IX (EC), o estilo predominou até o século XVII, expandindo sua influência para a Europa no século XVIII e, tardiamente, para a América do Sul no século XX.
Este movimento, frequentemente identificado como a "Escola do Sul" (Nanzonghua), diferenciava-se drasticamente da "Escola do Norte". Enquanto a vertente nortista focava em figuras humanas e detalhes técnicos rígidos, a Escola do Sul priorizava:
Pintura Shan Shui: O foco temático residia na relação entre "água", elementos fundamentais da cosmologia chinesa.
Expressão em vez de Mímese: O objetivo do artista não era a reprodução fotográfica ou exata da paisagem, mas a captura da "ressonância espiritual" (Qi) e da atmosfera emocional da natureza.
Exemplo: Em vez de desenhar cada folha de uma árvore, o pintor utilizava pinceladas fluidas e aguadas de tinta nanquim para sugerir o movimento do vento ou a densidade da névoa.
Estética Monocromática: O uso de variações de tons de preto permitia uma exploração profunda de luz e sombra, focando no "ritmo" intrínseco do cenário.
Em chinês
Os kanji (caracteres chineses/hanzi) para tinta nanquim são 墨 (mò), que significa especificamente o bastão de tinta preta ou a tinta em si.
Para se referir à "pintura a tinta chinesa" ou técnica de aquarela, aguada, usa-se o termo 水墨畫 (shuǐmò huà), traduzido como "água, tinta, pintura".
墨 (mò): tinta Nanquim / Bastão de tinta preta.
墨 (Tinta): também usado somente como tinta
水墨 (shuǐmò): Tinta e água (estilo de pintura).
水墨畫 (shuǐmò huà): Pintura com tinta chinesa (técnica de lavagem).
A tinta nanquim tradicional é feita de fuligem e seiva de árvores (pinho e tungue), inventada na China e fundamental para a caligrafia e a arte sumi-e (uma técnica de pintura japonesa que usa essa tinta).
Composição química do nanquim
O nanquim foi desenvolvido pela civilização chinesa juntamente com outras tintas expressivas, como o guache, a tempera e aquarelas.
Os chineses também desenvolveram o azul de Han (BaCuSi2O6) partir da calcinação de uma mistura de sílica, óxidos de cobre e sais de bário. Para outros pigmentos, como o vermelho, os chineses utilizaram a hematita misturada a calcita (CaCO3). Já para a cor rosa, utilizou-se ouropigmento (As2S3), e para a cor laranja foi usado a hematita com Ouropigmento (o ouripigmento, em inglês: “orpiment”, é minério de arsênio, As; o ouripigmento é um sulfeto raro de Arsênico, tóxico. Historicamente foi usado como um importante fonte de pigmento amarelo. Esse mineral forma massas com diâmetros de até 60 cm, compostos por cristais colunares ou fibrosos. Pode conter Mercúrio, Antimônio e Germânio, (Hg, Sb e Ge respectivamente). Outra opção para esta cor era a utilização do massicote e litargírio (PbO) (ortorrômbico e tetragonal, respectivamente) (2, 3). O massicote é um pigmento inorgânico histórico, composto essencialmente por monóxido de chumbo (PbO). Ele se caracteriza por ser um pó de cor amarela, semelhante à cor do enxofre, e é uma das formas cristalinas do óxido de chumbo (a outra forma, de estrutura diferente, é o litargírio)(yt).
Pigmentos usados na na antiguidade: branco de chumbo, massicote,
No início a tinta nanquim era preparada através da dispersão de partículas de carbono em água. Para impedir a junção das partículas de carbono e estabilizar a suspensão do nanquim, era acrescentada goma arábica. Atualmente a tinta é preparada com nanopartículas de carbono esferoidais, conhecidas como fuligem ou picumã.
Origem. A tinta nanquim, inventada na China há mais de 2.200 anos, era tradicionalmente produzida a partir da queima de materiais como óleo de tungue ou pinho. Essa queima gerava uma fuligem (picumã) que, misturada com uma cola à base de resina (como a seiva da árvore de úri ou cola de gelatina animal), criava uma tinta preta intensa e duradoura.
A tinta nanquim (também conhecida como tinta da China) é uma suspensão coloidal estável à base de carbono, cuja fórmula fundamental e durabilidade excepcional permanecem praticamente imutáveis há cerca de 5.000 anos (1, 2). Uma suspensão coloidal (ou dispersão coloidal) é uma mistura heterogênea onde partículas microscópicas de uma substância (o disperso) ficam suspensas em outra (o dispersante). Essas partículas têm um tamanho intermediário (entre 1 e 1000 nanômetros), ficando entre uma solução verdadeira (como água com sal) e uma suspensão grossa (como água com areia).
1. Origem e evolução histórica (há 3 milênios)
Embora o Ocidente a chame de India Ink devido às rotas comerciais que passavam pela Índia no século XVII, a tinta originou-se na China por volta de 3000 a.C.. O nome "nanquim" faz referência direta à cidade chinesa de Nanjing (Nanquim), que foi um polo histórico de exportação e cultura. (1, 3, 4, 5, 6).
A Tinta Sólida
Diferente das tintas líquidas ocidentais (como a tinta ferrogálica, líquida, que corroía o papel ao longo do tempo), a tinta da China tradicional era fabricada na forma de bastões secos (inksticks). (2, 7, 8).
Uso na burocracia imperial chinesa
O imperador Qin Shi Huang unificou a escrita chinesa utilizando essa tinta em 221 a.C., transformando-a em uma ferramenta essencial para a burocracia estatal e para os acadêmicos. (7, 9).
Os quatro tesouros do estudo
Na cultura clássica chinesa, o bastão de nanquim divide o status de artefato nobre com o pincel, o papel de arroz e a pedra de moer o nanquim. (10, 11).]
2. A Química Tradicional: Como era Feita
A fabricação clássica do nanquim, descrita detalhadamente em tratados históricos como o Qi-min Yao-shu (século VI), baseia-se em dois elementos químicos vitais: pigmento de carbono puro e aglutinante proteico. (12)
O Pigmento (fuligem ou picumã / Lampblack) (13)
O segredo da opacidade e da cor preta profunda do nanquim está no tamanho microscópico de suas partículas. A fumaça da queima de materiais orgânicos é coletada em tigelas de cerâmica invertidas para raspar a fuligem pura. Havia duas fontes principais: (1, 14, 15, 16).
Picumã é um termo de origem tupi (apicumã) que se refere à fuligem, teia de aranha enegrecida pela fumaça ou sujeira acumulada. Popularmente, no Brasil, a palavra também é utilizada para descrever cabelo encarapinhado, crespo ou desgrenhado. Pode referir-se à fuligem acumulada no teto/chaminé de fogões a lenha.
Negro de pinho (pine soot)
Obtido da combustão controlada e incompleta da resina e madeira de pinheiros antigos. Produz um tom preto fosco profundo. (16, 17, 18)
Negro de óleo (oil soot)
Popularizado a partir da Dinastia Song (século XI), vinha da queima de óleo de tungue, óleo de semente de cânhamo ou petróleo. Confere um acabamento mais brilhante e acetinado. (2, 19, 20)
O aglutinante (gelatina animal)
A fuligem pura é hidrofóbica (repele a água). Para que ela se disperse homogeneamente, adicionava-se uma cola proteica de alta qualidade, geralmente derivada da fervura prolongada de peles e ossos de boi ou cervo. Esta gelatina atua como um colóide protetor, envolvendo as nanopartículas de carbono e impedindo que elas se aglomerem e decantem. (2, 4, 14, 18, 21).
Processo de cura e aditivos
A massa pastosa de carvão e cola era sovada e martelada exaustivamente (frequentemente milhares de vezes) para garantir a perfeita dispersão do pigmento. Aditivos como cânfora, almíscar e cravo eram incorporados para mascarar o odor da cola animal e atuar como conservantes antifúngicos. A massa era prensada em moldes de madeira e deixada para secar lentamente na sombra por meses ou até anos. Para usar, o artista friccionava o bastão em uma pedra lisa com gotas de água, liberando as partículas em suspensão. (10, 12, 14, 16, 17, 22, 23).
3. O Nanquim moderno: a indústria atual
Atualmente, o nanquim líquido comercializado em frascos utiliza uma química adaptada à conveniência moderna, embora mantenha a fidelidade ao pigmento original. (2, 8).
Mudança nos componentes
Pigmento: Utiliza-se o Carbon Black (fuligem, picumã, ou negro de fumo industrializado), gerado pela queima automatizada de derivados de petróleo, garantindo partículas uniformes de carbono elementar amorfo. (22, 24)
Aglutinante resistente à água: A gelatina animal foi amplamente substituída por soluções de goma arábica (extraída da árvore Acacia) ou por uma solução alcalina de goma-laca (shellac). (8, 25)
Química da impermeabilidade: A goma-laca é secretada pelo inseto Kerria lacca e se dissolve bem em soluções aquosas de borax ou amônia. Quando a tinta é aplicada no papel e seca, a água e os agentes voláteis evaporam, tornando a película de resina completamente insolúvel à água (waterproof). (1, 2, 8, 18, 25).
Goma-laca (origem animal): Extraída de uma resina secretada pela fêmea do inseto Kerria lacca (Kerr, 1782) (ou Laccifer lacca). Eles se fixam em galhos de árvores na Índia e no Sudeste Asiático, produzindo o material que é coletado e purificado para uso em vernizes e acabamentos.
Laca Oriental (origem vegetal): É extraída da seiva da árvore Toxicodendron vernicifluum (Stokes) FA Barkley (anteriormente no gênero Rhus verniciflua ( 1 ), também conhecido pelo nome comum de árvore-de-laca-chinesa, é uma espécie arbórea asiática do gênero Toxicodendron, nativa da China e do subcontinente indiano, e cultivada em regiões da China, Japão e Coreia. É colhida por meio de cortes no tronco da árvore e usada tradicionalmente como revestimento impermeável e resistente.
Diferenças entre o Tradicional e o Moderno
Característica (1, 8, 14, 18, 25, 26)
Nanquim Tradicional (Bastão)
Nanquim Moderno (Líquido)
Aglutinante principal
Cola (colágeno) de pele de boi / Gelatina animal
Goma arábica ou Goma-laca (Shellac)
Resistência à água
Re-solúvel em água após secagem (geralmente)
Altamente permanente e à prova d'água
Uso em canetas técnicas
Entope as pontas devido ao tamanho da resina
Fluído e filtrado para uso em canetas e bicos de pena
Conservação histórica
Arquivístico: não desbota com a luz do sol (lightfast)
Extremamente estável e resistente ao tempo
A tinta nanquim atravessou milênios quase intacta porque se baseia em um princípio científico elementar muito forte: o carbono amorfo puro não sofre degradação por fotoxidação (luz UV) e não reage quimicamente com as fibras do papel. Seja no bastão sólido de resina de pinho triturado à mão em 1000 a.C. ou nos tubos modernos estabilizados com polímeros acrílicos e goma-laca, o nanquim continua sendo o padrão ouro universal de permanência e contraste na escrita e nas artes visuais.
Os três componentes básicos
O nanquim como toda tinta possiu tres componentes basicos, o pigmento, que da cor à tinta, um aglutinante, e um solvente. No caso do nanquim temos o pigmento que é o carbono (fuligem), o aglutinante que é a cola animal ou vegetal e o solvente que é a água.
1) Pigmentos ou corantes que dão cor as tintas
No caso do Nanquim, é um pó escuro conhecido como negro de fumo ( outros nomes comuns são: fuligem ou pó de sapato). Esta é uma das variedades mais puras do carvão e também usa-se para pigmentação de graxa para sapatos, pneus, artefatos leves de borracha, tintas para impressão, etc;
2) Aglutinantes
O mais comum no nanquim de origem chinesa é a gelatina. Contudo, vale ressaltar que além dela, usa-se também a goma arábica na composição da tinta;
3) Solvente
O solvente do nanquim é a água. Ela assemelha-se a aquarela, pois para conseguir tons de cinza, basta adicionar mais água.
Já em relação ao tipo de Nanquim encontrado no mercado atualmente, temos dois tipos:
Nanquim sólido
O nanquim sólido vem em barra e se obtém a tinta ao friccioná-la com água sobre uma pedra especial de textura fina e cor preta para conseguir a forma líquida.
Nanquim líquido
O nanquim líquido é o mais comum que encontramos no mercado e já está pronto para o uso.
O nanquim é mestre no contraste: ou é preto, ou é branco (o papel). Entretanto, dependendo da concentração podemos obter diferentes tonalidades de cinza, indo do mais claro ao preto mais profundo. Com isso podemos obter uma enorme gama de tonalidades para construirmos uma imagem rica e significativa. Diferente do lápis, ele não aceita borracha, o que nos ensina o "erro" como parte do processo de construção das formas.
Uso por artistas
A tinta nanquim é usada em muitas canetas artísticas comuns, como, por exemplo, as caneta de bico de pena (de banbu ou metálica), caneta de pena de ganço (históricas), canetas tinteiro (com reservatório).
Muitos artistas que utilizam aquarela ou outros meios líquidos usam tinta nanquim à prova d'água para seus contornos, pois a tinta não escorre (sangra) depois de seca.
Alguns outros artistas utilizam tanto o nanquim preto quanto o colorido como sua principal escolha de material em vez da aquarela. A tinta é diluída em água para criar uma aguada (wash), geralmente feita em um recipiente de cerâmica. A tinta é aplicada em camadas como a aquarela, mas, uma vez seca, torna-se à prova d'água e não pode ser misturada.
O gotejamento ou mancha de tinta (ink blotting) é uma forma de arte na qual o artista coloca uma gota de tinta em um papel especial. Usando um soprador (um secador de cabelo também funciona), o artista sopra a tinta pela página e, se desejar, dobra o papel ao meio para obter uma mancha espelhada em ambos os lados, criando uma imagem simétrica.
Alguns artistas que preferem paletas de cores monocromáticas (uma cor em diferentes tons), especialmente tons de cinza, costumam usar o nanquim por sua capacidade de ser misturado e diluído em água para obter cores mais claras, bem como pela possibilidade de sobrepor cores sem que elas borrem.
Tatuadores utilizam a tinta nanquim como pigmento preto para tatuagens.
O uso do nanquim (termo comum para India ink no Brasil) varia bastante entre o ambiente escolar e o técnico-profissional.
Fontes
Se voce desejar aprofundar-se nos aspectos históricos, químicos e artísticos da tinta nanquim, consulte os seguintes acervos e portais institucionais:
O artigo acadêmico publicado no Penn Museum - Chinese Ink detalha as traduções de tratados do século VI e as técnicas clássicas de mistura e prensagem dos bastões.
Química de Polímeros e Resinas
O portal científico da ScienceDirect - Characterization of Chinese Inksticks investiga, por meio de pirólise, os compostos orgânicos exatos e a transição histórica do pinho para os óleos vegetais na Ásia antiga. (12, 13, 27, 28)
Zao Wou-Ki (1920–2013). Nanquim sobre papel de arroz.
Zao Wou-Ki, por outro lado, usou nanquim de uma maneira completamente diferente, inspirada em técnicas tradicionais, para criar obras abstratas em papel, quando não estava trabalhando com óleo sobre tela.
Mestre da abstração do pós-guerra, Zao Wou-Ki (1920–2013) criou uma linguagem pictórica única, moldada por diversas influências. Ao longo de sua extensa carreira, as experimentações de Zao com óleo sobre tela, tinta sobre papel, litografia, gravura e aquarela permitiram que cada imagem evoluísse da seguinte, sem impor limites. Como artista, ele passou a personificar seu nome, Wou-Ki, ou 無極, “sem limites”.
Zao Wou-Ki iniciou sua formação artística formal aos quinze anos na recém-criada Academia Nacional de Belas Artes (atual Academia de Arte da China), em Hangzhou. Em 1948, Zao imigrou para Paris e logo conquistou o mundo da arte internacional. Ao longo das seis décadas seguintes, Zao tornou-se uma figura importante na Europa, América e Ásia, e hoje se destaca como um exemplo da abrangência global da abstração moderna.
Sem Limites (2026-2017): Zao Wou-Ki; é a primeira retrospectiva da obra do artista em um museu nos Estados Unidos. Reunindo obras-chave de coleções públicas e privadas da América, Europa e Ásia, esta exposição ilustra o encontro entre a estética asiática e os movimentos artísticos internacionais que definiram a pintura abstrata do pós-guerra. Sua prática artística e seus métodos inovadores revelam a dinâmica circulação intercultural de ideias e imagens, bem como o papel que Zao desempenhou na criação de uma estética modernista que foi um fenômeno verdadeiramente pluralista.
Victor Hugo utilizou essa técnica para criar uma série de desenhos com tinta da Índia, principalmente para ilustrar algumas de suas histórias. É interessante notar como ele preserva o branco, usando apenas o branco do papel para criar um ponto de luz no centro do castelo.
Gao Xingjian (1940-). Para onde ir, 2020.
Aguada de nanquim sobre papel de arroz.
Gao Xingjian, o autor e artista laureado com o Prêmio Nobel de literatura, cria pinturas monocromáticas evocativas usando tinta nanquim sobre papel de arroz e tela. Desde 1978, ele trabalha exclusivamente com esse meio para produzir composições refinadas que mesclam técnicas tradicionais chinesas de pintura a tinta com o modernismo ocidental, criando um estilo único frequentemente descrito como "visão interior" ou "vision intérieure". As principais características de seu trabalho com tinta incluem:
Técnica Monocromática: Ele usa preto, branco e uma ampla gama de tons de cinza para explorar luz, sombra e profundidade emocional, em vez de uma representação precisa e realista.
Abstração e Forma Refinadas: Seu trabalho situa-se entre a figuração e a abstração, frequentemente retratando paisagens oníricas e nebulosas ou figuras solitárias, demonstrando uma abordagem artística "refinada" para transmitir a psicologia interior.
Método de Aplicação: Ele usa pinceladas espontâneas e livres, juntamente com aguarela, para criar composições delicadas, porém dinâmicas.
Espaço: Suas composições frequentemente fazem uso do espaço "vazio" (papel branco), equilibrando-o com tinta densa e em camadas para criar uma atmosfera poética, semelhante ao Zen.
Linhas Expressivas: Suas pinturas são caracterizadas pela interação de pinceladas sutis e finas com áreas mais amplas e aguadas. que, juntas, capturam uma sensação de movimento e introspecção. A obra de Gao é considerada uma inovação significativa na arte contemporânea, explorando o espaço entre o mundo tangível e o espírito humano.
1. Contexto de Material Escolar
Neste ambiente, o foco é a acessibilidade e atividades lúdicas.
Caneta nanquim escolar: Refere-se a canetas descartáveis de ponta porosa (como as de fibra) que simulam o efeito do nanquim, mas são mais baratas e fáceis de manusear por estudantes.
Nanquim líquido (frasco): É a versão em potinhos de 20ml, muito comum em listas de material para aulas de artes. É usada com pincéis escolares simples.
Técnica do sopro (em vez de ink blotting): Em escolas, o ato de soprar a tinta com um canudinho para criar formas é geralmente chamado apenas de "pintura com sopro" ou "técnica do canudinho".
Aguada: O termo técnico wash é simplificado para "tinta diluída" ou apenas "aguada", explicando que se usa água para deixar o preto mais cinza.
2. Contexto de uso profissional (arquitetura e desenho técnico)
Para profissionais, a precisão e a durabilidade são os fatores mais importantes.
Caneta Técnica (ou Caneta Nanquim Recarregável): Profissionais utilizam canetas como a Desgraph ou Rotring, que possuem pontas de aço com espessuras precisas (ex: 0.2mm, 0.5mm).
Bico de pena: Usado por ilustradores e calígrafos profissionais para obter variação de traço. A tinta utilizada é o Nanquim Profissional, que tem maior concentração de pigmento e resistência à luz.
Godê: Em vez de "recipiente de cerâmica", profissionais utilizam o godê (de porcelana ou plástico) para preparar as diferentes graduações de cinza na técnica da aguada.
Papel de alta gramatura: Enquanto na escola usa-se papel sulfite comum, profissionais especificam papéis como Canson, Bristol ou Papel Vegetal (para desenho técnico), que suportam a tinta sem enrugar ou borrar.
Objetivo
Experimentar o controle de pressão da pena e criar texturas através de hachuras.
1. Materiais necessários
Cabo de pena e ponta (pena de aço flexível).
Frasco de nanquim preto.
Papel de gramatura alta (mínimo 140g) para não "sangrar".
Pano velho ou papel toalha (fundamental para limpeza).
Um copo com água (apenas para limpar a pena ao final).
2. Introdução prática
Explique que a pena funciona por capilaridade. Ao mergulhar a ponta no vidro, o excesso deve ser retirado na borda.
A Regra de Ouro: "Nunca empurre a pena para cima contra o papel; sempre puxe em sua direção ou lateralmente". Isso evita que a ponta espirre tinta ou rasgue a folha.
3. Exercícios de aquecimento
Peça para os alunos dividirem uma folha em 4 quadrados:
Linhas Paralelas: Treinar a constância.
Linhas orgânicas: linhas naturais e irregulares
Hachura Cruzada: Criar tons de cinza sobrepondo linhas em ângulos diferentes.
Pontilhismo: Treinar a paciência e a precisão do toque.
Pressão Variável: Começar fino e apertar a pena para engrossar a linha (o "traço de chicote").
4. Atividade principal: "O monstro das texturas"
Em vez de um desenho realista complexo, peça que desenhem a silhueta de uma criatura imaginária simples.
O desafio
Eles devem preencher cada parte do corpo do monstro com uma textura diferente aprendida no aquecimento.
Isso tira o peso de "ter que desenhar bem" e foca totalmente na técnica de preenchimento e contraste.
5. Dica de Mestre (finalização)
Lave a pena em água corrente e seque-a imediatamente. Penas de metal enferrujam rápido se ficarem úmidas, perdendo o corte.
Você gostaria que eu detalhasse algum referencial teórico (como a história da escrita com penas de ganso) para complementar essa aula?
A tinta nanquim, tinta da Índia (tinta chinesa) é uma tinta originária da China. Originalmente, era vendida em bastão, mas hoje em dia é mais comum encontrá-la em frasco.
A tinta nanquim é uma mistura de vários componentes:
• Pecumã ou filigem, (negro de fumo) = pigmento. Resultado da combustão de materiais organicos (pinheiro, tungue) ou carvão.
• Aglutinante: goma-laca (resina extraída de um pequeno inseto).
• Componentes vegetais (que conferem à tinta nanquim sua textura peculiar e a tornam indelével).
Cuidado! É aconselhável trabalhar com as mangas arregaçadas!
A tinta da Índia é permanente, portanto, é melhor usar roupas adequadas.
EXERCÍCIOS
Preparação para o desenho
Para começar, prepare vários recipientes com diferentes tons de cinza:
• Um copo de água pura
• 100 ml de água com 15 gotas de tinta da Índia (recipiente 1)
• 30 ml de água com 30 gotas de tinta de nanquim (recipiente 2)
• Tinta da China pura com algumas gotas de água (recipiente 3)
• Um pequeno recipiente com tinta pura (algumas dezenas de gotas são suficientes).
Para estes exercícios, precisamos de papel aquarela, com gramatura mínima de 200 g/m², mas 250 g/m² ou 300 g/m² é ainda melhor.
Nesta mesma folha, faremos vários pequenos exercícios para aprender sobre a introdução ao tema e as técnicas básicas da tinta da Índia:
Área de cor plana (Lavis plano)
Com a tinta nº 2, mergulhe o pincel totalmente na água e remova o excesso, mas mantenha o pincel bem carregado de tinta. Faça movimentos de vaivém no papel, para baixo, para obter uma camada de cor lisa e uniforme. Pense nisso como se estivesse empurrando a gota no papel com o pincel. Se a gota desaparecer, o pincel está muito seco e você precisará mergulhá-lo novamente na tinta.
Sobreposição (Camadas)
Faça várias manchas separadas umas das outras. Deixe-as secar e, em seguida, cubra com mais manchas e observe o efeito de sobreposição. Você pode brincar com diferentes densidades de tinta aqui.
Ex: as primeiras manchas com a tinta nº 1, depois as segundas manchas com a tinta nº 3, etc.
Difusão de tinta sobre uma superfície clara
Aplique uma cor plana com a solução nº 1. Enxágue e seque o pincel.
Enquanto a superfície ainda estiver úmida, aplique gotas com a ponta do pincel usando uma das soluções mais escuras, idealmente a do recipiente 3 para um efeito de contraste. Observe a diluição da tinta.
Difusão de água sobre uma superfície escura
Aplique uma cor plana com a solução nº 2. Enxágue e seque o pincel.
Enquanto a superfície ainda estiver úmida, aplique gotas de água pura com a ponta do pincel. Repita a ação várias vezes, se necessário, para que a água se espalhe bem sobre a superfície.
Gradiente do escuro para o claro
Mergulhe o pincel na solução nº 3. Faça duas espirais horizontais para a direita.
Enxágue e seque o pincel. Mergulhe o pincel na solução nº 2. Faça mais duas espirais para a direita, puxando a tinta das espirais feitas anteriormente.
Repita a ação com a solução nº 1 e, finalmente, com água pura.
Não tem problema fazer várias tentativas se não funcionar de primeira; este é o exercício mais difícil.
Agora você já tem o básico das técnicas de lavis com nanquim. Vamos para a aplicação!
Comece a usar tinta da Índia desenhando uma árvore
Para desenhar com tinta nanquim, use uma imagem de alto contraste como modelo, se possível, pois é assim que seu uso será mais interessante.(1)
Vamos criar uma imagem que reúne diferentes exemplos da aplicação da tinta nanquim: aguarela e detalhes.
Crie uma cor sólida com a solução nº 1 em cerca de dois terços da folha.
Obtenha uma aguarela sólida ao começar a usar tinta nanquim.
Antes que a tinta seque, dê leves toques com o pano para criar um efeito esfumaçado; essas serão as nuvens.
Se você fizer com que algumas delas saiam da moldura, criará uma composição mais equilibrada. (1)
Com a tinta nº 2, aplique outra cor sólida na parte inferior da folha, que será o chão. Você também pode adicionar contraste dando leves toques com o pano em algumas áreas.(1)
Quando ambas as áreas estiverem secas, desenhe os troncos com a solução nº 2. 3. Elas serão destacadas pelo forte contraste na folha.(1)
Adicione algumas sombras à base da colina com a solução nº 3 e adicione os galhos enquanto a tinta do tronco ainda estiver úmida, o que evitará a separação devido aos diferentes tempos de secagem.(1)
Enxágue e seque o pincel. Mergulhe-o na solução nº 1. Segure a ponta em um pano por alguns segundos para secá-la suavemente, mas não completamente. Você pode então criar efeitos de folhagem nas árvores e no chão, usando pinceladas rápidas e curtas no papel.(1)
Tenha cuidado para não umedecer demais o pincel! Caso contrário, você não obterá os mesmos efeitos de grama. Faça alguns testes antes em outra folha.
Usando tinta pura, adicione sombras nítidas nos troncos e no chão para trazer um pouco de luz à imagem.(1)
E pronto! Agora você conhece as aplicações básicas para criar um desenho com tinta da Índia. Agora só falta você escolher a sua própria imagem e interpretá-la como quiser!(1)
Nanquim é ótimo para árvores.
https://youtu.be/xxMQXP6hxwQ?si=ByCJ2osuNqOPLARH
SUMI
A tinta Sumi japonesa (墨) é tradicionalmente composta por três ingredientes principais: fuligem (carbono), cola animal (aglutinante) e perfume (fragrância). É uma tinta à base de água, geralmente preta, fornecida na forma de bastões sólidos que são moídos em uma pedra específica (suzuri) com água antes do uso.
Componentes Principais e Funções
Fuligem (Negro de Fumo): É o pigmento que dá a cor preta.
Fuligem de óleo (Yu-en): Produzida pela queima de óleos vegetais (como o de colza), resultando em um preto brilhante e profundo, ideal para caligrafia fina e pinturas delicadas.
Fuligem de pinho (Shou-en): Produzida pela queima de madeira de pinho, resultando em um preto mais mate (fosco) e levemente azulado.
Cola Animal (Nikawa): Aglutinante feito, geralmente, de colágeno de gado ou peixe. Ela une as partículas de fuligem e garante a fixação da tinta no papel.
Perfume (Borneol/Almíscar): Adicionado para contrabalançar o odor forte da cola animal e proporcionar um aroma agradável durante a moagem.
Características Químicas
A mistura de fuligem (carbono) e cola animal (cola animal sólida e seca) cria uma tinta estável e duradoura. A qualidade do Sumi depende da proporção desses ingredientes e do tempo de maturação, que pode levar anos, garantindo uma distribuição uniforme dos componentes.
Diferença com Nanquim
Embora similar ao nanquim, a tinta sumi tradicional em bastão é focada no controle de densidade pelo artista (ao moer mais ou menos o bastão com água), enquanto muitas tintas nanquim ocidentais utilizam aglutinantes sintéticos além da goma-laca (que é natural).
A goma laca é um verniz natural e resina orgânica, secretada pelo inseto Kerria lacca (Kerr, 1782) encontrado na Índia e Tailândia. Utilizada principalmente para dar acabamento, brilho e proteger madeiras, artesanalmente ou em instrumentos musicais, ela é dissolvida em álcool para aplicação. Seca rapidamente e também serve para selar materiais como gesso e MDF.
A laca é a única resina comercial de origem animal e é um polímero natural. É composta por ácidos graxos hidroxilados, principalmente ácido aleurítico (ácido 9,10,16-triidroxihexadecanoico), e ácidos sesquiterpênicos hidroxilados.(WP)
Composição do nanquim tradicional chinês
A composição química clássica e tradicional da tinta nanquim chinesa (também conhecida como tinta da China ou Sumi) baseia-se em três elementos principais, sendo a sua forma sólida tradicional preparada da seguinte maneira:
Pigmento (Negro de Fumo): É o componente responsável pela cor preta intensa. É obtido através da queima de materiais vegetais (frequentemente resina de pinheiro) ou de resíduos de petróleo, resultando em fuligem de carbono coloidal de alta pureza.
Aglutinante (Cola Animal): Tradicionalmente, utiliza-se gelatina ou colas de origem animal (gelatina de pele de boi, por exemplo) para ligar o pigmento e garantir a adesão ao papel.
Solvente (Água): A água é o solvente utilizado tanto na fabricação quanto para diluir a tinta, permitindo o uso com pincel.
Diferenças de Composição:
Nanquim Tradicional (Chinês): Usa cola animal. Após seca, pode ser reativada com água, o que a torna solúvel.
Nanquim Moderno (Indian Ink): Frequentemente substitui a cola animal por goma-laca (shellac) ou resinas acrílicas, tornando a tinta permanente e à prova d'água após a secagem.
Nanquim japonês ou tina Sumi: usa os mesmos componentes acrescido de um perfume, geralmente almiscar.
A tinta nanquim é conhecida por ser não tóxica e produzir traços pretos profundos, ideais para caligrafia, desenho técnico e arte.
MODO DE FAZER NANQUIM ARTESANAL
"A tinta chinesa possui um significado muito especial para a apresentação de efeitos artísticos e para a preservação de obras de arte.
Compartilho o processo que aprendi fazendo essa tinta milenar. A tinta nanquim tradicional (conhecida como Hui Mo) é, tecnicamente, uma dispersão coloidal de carbono em um aglutinante proteico. Diferente das tintas modernas acrílicas, a nanquim tradicional é sólida (em barras) e depende da hidratação correta para liberar o pigmento.(1)
Ingredientes e proporções
Para um lote experimental de aproximadamente 200g de massa de tinta, utilize as seguintes proporções:
1. Pigmento
Fuligem de Carbono (Lampblack) – 100g
Nota: Tradicionalmente obtida da queima de óleo de tungue ou madeira de pinheiro. Deve ser uma fuligem extremamente fina e pura.
2. Aglutinante
Cola Animal (Gelatina de pele de boi ou peixe) – 40g a 60g
A quantidade varia conforme a umidade. A cola mantém o carbono em suspensão e fixa o pigmento no papel.
3. Aditivo Higroscópico
Glicerina (ou Mel) – 5g
Evita que a barra se torne excessivamente quebradiça e ajuda na solubilidade posterior.
4. Preservativo/Aroma
Cânfora ou Óleo de Cravo – 2g
Essencial para evitar a decomposição da proteína (cola) por fungos e bactérias.
5. Água Destilada
Q.S. (Quantidade Suficiente)
Apenas o necessário para hidratar a cola e formar uma pasta moldável.
Modo de Preparo (Processo Laboratorial)
1. Hidratação da Cola
Dissolva a cola animal em água destilada em banho-maria (aprox. 60°C). Não ferva, para não desnaturar as proteínas e perder o poder adesivo.
2. Mistura e Aditivos
Adicione a glicerina e o conservante (cânfora) à cola líquida.
3. Incorporação do Pigmento
Adicione a fuligem gradualmente. Esta é a fase mais crítica: o carbono é hidrofóbico e exige esforço mecânico para ser "molhado" pela solução de cola.
4. Moagem Mecânica (O Segredo)
Na tradição chinesa, a massa é martelada centenas de vezes. Quimicamente, isso garante a desaglomeração das partículas de carbono. Quanto mais você sovar/moer, mais brilhante e profunda será a cor.
5. Moldagem
Pressione a massa em moldes de madeira e deixe secar lentamente em ambiente controlado (sombra e baixa umidade). O processo de cura pode levar de meses a anos para barras profissionais.
Curiosidades
O que as flores têm a ver com o nanquim?
Os quatro nobres são muito importantes no Sumi-e, uma técnica de desenho ancestral baseada no uso do nanquim japonês. Seu nome vem das palavras sumi, que significa tinta, e e, pintura.
Mas, ao contrário do que o nome poderia sugerir, os quatro nobres não são personagens importantes, próximos de um imperador, mas as pinceladas associadas a quatro plantas. A orquídea representa a primavera; o bambu, o verão; o crisântemo, o outono; a cerejeira em flor, o inverno. (domestica)
Tradução Técnica: A Tinta Chinesa sob a Ótica da Ciência de Materiais
A tinta chinesa, conhecida como mo na China e sumi no Japão, refere-se à tinta preta utilizada de forma quase onipresente na pintura e caligrafia do Leste Asiático. O negro de fumo (lampblack) ou a fuligem, como pigmento preto, tendo a cola animal como veículo, proporcionam uma tinta robusta, permanente e versátil há dois milênios. A durabilidade de tal material deve-se à sua fabricação tradicional, bem como à sua singularidade física e química entre os materiais artísticos. A presente pesquisa utiliza instrumentação de última geração para examinar e ilustrar as propriedades excepcionais da tinta chinesa por meio da caracterização química e física, esclarecendo como as matérias-primas afetam a qualidade da tinta.
Fisicamente, a tinta chinesa distingue-se das tintas coloridas tradicionais ocidentais por ser moldada em bastões sólidos (bastões de tinta), a partir dos quais a tinta é dispersa em água conforme necessário via ação mecânica — ou seja, friccionando o bastão contra uma pedra de tinta (inkstone) em água. Por muitos séculos, o carbono utilizado tem sido a fuligem produzida pela queima de madeira (geralmente pinho) ou o negro de fumo obtido pela combustão de óleo em um pavio. O aglutinante de cola animal é fabricado principalmente a partir de couros de mamíferos para produzir uma cola forte à base de colágeno, também utilizada como meio em outras tintas do Leste Asiático. O produto final evoluiu para um pequeno bastão preto manual, geralmente adornado com desenhos ou inscrições em relevo e, muitas vezes, dourado ou pintado. Muitos bastões de tinta são considerados obras de arte por si sós.
Quimicamente, a tinta chinesa diferencia-se de outros tipos de corantes e pigmentos pelo fato de o tamanho da sua partícula primária e a sua superfície desempenharem um papel único na sua eficácia e longevidade. Os colorantes artísticos típicos são ou corantes que formam uma solução verdadeira (ou podem ser precipitados sobre uma fase inorgânica para formar uma laca), ou pigmentos de grande granulometria misturados a um veículo. Em contraste, os componentes primários de carbono nanométricos da tinta chinesa (partículas de fuligem de 10–150 nm) fazem dela uma dispersão coloidal ou sol (dispersão aquosa). Além disso, as propriedades de superfície das partículas do sol tornam-se de suma importância: uma partícula de 10 nm possui uma área superficial específica de cerca de 300 m²·g⁻¹. Os sóis mantêm a estabilidade da dispersão por forças eletrostáticas (devido a cargas elétricas na superfície por ionização superficial ou adsorção de surfactantes ionizados), forças estéricas (interações entrópicas/entálpicas induzidas por polímeros adsorvidos) ou forças eletroestéricas (uma combinação de ambos os efeitos).
Amostras de tinta chinesa foram escavadas datando do século III a.C., embora esteja claro que uma tinta preta, quase certamente baseada em carbono, já estivesse em uso muito antes disso. A tinta chinesa na forma de blocos (inkcakes) era produzida no período Han (206 a.C.–220 d.C.); esta evoluiu para bastões próximos à forma moderna no período Tang (618–907). As tintas pretas à base de carbono são conhecidas em outras culturas, algumas precedendo o caso chinês, como no Egito (quarto milênio a.C.) e na literatura judaica antiga. Os chineses, entretanto, desenvolveram um produto excepcionalmente sofisticado a partir de matérias-primas simples, e o desenvolvimento contemporâneo do papel levou ao seu uso crescente a partir do século III.
O relato escrito mais antigo sobre a fabricação de tinta na China encontra-se na enciclopédia do século VI, Qi min yao shu, de Jia Sixie. Este relato especifica "fuligem fina e pura". Relatos posteriores descrevem a fuligem de madeira de pinho como um dos dois tipos principais. A madeira era queimada com suprimento restrito de ar e a fuligem flutuava por câmaras ou túneis longos: a fuligem coletada mais longe da chama, com partículas menores, era valorizada como de melhor qualidade para bastões de eruditos, enquanto a coletada perto da chama era usada para tintas inferiores, como as de impressão. Provavelmente no período Song, o negro de fumo de óleo entrou em uso. A fonte do século XVII Tian gong kai wu sugere que nove décimos de toda a tinta vinham da fuligem de madeira e um décimo do negro de fumo de óleo. A fabricação moderna parece depender principalmente do negro de fumo, cuja produção é mais fácil de controlar.
A fabricação de cola animal é uma tradição no Leste Asiático. Os couros são depilados com cal por até um mês, seguidos de lavagem e acidificação. A cola é extraída várias vezes com água quente, resfriada até gelatinizar, cortada e seca. Uma solução de cola com o carbono forma uma mistura de consistência pastosa submetida a processos laboriosos de mistura. Amassamento, vaporização e reumidificação são utilizados, mas os relatos históricos enfatizam a importância de pilar a mistura repetidamente — muitas vezes especificando milhares de vezes. Assume-se, portanto, que a tinta chinesa seja uma mistura íntima e completa de carbono e cola. Além dos componentes principais, diversos aditivos secundários foram usados, como perfumes (cânfora, canela) para mascarar o odor da cola animal e corantes (índigo) para acentuar o matiz da tinta.