quarta-feira, 23 de setembro de 2026

ARTE SENSORIAL: UMAMI

ARTE SENSORIAL: O SABOR UMAMI
BREVE HISTÓRIA DO UMAMI


Doce, salgado, azedo e amargo é a resposta mais comum para a pergunta “Quais os gostos básicos do paladar humano?”. Porém, ao contrário do senso comum, a lista não para por aí: menos difundido no Brasil, mas igualmente importante, o quinto gosto básico do paladar humano é o umami, palavra de origem japonesa que, em sentido generalizado, significa “saboroso”.

O sabor umami é gerado pela presença de substâncias químicas específicas, principalmente o aminoácido glutamato e os nucleotídeos inosinato e guanilato, que ativam receptores próprios na nossa língua.

Ramem, sabororos (1)
O umami foi descoberto e divulgado na comunidade científica há exatos 115 anos, quando em 25 de julho de 1908 o cientista japonês Kikunae Ikeda concluiu estudos sobre o tema. Hoje, a data é comemorada internacionalmente como o Dia do Umami. Encontrado em nossa alimentação diária, o umami é reconhecido pelo paladar humano a partir de alimentos que possuem o aminoácido glutamato, o principal representante deste gosto, e também nucleotídeos inosinato e guanilato.

Em palavras mais apetitosas: queijo parmesão, tomate, milho, ervilha, camarão, aspargos, cogumelo shiitake seco, shimeiji,  e carne bovina e suína são exemplos de alimentos que possuem gosto umami.(2). Além destes os principais cogumelos com Sabor Umami Intenso, são: Shiitake (Fresco e Seco): É considerado o "rei do umami natural". A versão seca é ainda mais rica porque o processo de desidratação concentra o guanilato e o glutamato, compostos responsáveis por esse gosto. O líquido da reidratação é excelente para caldos. Shimeji: Muito saboroso e prático, possui altos níveis de glutamato livre e se destaca em refogados e pratos orientais. Porcini e Morel (Morcela): Cogumelos silvestres muito valorizados na alta gastronomia europeia. Quando secos, liberam notas terrosas profundas e umami acentuado. Portobello e Paris (Champignon): Embora mais suaves que o shiitake, também contêm compostos umami, que se intensificam bastante quando são grelhados, assados ou cozidos. Perfil Sensorial dos Cogumelos Umami. Sabor: Intenso, amadeirado, terroso e encorpado, lembrando o calor de caldos longos ou carne grelhada.Mouthfeel (Sensação na boca): Denso, carnudo, suculento e untuoso (preenche o paladar e estimula a salivação).Notas Aromáticas: Aromas que remetem à terra úmida, madeira molhada, nozes e um fundo defumado ou adocicado leve.

Umami em cogumelos (5)

Shiitake (5)

Shimeji (5)

Enoki (5)

Cogumelo comum (5)

Substâncias responsáveis pelo sabor Umami

Glutamato 
Um aminoácido livre presente de forma natural em vários alimentos e no corpo humano. É o principal responsável pelo gosto umami.

Inosinato 
Um nucleotídeo encontrado em grande quantidade em carnes e pescados.

Guanilato
Um nucleotídeo encontrado em cogumelos e vegetais.Alimentos Ricos em Umami.

Você encontra essas substâncias em muitos ingredientes do dia a dia como temperos e algas: Alga marinha kombu (a maior fonte natural) e glutamato monossódico (como o Aji-no-moto), além de carnes e peixes: carne bovina, frango, porco, atum e anchovas. Queijos: queijo parmesão e outros queijos envelhecidos. Legumes e fungos: tomates maduros, cogumelos (como shitake e shimeji), alho e ervilhas.

O glutamato monossódico
Vendido como um pó cristalino branco inodoro e usado como "realçador de sabor", o glutamato monossódico é a versão industrializada do glutamato e a forma mais pura do umami. Obtido principalmente pela fermentação da cana-de-açúcar, o MSG é produzido desde 1909 pela empresa japonesa Ajinomoto, que tem o professor Kikunae Ikeda como um dos nomes por trás do produto.

Glutamato monossódico é a versão industrializada do glutamato e reconhecido da mesma forma por nosso corpo (Shutterstock) (3).

“A molécula química do MSG é exatamente a mesma do glutamato. O único diferencial é que há um sódio ligado a ela. É a mesma substância presente naturalmente nos alimentos e nosso corpo reconhece da mesma maneira”.

Categorizado como um aditivo seguro pela Food and Drug Administration (FDA), órgão governamental dos Estados Unidos que faz o controle dos alimentos, o MSG não tem uma limitação diária de consumo. Como o produto é encontrado também em ultraprocessados, é claro que a recomendação é não exagerar.

Dados da FDA relativos aos Estados Unidos estimam que um adulto médio consome cerca de 0,55 gramas de MSG por dia, enquanto a ingestão diária de glutamato a partir da proteína dos alimentos é de 13 gramas.

A substituição do sal de cozinha pelo glutamato monossódico é também uma discussão pertinente para os estudiosos, que defendem que o uso do MSG ajuda na redução do teor de sódio.

De acordo com informações do Comitê Umami, o glutamato monossódico possui um terço da quantidade de sódio encontrada no sal de cozinha. A substituição de uma colher de sal em uma receita por uma colher que contenha metade de sal e metade glutamato monossódico é recomendada.

“Isso acontece porque o MSG é um ingrediente que confere o gosto umami, assim como o sal proporciona o gosto salgado e o açúcar o gosto doce. Estudos comprovam que existe uma redução de até 37% de sódio utilizando o glutamato monossódico nessas proporções”, afirma a nutricionista Mariana Rosa.

Segundo Maluly tal substituição reduz o teor de sódio sem bruscas mudanças de sabor. Ela ressalta, porém, que pode sim ocorrer uma certa alteração na percepção do sabor da receita, uma vez que “nosso paladar já está muito habituado ao alto consumo de sódio”.

Características do umami
Além da redução do teor de sódio, duas outras características principais marcam a experiência umami: ele aumenta a salivação e prolonga o sabor global dos alimentos. Em linhas gerais, é literalmente o gosto que dá água na boca.

“Como ele aumenta muito a salivação, acaba tendo uma influência na diluição de aromas, por exemplo, e inclusive chega a interagir com outros gostos básicos”.
Vale lembrar que gosto é diferente de sabor. Como a própria profissional enfatiza, o gosto se refere exclusivamente ao sentido do paladar, em que receptores na papila gustativa reconhecem um determinado estímulo proporcionado por substâncias químicas dos alimentos e enviam a informação para o cérebro.
Já o sabor é, na verdade, mais complexo, em que envolve uma combinação multissensorial, como a ajuda do próprio paladar e do olfato.


Como sentir o umami

Assim como os outros gostos, sentir o umami depende primeiramente de experimentar os alimentos. Como indicado pelo Comitê Umami, uma das maneiras de entrar em contato com o quinto gosto é beber um pouco de água e colocar um pedaço de queijo parmesão ou um tomate maduro à boca (quanto mais maduro, mais umami o tomate tem, como afirma a chef Shiraishi). Com a degustação, é possível notar que o salgado do queijo ou o ácido do tomate também se fazem presentes - afinal, os alimentos são complexos do ponto de vista sensorial, já que possuem presença de substâncias diversas que lhe garantem uma diversidade de aromas e gostos. Após ingeridos os alimentos, ocorre uma salivação maior e a sensação de gosto prolongado em boca, aspectos primordiais do umami. Alguns exercícios sensoriais também podem ajudar a diferenciar os gostos básicos através de soluções.

Em diferentes recipientes com água é possível colocar ingredientes puros, como açúcar para o gosto doce e sal para o salgado, por exemplo, assim como o glutamato monossódico para o umami.

Queijos, produtos curados e tomate são exemplos de ingredientes que possuem gosto umami (Bob Peters) (3)

Para entender o umami é preciso voltar mais de um século no calendário. Ao provar um dashi, caldo que é uma das bases da culinária japonesa feito a partir de alga kombu e peixe bonito, o professor Kikunae Ikeda, da Faculdade Imperial de Tóquio, notou um gosto que não era doce, salgado, azedo e nem amargo.

Com seus estudos, Ikeda extraiu o glutamato da alga kombu e determinou que esta era a substância predominante no paladar quando comiam o caldo. O gosto saboroso proveniente do glutamato foi então chamado de umami.

Até hoje, o dashi é a base para vários pratos tradicionais da gastronomia japonesa, como sopa de missô, udon, soba e os famosos lámens, e uma das maneiras mais tradicionais de encontrar e experimentar o umami.

Se no Brasil o predomínio é o eixo salgado/doce para estimular o paladar, no Japão o eixo referencial é o umami. É o que defende a Telma Shiraishi, chef do Aizomê e Embaixadora da Culinária Japonesa, que diz que, com o domínio japonês do umami em preparações com algas, cogumelos e katsuobushi, tempero de peixe bonito seco e ralado, as preparações ficam leves e deliciosas.

"Porque ao emoldurar o umami e valorizar sua presença natural nos ingredientes, as preparações japonesas precisam de muito menos sal, açúcar ou gordura para resultar em pratos que alegram o paladar e induzem à saciedade. Esse talvez seja o 'pulo do gato' do gosto japonês e o segredo para serem um dos povos mais saudáveis e longevos do mundo", conta a chef.

Apesar do umami ter origem japonesa, Telma argumenta que é "o gosto que está na boca e na cabeça de chefs antenados" ao redor do mundo. Um dos exemplos mais notáveis é René Redzepi, nome por trás do NOMA, restaurante em Copenhague eleito por cinco vezes o melhor do mundo e detentor de três estrelas Michelin, que busca o umami através da fermentação.

Onde encontrar umami?

O umami é percebido pelo paladar humano principalmente pela ingestão de alimentos ricos em glutamato. Vale lembrar que ele é um aminoácido, ou seja, um dos blocos de construção das proteínas e que está presente naturalmente no corpo humano e nos alimentos.

Espaguete comcarne (4)

Com o passar do tempo, outros componentes que também formam umami foram descobertos, como os nucleotídeos inosinato e guanilato.

“O glutamato está presente em alimentos curados, como presuntos e queijos, assim como no tomate, cenoura, milho, ervilha e aspargo, por exemplo. Já os nucleotídeos estão presentes mais em carnes. Carne de boi, carne de frango e peixes, como o peixe bonito, são compostos também por inosinato. O guanilato aparece mais em cogumelos, em que o shitake é um dos exemplos mais notáveis”, exemplifica Hellen Maluly, doutora em Ciência dos Alimentos pela Unicamp e consultora do Comitê Umami, que ajuda a popularizar o quinto gosto básico no Brasil.
Para a chef Telma Shiraishi, combinar tomates maduros com queijo curado já é receita de sucesso para uma "bomba de umami", seja na macarronada, na lasanha ou na pizza. Feijoada com carnes curadas e defumadas; estrogonofe com carne, cogumelos e creme; e uma canja também estão entre suas receitas umami prediletas. Para ressaltar o gosto umami na culinária, a pesquisadora Hellen ainda indica fazer uma interação do glutamato e dos nucleotídeos.
“Uma carne com molho de cogumelos ou ainda cogumelos, como o shitake, com vegetais, como cenoura, em caldo ou sopa. É uma mistura entre glutamato e nucleotídeos que confere até uma potência maior de sabor”.
Além destes alimentos, uma das formas mais populares de se encontrar umami nas prateleiras do supermercado é com o glutamato monossódico, também conhecido como o MSG na sigla em inglês.




Fonte



















terça-feira, 22 de setembro de 2026

ARTE CONCEITUAL

MERDA DE ARTISTA
O Valor áureo do excremento: a estética radical de Piero Manzoni

A obra mostrada é “Merda d’artista” (1961), criada pelo artista italiano Piero Manzoni. Ela consiste em latas lacradas que, segundo ele, conteriam suas próprias fezes. A proposta não era chocar apenas por chocar, mas fazer uma crítica ao mundo da arte e ao valor que as pessoas dão às obras só porque foram feitas por um artista famoso. Piero Manzoni foi um artista ligado à arte conceitual, um movimento que valoriza mais a ideia do que a aparência da obra. Ele gostava de provocar o público e questionar o que realmente faz algo ser considerado arte. Para isso ele precificou o valor de cada lata ligando-a ao preço da mesma massa de ouro. Se colecionadores querem algo do artista nada mais intimo do que isso: isso pertence mesmo ao artista.

Em maio de 1961, o artista de vanguarda italiano Piero Manzoni (1933-1963) chocou o circuito cultural ao lacrar 90 latas de metal cilíndricas (com 6,5 cm de diâmetro e 4,5 cm de altura), rotuladas em quatro idiomas (italiano, inglês, francês e alemão) com a inscrição: "Merda d'Artista. Conteúdo líquido 30g. Conservada ao natural. Produzida e empacotada no mês de maio de 1961." O que parecia uma provocação escatológica juvenil revelou-se um dos mais profundos e impiedosos manifestos contra o mercado e o fetiche da mercadoria artística no século XX.

Piero Manzoni. “Merda do artista”. Contendo 30 g. Preservada fresca. 
Produzido e enlatada em Maio de 1961.

A exaltação das fezes como relíquia artística
Manzoni elevou os dejetos corporais ao status máximo de pureza criativa por meio do viés conceitual. Em uma carta enviada em dezembro de 1961 ao seu amigo Ben Vautier, ele explicou a lógica por trás do ato: "Se os colecionadores querem algo íntimo, realmente pessoal do artista, há a própria merda do artista, isso é realmente dele".

Ao fazer isso, Manzoni operou uma ironia hiperbólica sobre os conceitos de autoria e autenticidade. Inspirado nos readymades de Marcel Duchamp e no conceito de fetiche da mercadoria de Karl Marx, ele sugeriu que a genialidade mítica atribuída ao artista era capaz de transmutar qualquer resíduo biológico em algo sagrado. As fezes tornaram-se a extensão máxima da corporalidade criativa, superando seus trabalhos anteriores com balões inflados com seu hálito (Fiato d’artista) ou ovos cozidos marcados com sua impressão digital.

A Estratégia de Comercialização
A venda das latas foi estruturada sob uma crítica ácida ao sistema econômico. Manzoni determinou que cada lata contendo 30 gramas de excremento deveria ser comercializada exatamente pelo preço equivalente ao seu peso em ouro puro de 24 quilates. Na época, o valor estipulado foi de aproximadamente $37 dólares americanos por unidade.
Esta indexação direta ao ouro escancarou a volatilidade e o absurdo da precificação da arte. Manzoni provou que o valor de um objeto no mercado de arte não reside em sua matéria-prima ou valor de uso, mas sim no poder abstrato da assinatura do autor e na especulação financeira.

Onde estão as latas hoje e seu Valor de Mercado
Seis décadas após a sua criação, as latas originais transformaram-se em verdadeiros tesouros institucionais e objetos de desejo de bilionários.

Onde estão localizadas: Muitas das 90 unidades originais encontram-se acervadas permanentemente em grandes museus globais, como a Tate Modern em Londres, o Centre Pompidou em Paris, o Museum of Modern Art (MoMa) em Nova York e o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAN). Outras permanecem guardadas sob estrito sigilo por colecionadores privados que competem ferozmente em leilões.

Preço estimado atual: O valor de mercado das latas originais superou, de longe, a valorização do próprio ouro. Atualmente, em leilões de prestígio conduzidos por casas como a Sotheby´s e a Christie´s, uma lata original de Merda d´Artista esta avaliada entre $200.000 e $300.000 dólares. Em dezembro de 2016, a lata de número 69 atingiu o recorde histórico de venda na casa de leilões Il Ponte, em Milão, arrematada por 275.000 euros (o equivalente a cerca de $290.000 dólares na época).

Curiosamente, o mistério sobre o verdadeiro conteúdo das embalagens permanece intacto. Como abrir a lata destruiria o próprio objeto de arte e seu valor milionário, ninguém jamais confirmou oficialmente se o que há dentro é realmente excremento ou apenas gesso, perpetuando a maior piada conceitual da história da arte moderna.

Piero Manzoni (13 de julho de 1933 – 6 de fevereiro de 1963) foi um artista italiano bastante conhecido pela sua abordagem irônica frente à arte.


Piero Manzoni. “Merda do artista”. Contendo 30 g. Preservada fresca. 
Produzido e enlatada em Maio de 1961.

Piero Manzoni se tornou referência por uma série de obras que põem em questão o objeto de arte, em relação direta com a conceitual.

Seu trabalho raramente é feito com materiais de arte comuns, tinta, pincel, gravura, gesso, pedra, etc., em vez disso o artista constrói seu discurso usando desde pele de coelho à excrementos humanos, de modo a “explorar fontes mitológicas e realizar os valores autênticos e universais “.

Uma de suas obras “Artist’s Shit” (“Merda de Artista”) é um trabalho de 1961 que consiste em 90 latas cheia de fezes do artista, cada uma pesando cerca de 30 gramas e medindo 4,8×6,5cm.

A lata ainda vem com o seguinte rótulo descritivo nas línguas, italiano, francês, alemão e inglês:


Quando o trabalho foi criado, Piero Manzoni estava produzindo uma série de trabalhos que exploravam a relação entre arte e produção humana. Uma curiosidade: esta lata foi vendida por € 124.000 pela Sotheby em 23 de maio de 2007.

Em outubro de 2008, a lata 083 foi colocada novamente à venda na Sotheby com uma estimativa de £50-70,000.

Ela acabou sendo vendida por £ 97.250. As latas foram originalmente avaliadas de acordo com o seu peso equivalente ao ouro – $37 cada, em 1961. Uma loucura, não?



Fonte




CELANT, Germano. Piero Manzoni: Catalogo generale. Milão: Skira, 2004.

GRAW, Isabelle. "Some work went into this: Piero Manzoni, ‘Merda d’artista’, 1961". Texte zur Kunst, Edição 134.

THOMPSON, Jon. "Manzoni’s Critical Reification". In: Piero Manzoni: Paintings, Reliefs & Objects. Londres: Serpentine Gallery, 1998.

FONDAZIONE PIERO MANZONI. La Merda d'Artista: Historical Context and Epistolary Archive. Milão.

TATE MODERN. "Excremental value: Piero Manzoni's 'Merda d'artista'". Tate Etc. Issue 10, 2007.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

MONOTIPIA

MONOTIPIA

O processo da monotipia foi inventado por Giovanni Benedetto Castiglione (1609-1664), um pintor italiano e que também foi o primeiro artista a produzir esboços como obras acabadas (ao invés de estudos para outro trabalho). Ele é o único italiano a ter inventado uma técnica de gravura. 
Castiglione começou a fazer monotipias na década de 1640, trabalhando normalmente em preto para branco, das quais mais de vinte sobreviveram, destas mais da metade são cenas noturnas. Poucos artistas usaram a técnica até Edgar Degas (1834-1917), que fez várias monotipias, muitas vezes trabalhando nelas ainda mais após a impressão; Lucien Pissarro (1863-1944) também fez várias. Paul Gaugin (1848-1903) usando uma variante técnica envolvendo traçados, mais tarde essa técnica foi retomada por Paul Klee. No século XX, a técnica tornou-se mais popular, quando muitos artistas também usam dessa técnica para produzir obras de arte. 
A monotipia é uma técnica de impressão única e híbrida que transita entre a gravura, a pintura e o desenho, caracterizando-se por produzir apenas uma cópia original. O processo de monotipia consiste em aplicar tinta ou pigmento diretamente sobre uma superfície lisa e não porosa, como vidro, metal ou acrílico, para depois transferir essa imagem para o papel por meio de pressão manual, colher ou prensa. Por não possuir uma matriz gravada em relevo ou sulcos, o desenho original desaparece após a transferência, tornando cada impressão uma obra de arte absolutamente singular e irrepetível. 
A grande beleza e definição dessa técnica está justamente no fato de ser um processo de impressão manual direta, onde a pressão das mãos, de uma colher de pau ou de um rolo de borracha é perfeitamente suficiente para transferir a tinta da matriz para o papel.
No entanto, a monotipia de adição com camadas espessas de tinta ou aquela feita sobre matrizes texturizadas (como placas de colagem/colagravura) são as que mais se beneficiam ou frequentemente utilizam uma prensa artística (prensa calcográfica) para melhor revelar os detalhes.
O objetivo desse comunicado é a apresentação de três maneiras simples de experimentar a monotipia em um atelier de arte ou mesmo em casa.

1) Monotipia por subtração

Cubra toda a superfície da sua placa lisa com uma camada fina e uniforme de tinta usando um rolinho de espuma. Em seguida, use ferramentas simples como cotonetes, a ponta de um pincel ou os dedos para remover a tinta e "desenhar" expondo o fundo. Depois, basta pressionar o papel sobre a placa para revelar o desenho negativo.

A técnica passo a passo
A monotipia de subtração é uma técnica de gravura em que o artista aplica uma camada uniforme de tinta sobre uma placa lisa e, em seguida, retira partes dessa tinta para formar o desenho.

O Processo Passo a Passo

Preparo da matriz: Use uma superfície lisa e impermeável, como uma placa de vidro, acetato, acrílico ou metal.

Aplicação da tinta: Espalhe uma camada fina e homogênea de tinta (como tinta óleo, acrílica de secagem lenta ou guache) por toda a superfície usando um rolinho ou pincel.

Subtração (o desenho): Remova a tinta com ferramentas como cotonetes, palitos, pincéis limpos, pedaços de pano ou os dedos. As áreas onde a tinta é retirada formam os traços claros ou o fundo em negativo na impressão final.

Impressão: Pressione um pedaço de papel cuidadosamente sobre a placa entintada, alisando o verso com as mãos ou usando uma prensa para transferir a imagem. O resultado é uma estampa única com fundo colorido e traços em negativo.

Esmiuçando:
A monotipia de subtração é também conhecida como uma técnica negativa, ou seja é um processo de impressão manual onde a imagem é criada retirando-se a tinta de uma superfície lisa. Diferente da técnica por adição onde você pinta diretamente na matriz, i.e., adiciona tinta, na subtração o resultado final revela um fundo colorido com o desenho vazado (em negativo) na cor original do papel.
Por se tratar de uma técnica de monotipia, o resultado é sempre uma obra única e irrepetível. 

Materiais Necessários

Matriz: Uma superfície lisa e não porosa como placa de vidro, acetato, acrílico ou metal.
Tinta: Tintas de secagem lenta, como tinta a óleo, guache ou tinta de gravura.
Ferramentas de aplicação: Um rolo de gravura (mais indicado para distribuição uniforme) ou pincel.
Ferramentas de subtração: Cotonetes, palitos, trapos, pincéis secos ou o próprio dedo.
Suporte: Papel para receber a impressão.

Passo a passo do processo

Entintagem: Aplique uma camada fina e uniforme de tinta sobre toda a extensão da matriz utilizando o rolo.
Subtração (o desenho): Com o auxílio de um cotonete, palito ou espátula, comece a remover a tinta da placa para desenhar. As linhas e formas que você limpar serão as áreas brancas (ou da cor do papel) na impressão final.
Preparo: Se desejar margens limpas, você pode colocar uma máscara de papel vazada sobre a matriz antes de imprimir.
Transferência: Coloque cuidadosamente a folha de papel sobre a matriz entintada.
Pressão: Pressione o verso do papel suavemente com as mãos espalmadas, o punho ou um rolo limpo para transferir a tinta.
Revelação: Remova o papel com cuidado, puxando por um dos cantos, para revelar a sua arte em negativo.


2) Monotipia  Aditiva. Com placa de acrílico ou vidro 

Na monotipia por adição, devemos pintar ou desenhar diretamente sobre uma superfície lisa (como uma placa de acrílico ou o vidro de um porta-retratos) usando tinta acrílica ou guache ou tinta para xilogravura a base d´água. Antes que a tinta seque, coloque uma folha de papel por cima e pressione firmemente com as mãos ou com as costas de uma colher (pode ser uma colher de madeira) para transferir a imagem para o papel.

Técnica de monotipia aditiva

Monotipia aditiva
https://youtu.be/tuLjNFLPtBk?si=R8PT6928wNa6iAEz


3) Monotipia de traço direto (desenho transferido)

Entinte completamente a sua placa lisa com o rolinho. Coloque delicadamente uma folha de papel em branco sobre a tinta fresca, sem pressionar. Desenhe no verso desse papel usando um lápis ou caneta esferográfica. A pressão do seu traço fará com que a tinta da placa grude no papel, criando um efeito de linha texturizada muito expressivo.





Monotipia é uma técnica de impressão manual que combina gravura, desenho e pintura, criando uma obra única e irrepetível. (insta).

Monotipia botânica.(2)

Monotipia botânica (3)

Monotipia botânica feita com o uso de prensa. Medida: 84 x 59 cm. Impressão em tinta tipográfica e tinta para gravura sobre papel Offset 180 gr. 2024.

Monotipia botânica feita com o uso de prensa. Medida: 84 x 59 cm. Impressão em tinta tipográfica e tinta para gravura sobre papel Offset 180 gr. 2024.

Monotipia botânica feita com o uso de prensa. Medida: 84 x 59 cm. Impressão em tinta tipográfica e tinta para gravura sobre papel Offset 180 gr. 2024.


Coda

A monotipia consolida-se como um território híbrido e fascinante entre a pintura e a gravura, onde o acaso e o controle técnico caminham lado a lado. Seus resultados revelam uma estética profundamente orgânica, fluida e expressiva, caracterizada por texturas táteis, passagens de cor esfumaçadas e linhas que carregam a energia direta do gesto do artista. Abaixo está uma breve comparação entre os três tipos de monotipias apresentado nesse artigo, especialmente sobre o uso da prensa artística. 


A beleza da monotipia está na sua singularidade absoluta: um encontro poético entre o desenho a pintura e a gravura onde o acaso e o gesto se fundem. O resultado é uma estética fluida, orgânica e impossível de replicar. Cada impressão carrega texturas únicas e a força de um momento efêmero do gesto do artista, transformando cada cópia em uma obra de arte irrepetível.








Fonte
















(Coda: trata-se da seção final de uma composição musical. Serve para encerrar a peça de forma conclusiva, podendo repetir ou relembrar temas já apresentados.)


sexta-feira, 18 de setembro de 2026

DO BIDIMENSIONAL AO 3D

INTRODUÇÃO A ESCULTURA

Do bidimensional ao tridimensional

A transição da superfície plana para o espaço físico é um dos momentos mais fascinantes da expressão humana, marcando o nascimento da escultura. Enquanto o desenho e a pintura simulam a profundidade por meio de ilusões ópticas, a escultura ocupa o espaço real, convidando o espectador a orbitar a obra e a percebê-la sob múltiplos ângulos e estímulos luminosos. Essa mudança da bidimensionalidade para a tridimensionalidade transforma a contemplação estética em uma experiência sensorial e tátil, onde o volume, a massa e o vazio dialogam diretamente com o ambiente ao redor.

Ao longo da história da arte brasileira, grandes mestres moldaram a identidade cultural do país conferindo tridimensionalidade às nossas dores, crenças e identidades. 
No período colonial, Antônio Francisco Lisboa (1738-1814), o Aleijadinho, tornou-se a referência máxima do Barroco e do Rococó com suas esculturas em pedra-sabão e madeira, repletas de expressividade e dramaticidade.
Séculos mais tarde, o Modernismo trouxe a força de Victor Brecheret (1894-1955), responsável por introduzir a geometrização e a monumentalidade em nossas praças, a sensibilidade de Bruno Giorgi (1905-1993), cujas formas fluidas e vazadas capturaram o espírito utópico e arquitetônico de Brasília e Amilcar de Castro (1920-2002), aprofundaram a geometrização e a matematicidade nas obras, através do Movimento Neoconcreto, consolidou uma linguagem artística única baseada em dois gestos fundamentais sobre o metal pesado: o corte e a dobra.
 
Sobre a obra de Amilcar de Castro

Método Construtivo. Amilcar trabalhava a partir de um bloco ou chapa maciça de aço (frequentemente aço carbono ou aço Corten). Sem adicionar ou desperdiçar material através de soldas ou descartes, ele fazia incisões precisas na placa e a dobrava. Diálogo com o Espaço: A dobra criava uma abertura tridimensional, transformando uma matéria plana e bidimensional em uma escultura volumosa que criava "vazios" e novos pontos de equilíbrio. 

Estética da Matéria. Suas obras pesavam toneladas, mas transmitiam uma sensação de leveza poética, como se o aço rígido e espesso tivesse sido manuseado com a suavidade de uma folha de papel. A oxidação natural do ferro também era integrada como cor e textura da própria obra. 

Legado Extrínseco
Presença Urbana: Suas esculturas monumentais integram a paisagem urbana de diversas cidades brasileiras, com forte presença em praças públicas e museus de Belo Horizonte e São Paulo. 
Memória: Hoje, o acervo e a memória de sua produção são preservados pelo Instituto Amilcar de Castro em Nova Lima (MG), que reúne centenas de suas criações.

Amilcar de Castro (MAC-USP) (1)

Amilcar de Castro em Porto Alegre.

Amilcar de Castro

Amilcar de Castro


Peter Callsen (1967- )

Peter Callesen
Peter Callesen (nascido em 1967) como um dos nomes mais poéticos e inovadores da escultura contemporânea. Com formação inicial em arquitetura antes de migrar para as artes plásticas no Goldsmiths College de Londres, Callesen revolucionou a arte conceitual ao transformar um objeto cotidiano e banal, a folha de papel branco no formato A4, em um campo de infinitas possibilidades narrativas e existenciais. Por meio de cortes cirúrgicos meticulosos e dobraduras precisas feitos a partir de uma única folha, ele eleva silhuetas bidimensionais a complexas figuras tridimensionais, como castelos, esqueletos e pássaros. O grande trunfo de sua estética reside na íntima relação entre presença e ausência: ao manter a escultura conectada ao espaço vazio deixado pelo corte no papel original, Callesen materializa uma profunda dicotomia sobre a impermanência, a fragilidade humana e o limiar trágico-romântico entre a fantasia e a realidade.

Peter Callesen

Peter Callesen (mymodernmet)

Peter Callesen (mymodernmet)

Peter Callesen (mymodernmet)

Peter Callesen (mymodernmet)

Peter Callesen (mymodernmet)

Peter Callesen (mymodernmet)

Peter Callesen (mymodernmet)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callesen (mymodernmet)

Mauritis Cornelis Escher (1898-1972)

Maurits Cornelis Escher (1898–1972) foi um dos artistas gráficos mais famosos do mundo, célebre por suas xilogravuras, litografias e meios-tons que desafiam a lógica visual. Nascido na Holanda, o artista ganhou reconhecimento internacional ao unir arte, matemática e ilusão de ótica, criando estruturas arquitetônicas impossíveis e preenchimentos geométricos perfeitos. 
Biografia resumida e Trajetória
Escher nasceu em Leeuwarden e manifestou interesse pelo desenho desde jovem. Ele ingressou na Escola de Arquitetura e Artes Decorativas de Haarlem, onde seu mentor, Samuel Jessurun de Mesquita, o incentivou a focar nas artes gráficas. 
A sua grande virada estética ocorreu após viagens à Itália e à Espanha. Ao visitar o palácio de Alhambra, em Granada, Escher ficou fascinado pelos mosaicos de arte islâmica. Essa experiência inspirou o desenvolvimento de sua técnica de tesselação (a divisão regular do plano usando figuras geométricas entrecruzadas que se transformam).
Pilares de sua Obra
O trabalho do artista opera na fronteira entre a ciência e o surrealismo, destacando-se por:
Geometria e Simetria: Exploração minuciosa de reflexões, rotações e translações de figuras.
Construções Impossíveis: Cenários que desafiam as leis da gravidade e as regras tradicionais de perspectiva.
Explorações do Infinito: Padrões repetitivos que diminuem ou aumentam progressivamente, sugerindo uma continuidade sem fim.

Mauritis Cornelis Escher (1898-1972)

Mauritis Cornelis Escher (1898-1972)

Mauritis Cornelis Escher (1898-1972)

Bert Simons
O designer e artista visual holandês Bert Simons (formado pela prestigiada Design Academy Eindhoven em 1991) uma mente brilhante na intersecção entre o artesanato tradicional e a tecnologia digital. Sediado em Roterdã, Simons ganhou projeção global na primeira década dos anos 2000 ao subverter o conceito de retrato com suas esculturas tridimensionais hiper-realistas feitas inteiramente de papel. Seu processo meticuloso e vanguardista inicia-se com o mapeamento facial por pontos (técnica similar à captura de movimento do cinema), cujos dados são processados no software de código aberto Blender para gerar uma textura plana e texturizada que ele imprime, recorta à mão e cola cirurgicamente ao longo de vários dias. O resultado de seus "clones" biodegradáveis, que retratam desde amigos até figuras públicas como o ex-prefeito de Roterdã, provoca um profundo efeito estético e psicológico de "vale da estranheza" (uncanny valley), desafiando nossas percepções sobre a identidade, a mortalidade e os limites entre o orgânico e o virtual na era da replicação digital.



Bert Simons
Retrato e máscara de papel vestível do Sr. Ivo Opstelten, prefeito de Roterdã entre 1999 e 2008. Dediquei os últimos dois meses a este retrato, ao todo, 248 horas de trabalho. Além do retrato em papel, também confeccionei uma máscara vestível que aparece em um curta-documentário de Jup de Heer sobre o Sr. Opstelten.

Bert Simons (em primeiro plano a obra Clone, autorretrato)
Bert Simons é um artista visual holandês amplamente conhecido por criar esculturas de papel hiper-realistas em 3D. Embora ele não possua uma página biográfica dedicada na Wikipédia em português, seu trabalho inovador é internacionalmente reconhecido no circuito da arte contemporânea e do design digital. O processo criativo de Simons mistura técnicas de modelagem digital avançada com escultura tradicional em papel: 
1) Ele começa mapeando o rosto de uma pessoa real com pequenos pontos de referência (similar à captura de movimento do cinema).
2) Esses dados são transferidos para o software de modelagem 3D de código aberto Blender, onde ele reconstrói a textura realista da pele e das feições.
3) Por fim, o modelo tridimensional é "achatado" de volta para o formato 2D, impresso e montado meticulosamente à mão para criar os impressionantes retratos físicos.

Bert Simons

Bert Simons

Bert Simons. Autorretrato

Bert Simons

Bert Simons. Processo de produção das esculturas de papel.

Bert Simons. Processo de produção das esculturas de papel e madeira.


Outros artistas, outras obras
em papel









Brasil

A evolução da escultura no Brasil também desafiou as próprias barreiras físicas da matéria no século XX, integrando o espectador de forma ativa. Artistas como Lygia Clark (1920-1988) e Hélio Oiticica (1937-1980), através do movimento Neoconcreto, romperam com o conceito tradicional de estátua estática e contemplativa. Com os seus famosos Bichos, Lygia Clark criou estruturas geométricas de metal articuladas que o público precisava manipular para que a escultura existisse plenamente. Assim, a arte tridimensional brasileira consolidou-se como um campo aberto de experimentação, onde o espaço, o objeto e o corpo humano fundem-se em um único acontecimento.

Lygia Clark. Bichos.

Lygia Clark. Bichos.

Hélio Oiticica

Hélio Oiticica

Hélio Oiticica. Penetrable. (1)

Hélio Oiticica. Hélio Oiticica, maquete para Subterranean Tropicália Projects: PN15 Penetrable, 1971 (FOTO: MIGUEL RIO BRANCO; CÉSAR E CLAUDIO OITICICA Reprodução. dasartes)


PAPECRAFT

Na contemporaneidade, essa passagem ganha novos contornos com práticas acessíveis e inovadoras, como a escultura em papercraft. Essa técnica traduz perfeitamente a jornada entre as dimensões: folhas de papel inicialmente planas, impressas com padrões bidimensionais, são meticulosamente cortadas, dobradas e coladas até se transformarem em bonecos e objetos tridimensionais complexos. O papercraft democratiza a linguagem escultórica, unindo a precisão da modelagem geométrica digital à manufatura artesanal, provando que o volume e a tridimensionalidade podem emergir dos materiais mais cotidianos.










Fonte












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