Característica: Rigor formal e pinceladas invisíveis.
Romantismo (1800–1850): Ênfase na emoção, no drama e na natureza indomável.
Artistas: Eugène Delacroix, Francisco Goya.
Característica: Subjetividade e dinamismo emocional.
Realismo (1840–1880): Retrato da vida cotidiana e das classes trabalhadoras sem idealização.
Artistas: Gustave Courbet, Jean-François Millet.
Característica: Objetividade social e crueza da realidade.
Simbolismo (1885-1886). O simbolismo surge oficialmente na França, por volta de 1885-1886, com a publicação do manifesto de Jean Moréas. Ele aparece como uma reação direta ao materialismo da sociedade industrial e, nas artes visuais, como uma alternativa ao caráter "científico" do Impressionismo.
Breve mapeamento desse movimento:
De quem descende: Ele é um herdeiro direto do Romantismo (pela carga emocional e fascínio pelo mistério) e do Parnasianismo (pela busca do rigor estético), mas também se inspira na crueza sombria de artistas anteriores, como Goya.
Para quem dá origem: Ele é o grande precursor do Surrealismo (ao explorar o subconsciente) e do Expressionismo (ao distorcer a realidade em favor da emoção). Também deixou marcas profundas no Art Nouveau.
Características Distintivas
Subjetividade e Hermetismo: A obra não deve ser lida literalmente; ela é um enigma. O artista usa símbolos para expressar ideias abstratas, sonhos e estados de alma, muitas vezes carregados de misticismo e melancolia.
Fantasismo Anti-Naturalista: Diferente dos realistas, os simbolistas rejeitam o mundo visível. Eles buscam a "ideia" por trás da forma, preferindo temas bíblicos, mitológicos ou puramente imaginários.
Dois Artistas Fundadores
Gustave Moreau: Conhecido por suas pinturas detalhadas e luxuosas de temas exóticos e mitológicos, que parecem saídas de um sonho febril.
Odilon Redon: Famoso por suas "noires" (obras em preto e branco) e visões fantásticas que exploravam o bizarro e o psíquico muito antes da psicanálise.
Impressionismo (1870–1890): Registro da luz e do momento efêmero.
Artistas: Claude Monet, Pierre-Auguste Renoir.
Característica: Pinceladas soltas e captura da luz solar.
Pós-Impressionismo (1880–1905): Uso simbólico da cor e estrutura geométrica.
Artistas: Vincent van Gogh, Paul Cézanne.
Característica: Expressividade pessoal e distorção da forma.
Século XX: As Vanguardas e a Modernidade
Fauvismo (1904–1908): Cores vibrantes e arbitrárias, independentes da realidade.
Artistas: Henri Matisse, André Derain, Maurice de Vlaminck.
Característica: Cores puras e não-naturalistas; e pinceladas soltas e gestuais; simplificação das formas; impacto visual agressivo.
Descendência: Influencia o expressionismo e, via Matisse, a pintura decorativa moderna.
Expressionismo (1905, Die Brücke)
Características: Distorção emotiva da realidade; cores dissonantes e subjetivas; temas de angústia, solidão e crítica social.
Artistas: Edvard Munch (precursor), Ernst Ludwig Kirchner, Egon Schiele.
Descendência: Abstrato e neo-expressionismo (Basquiat, Kiefer).
O Abstracionismo (1910). O abstracionismo não surge de um estalo único, mas se consolida formalmente por volta de 1910. Ele marca o momento em que a arte deixa de representar o mundo visível (objetos, pessoas, paisagens) para focar puramente em cores, linhas e formas.
As correntes que descendem ou se ramificam dele são divididas em duas grandes vertentes:
Abstração Informal (ou Lírica): Focada na emoção, no instinto e no gesto livre.
Descendentes: Expressionismo Abstrato, Tachismo e Informismo (informalismo).
Abstração Geométrica: Focada na racionalidade, na ordem matemática e na estrutura.
Descendentes: Suprematismo, Neoplasticismo (De Stijl), Concretismo e Minimalismo.
Três artistas fundamentais em ordem cronológica de suas contribuições:
Wassily Kandinsky (1910): Considerado o pioneiro. Ele pintou a primeira aquarela abstrata, acreditando que a arte deveria ser como a música: uma expressão espiritual que não precisa imitar a natureza. Sua contribuição foi a libertação da cor e da forma.
Kazimir Malevich (1915): Fundador do Suprematismo. Levou a abstração ao limite radical com obras como o "Quadrado Preto sobre Fundo Branco". Sua contribuição foi a busca pela sensibilidade pura através da geometria simplificada ao máximo.
Piet Mondrian (1920): Líder do Neoplasticismo. Ele buscou uma linguagem universal usando apenas cores primárias e linhas retas pretas. Sua contribuição foi a racionalização estética, reduzindo a imagem a uma estrutura de equilíbrio absoluto.
Cubismo (1907–1914): Fragmentação do objeto e visualização de múltiplos ângulos. (1907, Les Demoiselles d’Avignon).
Artistas: Pablo Picasso, Georges Braque.
Característica: Geometrização e fim da perspectiva tradicional; Fragmentação geométrica da forma; múltiplas perspectivas simultâneas; paleta reduzida (fase analítica).
Artistas: Pablo Picasso, Georges Braque, Juan Gris.
Descendência: Origina orfismo, purismo, futurismo, construtivismo e vorticismo.
Purismo (1918, após o cubismo)
· Características: Formas claras, precisas e universais; rejeição do decorativo; ideal de máquina bem projetada.
· Descendência: Inspira a estética industrial e o design moderno.
Orfismo (1912)
Características: Abstinência lírica e colorida; discos de cor simultâneos; ritmos luminosos derivados do cubismo.
Artistas: Robert Delaunay, Sonia Delaunay, František Kupka.
Descendência: Prepara o abstracionismo geométrico e a arte cinética.
Futurismo (1909 - 1916 manifesto)
Manifesto escrito pelo poeta e editor italiano Filippo Tommaso Marinetti (1876-1944). Publicado em 20 de fevereiro de 1909 no jornal francês Le Figaro, o documento oficializou o futurismo, exaltando a velocidade, a máquina, a tecnologia, a juventude e a violência, ao mesmo tempo em que rejeitava o passado e o academicismo artístico
Características:
Exaltação da máquina, da velocidade e do progresso tecnológico.
Exaltação da velocidade, máquina e guerra; dinamismo visual; simultaneidade e linhas de força.
Descendência: Influencia o vorticismo, construtivismo e dadá.
Vorticismo (1914)
Características: Abstração angular e agressiva; celebração da energia da era da máquina; rejeição do sentimentalismo.
Artistas: Wyndham Lewis, David Bomberg, Henri Gaudier-Brzeska.
Descendência: Precede o construtivismo inglês e o hard-edge.
Expressonismo Alemão (1905–1933):
Expressão de sentimentos internos e angústias existenciais.
Artistas: Edvard Munch, Ernst Ludwig Kirchner.
Característica: Distorção da realidade para transmitir emoção.
Suprematismo (1915) e De Stijl (1917)
Formas geométricas puras (quadrado, círculo, cruz); fundo branco; ausência de função social imediata.
Artistas: Kazimir Malevich, Olga Rozanova, El Lissitzky (transição).
De Stijl: Linhas horizontais/verticais; cores primárias + preto/branco; utopia da harmonia universal.
Artistas: Piet Mondrian, Theo van Doesburg, Gerrit Rietveld.
Descendência: Ambos desaguam no minimalismo e na arte concreta.
Construtivismo (1921, na Rússia)
Características: Arte como construção prática; materiais industriais; engajamento social e funcionalismo.
Artistas: Vladimir Tatlin, Alexander Rodchenko, Varvara Stepanova.
Descendência: Origina o design gráfico moderno, o cinetismo e influencia o construtivismo tcheco.
Dadaísmo (1916–1923): Anti-arte, deboche e negação da lógica burguesa.
Artistas: Marcel Duchamp, Francis Picabia.
Característica: Nihilismo e uso do "Ready-made" (objetos prontos).
Surrealismo (1924–1966): Exploração do inconsciente, dos sonhos e do absurdo.
Artistas: Salvador Dalí, René Magritte.
Característica: Ilogismo e imagens oníricas.
Expressionismo Abstrato (1940–1950): A pintura como registro do gesto físico do artista.
Artistas: Jackson Pollock, Mark Rothko.
Característica: Espontaneidade e ausência de figuração.
Expressionismo Abstrato (1946, EUA)
Características: Gestualismo e escala heroica; ação e espontaneidade (action painting); campos de cor (color field).
Artistas: Jackson Pollock, Willem de Kooning, Mark Rothko.
Descendência: Gera o minimalismo (reação) e a arte processual.
Arte Cinética (1955, exposição "Le Mouvement")
Características: Movimento real ou virtual; participação do espectador; luz e ilusão de ótica.
Artistas: Victor Vasarely, Jesús Rafael Soto, Alexander Calder (precursor).
Descendência: Alimenta a arte op e a arte tecnológica.
Pop Art (meados dos anos 1950, 1950–1970 auge 1962): Apropriação de ícones da cultura de massa e publicidade.
Artistas: Andy Warhol, Roy Lichtenstein, Richard Hamilton.
Característica: Crítica ao consumo através da estética industrial. Imagens da cultura de massa; repetição e serialidade; ironia sobre o consumismo.
Op Art ou Arte Op: (1965, exposição "The Responsive Eye")Ilusão de movimento e vibração ótica; padrões geométricos rigorosos.
Artistas: Bridget Riley, Victor Vasarely, Julio Le Parc.
Descendência: Pop → apropriação (Sherrie Levine, Koons); Op → digital e cinético.
Minimalismo (meados dos anos 1960–1970): Redução da obra aos seus elementos essenciais e geométricos.
Característica: Simplicidade extrema e objetividade.
Redução a formas geométricas elementares; uso industrial; ausência de expressividade ou narrativa.
Artistas: Donald Judd, Carl Andre, Dan Flavin, Sol LeWitt.
Descendência: Gera a arte pós-minimalista e o processo.
Arte Conceitual (meados dos anos 1960, consagrada com "When Attitudes Become Form" 1969).
A ideia ou o conceito é mais importante que o objeto estético final.
Artistas: Joseph Kosuth, Sol LeWitt (também minimalista conceitual), Marcel Duchamp (precursor). Marina Abramović.
Característica: Predomínio do pensamento sobre a forma física; A ideia prevalece sobre o objeto; documentação e linguagem como meio; crítica às instituições.
Descendência: Arte relacional, arte de arquivo, pós-internet.
Arte Afro-Brasileira: Identidade, Memória e Resistência
A noite não adormece
Nos olhos das mulheres
A lua fêmea, semelhante nossa,
Em vigília atenta vigia
A nossa memória.
(...)
A noite não adormecerá
Jamais nos olhos das fêmeas
Pois do nosso sangue-mulher
Do nosso líquido lembradiço
Em cada gota que jorra
Um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.
Trechos de “A noite não adormece nos olhos das mulheres”
Conceição Evaristo, 1996
Tema
A arte como ferramenta de reconstrução histórica
e afirmação social.
Habilidades
Pesquisar e analisar diferentes estilos visuais;
Discutir a importância da participação da população negra na formação social do Brasil.
Duração: 8 aulas
1. Introdução
O Que é Arte Afro-Brasileira?
Inicie questionando: "A arte afro-brasileira é apenas sobre religião ou passado?".
Explique que ela abrange três enfoques: histórico (ex: o Barroco), religioso (Candomblé e Umbanda) e cultural/contemporâneo (música, moda, grafite).
Destaque que esta arte é um ato de "reexistência", transformando memórias em visibilidade política e social.
2. Artistas de Referência
Artistas que moldaram a cena brasileira
Maria Auxiliadora(1935-1974)
Artista autodidata que retratou o cotidiano e a religiosidade com técnicas inovadoras, incluindo o uso de seu próprio cabelo em telas.
Maria Auxiliadora da Silva (Campo Belo, 24 de maio de 1935-38 – São Paulo, 20 de agosto de 1974) foi uma pintora e artista autodidata brasileira Costa (2024).
Segundo Costa (2024) foi uma mulher negra, periférica, mineira e artista brasileira autodidata. Maria Auxiliadora da Silva, ou apenas Maria Auxiliadora, é uma figura marcante para a arte brasileira. Ela nasceu em Campo Belo, Minas Gerais, em 15 de Maio de 1938, mas se mudou para São Paulo ainda criança. Maria Auxiliadora cresceu em uma família de trabalhadores e artistas autodidatas, militantes do movimento negro, sua avó fora escrava, sua mãe embora não seja artista, incentiva os filhos a criarem. Alguns de seus irmãos também eram artistas, como João Candido da Silva e tal imersão desde cedo em um ambiente criativo impulsionou suas experimentações.
Maria Auxiliadora conquistou reconhecimento nacional e internacional com suas obras que retratam cenas da vida doméstica e rural, religiões afro-brasileiras, danças, festas, carnaval, temáticas populares brasileiras e aspectos da vida urbana e cotidiana em comunidades da cidade de São Paulo, como por exemplo os bairros Brasilândia e Casa Verde. Realizou ainda autorretratos, principalmente perante a proximidade da morte por câncer em 1974, retratando sua batalha com a doença. Ainda criança aprendeu a bordar com a mãe e desenhar com carvão, guache e tinta a óleo, mas aos 12 anos parou de estudar para ajudar a família e começou a trabalhar como bordadeira. Atuou como empregada doméstica durante um longo período de sua vida, mas sem nunca deixar sua paixão, pintava nas horas vagas e apresentava suas obras em locais públicos, como nas feiras de Embu das Artes e nos circuitos artísticos, que aconteciam na Praça da República, em São Paulo. No entanto, apenas aos 32 anos ela conseguiu se dedicar exclusivamente à sua maior aptidão, a pintura.
A artista mineira contrariava todas as expectativas sobre o papel de uma mulher negra na época, reinventando o conceito de arte se descolando dos preceitos acadêmicos e modernistas. Suas obras eram autênticas, populares e vibrantes.
Maria Auxiliadora pintava como se bordasse tecido. Utilizava-se de muita textura e é o marcante uso de cores brilhantes e relevos sobre a tela. Ela criou suas obras a partir de uma técnica própria que desenhou, que se tornou sua assinatura: uma mistura de tinta a óleo, massa plástica e mechas do seu cabelo para construir relevos na tela.
Alecsandra Matias de Oliveira, Doutora em Artes Visuais e professora da Escola de Comunicações e Artes da USP comentou sobre a expressão única da pintora mineira. "Alguns críticos de arte a classificam como figura relevante, sendo intitulada como artista marginal, primitivista, naif, por produzir de maneira autodidata. Contudo, ela fez uma revolução silenciosa ao assimilar valores culturais próprios à sua condição de mulher, negra e brasileira".Costa (2024)
Maria Auxiliadora provém de uma família de 18 irmãos, muitos dos quais artistas que expuseram seus trabalhos em feiras populares no Embu das Artes e na Praça da República, em São Paulo. Pertencem a família Silva o desenhista e pintor Sebastião Candido da Silva (1929 - 2016), o escultor Vicente Paulo da Silva (1930-1980); o artesão e pintor Benedito da Silva (1953-1998); o desenhista, o pintor e escultor João Cândido da Silva (1933) e sua esposa, a pintora Ilza Jacob da Silva (1946); a pintora Conceição Aparecida Silva (1938); a poeta Natália Natalice da Silva (1948); a pintora e criadora de bonecos Georgina Penha da Silva, mais conhecida por Gina (1949); e a contadora de histórias Efigênia Rosário da Silva (1937). A matriarca, Maria Trindade de Almeida Silva (1909-1991) era escultora, pintora, poetisa e bordadeira, e o pai, José Cândido da Silva, um trabalhador braçal de estrada de ferro, tocava acordeão.(1)
Heitor dos Prazeres (1889-1966)
Segundo Frazão (2020), Heitor dos Prazeres nasceu no Rio de Janeiro, no dia 23 de setembro de 1898. Era filho de Eduardo Alexandre dos Prazeres, marceneiro e clarinetista da banda da Guarda Nacional e da costureira Celestina Gonçalves Martins. Com sete anos ficou órfão de pai, com quem aprendera os primeiros passos da profissão de marceneiro, e se alegrava ouvindo o som de polcas, valsas e choros em seu clarinete.
Música
Já mostrando sua vocação musical recebeu do tio Hilário Jovino, o primeiro cavaquinho, e com esforço da mãe, foi matriculado em uma escola profissionalizante, onde cursava o primário e a profissão de marceneiro. Influenciado pelo tio, aprendeu a compor suas primeiras músicas e logo chamou a atenção do compositor e pianista Sinhô.
Ainda jovem, para ajudar nas despesas da casa, foi engraxate, jornaleiro e ajudante de marceneiro. Sempre junto com seu cavaquinho passou a frequentar as reuniões realizadas na casa de Tia Ciata, local também frequentado pelos compositores Sinhô, Donga, Pixinguinha, e João da Baiana, onde na mistura dos ritmos dos instrumentos de percussão com o cavaquinho surgiram vários sambas.
Na década de 20, já se destacava entre os famosos compositores do carnaval carioca, era chamado de “Mano Heitor do Estácio”. Tocando seu cavaquinho, arrastava os foliões pelas ruas do Rio. Participou da criação das primeiras escolas de samba, entre elas: a Estação Primeira da Mangueira e da Vai Como Pode, depois transformada em Portela, à qual ele deu as cores azul e branca.
Em 1929, a Portela foi a primeira vencedora do concurso de escolas com sua composição “Não Adianta Chorar”. Em 1931, casou-se com Glória, com quem teve três filhas.
Heitor dos Prazeres, além de participar do elenco da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, se apresentava no Cassino da Urca, onde tocava, cantava e dançava.
Como compositor, escreveu diversas composições, entre elas: Sou Eu Quem dou as Ordens, Lá em Mangueira, Madureira, Meu Pretinho e Tristeza. Em parceria com Herivelto Martins compôs: Vai Saudade e Pierrô Apaixonado. Com Noel Rosa: Vou te Abandonar, Gosto Que Me Enrosco, Linda Rosa, entre outras.
Destaque nas Artes visuais
Depois da morte de sua mulher, 1936, passou a desenvolver seu gosto pela pintura. Retratava a vida e a cultura das favelas cariocas, pintava as morenas, rodas de samba, crianças brincando de soltar balão e pipas, a vida boêmia nas ruas da Lapa, as primeiras casas nos morros, as festas de rua etc.
Heitor dos Prazeres (1898–1966) foi um dos mais importantes artistas multidisciplinares do Brasil, atuando como sambista, compositor, cantor e pintor. Reconhecido como pioneiro do samba carioca, ajudou a fundar escolas como Mangueira e Portela, além de ser um expoente da arte naïf (ingênua), retratando a vida afro-brasileira, religiosidade e a boemia.(Frazão, 2020)
Principais destaques de sua vida e obra:
Pilar do Samba: Compositor de mais de 300 canções e sambas, com atuação marcante na Velha Guarda do samba carioca.
Artista Plástico: A partir de 1937, dedicou-se à pintura, criando obras com cores vibrantes que retratavam o cotidiano, morros e festas populares, sendo um dos maiores nomes da arte naïf no Brasil.
Arte Naïf, Arte Brut, Arte Popular ou Arte Primitiva?
O termo arte naïf aparece no vocabulário artístico, em geral, como sinônimo de arte ingênua, original e/ou instintiva, produzida por autodidatas que não têm formação culta no campo das artes. Nesse sentido, a expressão se confunde frequentemente com arte popular, arte primitiva e art brut. (itaucultural).
A arte Naïf (que vem do francês e significa "ingênuo") é aquele tipo de produção feita por artistas que não frequentaram escolas de artes ou academias tradicionais. Imagine alguém que sente uma vontade profunda de pintar, mas nunca estudou teorias de perspectiva, anatomia ou mistura de cores. Esses artistas criam de forma livre e instintiva, sem se preocupar com as "regras" do que é considerado tecnicamente correto pela elite da arte.
Uma das características mais marcantes é a estética da pureza. As obras costumam ter cores muito vivas, muitos detalhes e uma ausência de perspectiva realista, as figuras podem parecer "chapadas" na tela ou ter tamanhos que não seguem a lógica da distância. É uma arte que valoriza a narrativa e a emoção; o artista quer contar uma história sobre sua vida, sua fé ou sua comunidade, focando na alegria e na simplicidade do cotidiano.
Para visualizar, pense no francês Henri Rousseau, um funcionário público que começou a pintar sozinho e hoje é um dos maiores nomes do mundo. Ele pintava selvas exuberantes e cheias de detalhes, mesmo sem nunca ter saído da França. Aqui no Brasil, temos exemplos incríveis como Djanira e Mestre Vitalino (com suas esculturas de barro), que retratavam festas populares, o trabalho no campo e a religiosidade brasileira com uma força visual única.
Em resumo, a arte Naïf prova que a criatividade não depende de um diploma. Ela é uma celebração da expressão autêntica, onde o olhar "inocente" do artista transforma o comum em algo extraordinário. Para quem vê, é um convite para olhar o mundo com mais cor e menos complicação, valorizando a cultura popular e a visão de mundo de quem pinta com o coração.
No campo da estética e da filosofia da arte, o conceito de Arte Naïf demanda uma delimitação analítica rigorosa para além da mera atribuição de "ingenuidade". Propõe-se, a seguir, uma reestruturação acadêmica do texto, visando a precisão terminológica para o debate docente:
O constructo da Arte Naïf é frequentemente mobilizado na historiografia artística como um descritor de produções caracterizadas pela autodidaxia e pela suspensão das convenções acadêmicas formais.
Diferencia-se pela ausência de uma formação institucionalizada, o que resulta em uma práxis pictórica que privilegia a intuição e uma originalidade ontológica, operando à margem dos cânones da tradição erudita ocidental.
Entretanto, do ponto de vista da ontologia da arte, a terminologia enfrenta desafios de especificidade conceitual. É comum a sobreposição semântica, e por vezes equivocada, entre o Naïf e categorias como a arte popular, a arte primitiva e a art brut.
Embora compartilhem o distanciamento da cultura oficial, tais distinções são cruciais: enquanto a arte popular está intrinsecamente ligada à identidade coletiva e ao artesanato comunitário, o Naïf manifesta-se como uma expressão individualizada.
A aproximação com a Art Brut, por exemplo, introduz variáveis psíquicas e marginais que nem sempre coincidem com a natureza solar e narrativa da estética Naïf. Da mesma forma, o rótulo "primitivo" carrega um viés colonialista que a análise contemporânea busca superar, preferindo entender o artista Naïf como um sujeito que, embora inserido na sociedade, opta por uma linguagem visual que recusa a mediação da teoria técnica clássica.
Portanto, para o ensino de artes, é fundamental tratar a Arte Naïf não como uma "ausência de técnica", mas como uma escolha estética de pureza representativa. Ela representa uma resistência poética que reivindica a legitimidade da visão subjetiva, consolidando-se como um campo de estudo onde a autonomia criativa prevalece sobre o rigor metodológico das academias.
Atuação Social e Cultural: Foi uma figura de resistência cultural, vivenciando e registrando a vida do homem negro no Rio de Janeiro pós-abolição.
"Arquiteto do Carnaval": Teve papel central na formação dos desfiles de carnaval modernos.
Heitor dos Prazeres é celebrado como um "artista completo", que uniu música e pintura para registrar a identidade cultural popular brasileira.
Heitor dos prazeres (1889-1966)
Heitor dos prazeres (1889-1966)
Heitor dos prazeres (1889-1966)
Heitor dos prazeres (1889-1966)
Heitor dos prazeres (1889-1966)
Heitor dos prazeres (1889-1966)
Heitor dos prazeres (1889-1966)
Heitor dos prazeres (1889-1966)
Heitor dos prazeres (1889-1966)
Heitor dos Prazeres
Heitor dos Prazeres (Brasil, 1889-1966) foi pintor, músico compositor e marceneiro. Inicia-se na pintura por volta de 1937, como autodidata, estimulado pelo jornalista e desenhista Carlos Cavalcanti. Participou e foi premiado na 1ª Bienal Internacional de São Paulo. É homenageado com sala especial na 2ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1953. Tornou-se um artista destacado, atuando como compositor, instrumentista e letrista de música popular brasileira. Participou da fundação das primeiras escolas de samba cariocas, entre elas a Estação Primeira de Mangueira. Suas obras estão em coleções de importantes museus brasileiros e internacionais. Viveu no Rio de Janeiro, Brasil.(bienalmercosul).
Mestre DIDI (1917-2013)
Mestre Didi, ou Deoscóredes Maximiliano dos Santos, nasceu em Salvador-BA em 2 de dezembro de 1917 e faleceu em 2013 na mesma cidade. Foi um renomado artista, reconhecido por seu trabalho como mestre de capoeira, escritor, escultor, pintor, líder e sacerdote do candomblé.
No universo da arte brasileira, poucos artistas conseguiram capturar a essência da cultura afro-brasileira com tanta profundidade e beleza quanto Mestre Didi. Sua vida e trajetória representam a paixão pela arte e a dedicação à preservação das tradições afro-brasileiras. Seu pai, o Alagbá Arsenio dos Santos, pertencia à “elite” dos alfaiates da Bahia. Mudou-se para o Rio de Janeiro na época em que houve uma grande migração de baianos para a então capital do Brasil.
Sua mãe, Maria Bibiana do Espírito Santo, mais conhecida como “Mãe Senhora” era descendente da tradicional família Asipa, originária de Oió e Queto, importantes cidades do Império de Oió.
Sua trisavó, Sra. Marcelina da Silva, Oba Tossi, foi uma das fundadoras da primeira casa de tradição nagô de candomblé na Bahia, o Ilê Axé Airá Intilê, depois Ilê Iá Nassô.
Ainda em 1925, aos oito anos, Deoscóredes foi iniciado no culto aos ancestrais (Egungun) da tradição iorubá na Ilha de Itaparica-BA. Tornou-se conhecido como “Mestre Didi”, herdeiro da grande tradição do reinado de Ketu. Em 1975, Didi recebeu a mais alta hierarquia sacerdotal Alapini no culto aos Ancestrais Egun. Em 1980 fundou a Sociedade Religiosa e Cultural Ilê Asipá, do culto aos ancestrais Egun em Salvador.
Imagens da esquerda para direita: Sem título, s.d. Nervura e palmeira, couro pintado, búzios e contas. 82,5 x 40 x 14,5 cm ; Centro: Sem título, s.d. Nervura e palmeira, couro pintado, búzios e contas. 129 x 44 x 15 cm. ; Direita: Pássaro Ancestral, s.d. Técnica Mista. 152 x 92 x 12 cm. Créditos: Galeria Almeida e Dale.
Mestre Didi. Igi Bojuto Onan Meta. A árvore vigia dos três caminhos (2003). Crédito: Museu Afro Brasil Emanoel Araújo.
Mestre Didi. Deoscoredes Maximiliano dos Santos. Mestre Didi (1917-2013).
ARTISTAS CONTEMPORÂNEOS
Rosana Paulino (1967-)
Rosana Paulino
Rosana Paulino nasceu em São Paulo, em 1967, e consolidou-se como uma das vozes mais potentes da arte contemporânea brasileira. Doutora em Artes Visuais pela USP, sua produção é multidisciplinar, abrangendo áreas como gravura, desenho, escultura e instalação, mas é mundialmente reconhecida por seus trabalhos com costura e colagem sobre tecido. Sua poética investiga as cicatrizes deixadas pela escravidão, utilizando o corpo feminino negro como território de denúncia contra o racismo estrutural e as desigualdades sociais, transformando elementos domésticos e biológicos em ferramentas de resistência política. (1, 2, 3, 4, 5). Seu trabalho desconstrói a produção e disseminação de teorias raciais que justificaram o colonialismo europeu e a escravidão.
Rosana Paulino, Bandeira para o MAR (Museu de Arte do Rio de Janeiro).
A importância de Paulino para o feminismo negro e para a história da arte afro-brasileira é fundadora, pois ela desloca a mulher negra do lugar de subalternidade ou de objeto exótico para o de protagonista e sujeito histórico. Ao questionar os padrões estéticos eurocêntricos e os silenciamentos da história oficial, sua obra abriu caminho para novas gerações de artistas racializados, tornando-se uma referência acadêmica e estética essencial para compreender a construção da identidade nacional. Ela não apenas produz arte; ela reescreve a memória do Brasil através de um olhar crítico e profundamente humanizado. (6, 7).
Rosana Paulino. Bastidores. Costura sobre foto impressa em linho.
Rosana Paulino é conhecida por seus trabalhos de cunho social, étnico e voltado a questões de gênero, além de explorar os impactos da memória em construções psicossociais. Em um de seus trabalhos mais notáveis, "Assentamento(s)", a artista recriou a imagem histórica feita por uma zoologista de uma mulher negra brasileira, dando a ela um nome e uma história. Seu trabalho desconstrói a produção e disseminação de teorias raciais que justificaram o colonialismo europeu e a escravidão. Rosana Paulino, vive e trabalha em São Paulo, é considerada uma das mais importantes vozes do feminismo negro no Brasil, e explora a história da violência racial no país através de suas obras. Sua criação é marcada pela mistura entre diferentes técnicas e práticas, como desenhos, bordados, colagens, esculturas e instalações, entre outras.
Em todo o mundo, os artistas enfrentam riscos crescentes quando se trata de liberdade de expressão e liberdade de fala. Para os artistas, isso significa o risco de serem censurados, negados espaços de exposição ou até perseguição. E para as instituições de arte, também vemos uma pressão crescente de proprietários, investidores, governos e outras forças para impor restrições à liberdade artística e à escolha livre das instituições de artistas e obras de arte a apresentar. Destacou-se também a importância da experimentação e da coragem artística em se expressar politicamente, ainda que esse uso tenha o seu preço. ”Queremos elevar aqueles que estão na vanguarda da sociedade atual e assumem o risco para que todos possamos participar de uma sociedade aberta e democrática. Paulino está fazendo exatamente isso”, afirma Hansem, diretora do Museu Munch, que concedeu o primeiro premio a Rosana Paulino em 2024.
Rosana Paulino. Tecelãs, detalhe. 2003.
Rosana Paulino, detalhe de Parede da Memória, 1995-2015.
Rosana Paulino. Atlântico vermelho. Sem Título, 2016.
Impressão sobre tecido, ponta seca e costura, 58 × 89,5 cm.
Classificar é saber?, 2016.
Imagem transferida sobre papel e colagem, 56 × 42 cm.
A Ciência é a luz da verdade?, 2016.
Impressão sobre tecido e costura, 29 × 58 cm.
Classificar é saber?, 2016.
Imagem transferida sobre papel e colagem. 56 × 42 cm.
Autorretrato com Máscara Africana e Bandeirinhas (Volpi), 1998
Linoleogravura sobre papel, 45,5 x 36,9 cm. MACRS.(1, acervo).
Autorretrato com Máscara Africana e Paisagem Antropofágica (Tarsila), 1998.
Linoleogravura sobre papel, 45,9 x 36,9 cm. MACRS.(acervo).
“Dentro da psicologia tradicional, há uma inundação de Heras, Vênus, Atenas etc., que não conversam com as mulheres negras brasileiras. Quando eu olho o meu perfil, por exemplo, dentro dessa psicologia calcada numa mitologia europeia, não me encaixo de maneira alguma. Eu sou filha de Ogum com Iansã”, diz. “A construção da psique feminina não contempla as mulheres negras, como eu. Não aparece sequer uma deusa negra, africana. É como se a mulher de origem africana não tivesse psique, não tivesse individualidade. É cruel e absurdo. Parece que não temos direito nem à subjetividade.” Suas criações apresentadas em Veneza tentam refundar ou mesmo sugerir novos mitos, a partir de novos arquétipos. A série Senhora das plantas, ela afirma, refere-se às mulheres na faixa etária de 30 a 50 anos, ao passo que as Jatobás são as grandes árvores, as mulheres em sua maturidade. “Elas remetem às grandes mães de santo, que conseguiram manter a comunidade negra unida ao longo da História, são as detentoras e mantenedoras do conhecimento, são as nossas avós, na realidade”, afirma. (Simões, 2022).
Antonio Obá (Ceilândia, 1982) é um renomado artista contemporâneo brasileiro cujas pinturas, esculturas e performances investigam a identidade afro-brasileira, religiosidade, sexualidade e raça. Sua obra ressignifica traumas históricos e símbolos religiosos com elementos poéticos e eróticos, tornando-o um dos principais nomes da arte brasileira atual.
Nascido em 1982, Antonio Obá possui licenciatura em artes pela Faculdade Dulcina de Moraes. Já participou de exposições em Brasília e no Rio de Janeiro. Suas obras de arte relacionam símbolos religiosos, questões raciais e política.
Entre seus trabalhos mais conhecidos está a performance “Atos da Transfiguração”, em que ele esfrega uma estátua que representa a Nossa Senhora Aparecida, negra, até que ela se torne completamente branca. Trata-se de uma crítica ao racismo velado no Brasil.
Na obra intitulada “Fata Morgana” o artista parte de uma longa pesquisa ligadas à água na qual ele explora tanto seu significado universal de renovação de vida. Mas ele também lembra constantemente do episódio “Negros na Piscina” – propondo, assim um duelo de tensões. Comenta, ainda, sobre o translado Atlântico que foi e é passagem, mas também jazigo de corpos naufragados no mar, o que transforma esse oceano num grande cemitério. Ele pinta uma criança prestes a tocar as águas dessa piscina, como uma libélula, um elemento que simbolicamente está relacionado à quebra de ilusões e inauguração de novas fases. No canto direito, não à toa, um barquinho aparece tombado, esquecido – enquanto a figura se lança num voo lúdico. (arte)
Antônio Obá. Tocaia. Óleo sobre tela.
Nesta pintura Antonio Obá propõe um jogo dúbio para falar sobre uma condição de irreverência, de não se reverenciar a um histórico de exploração. O jogo é, aqui, representado por uma caça – a criança se doa para uma pomba branca que bica a ferida oferecida. Trata-se de um ato de sacrifício, mas, ao mesmo tempo, essa ferida pode ser uma isca, uma armadilha. “Quem é, aqui, caça e caçador?”, indaga o artista. A cena evidencia uma condição de sobrevivência: uma necessidade de burlar para garantir uma existência. Capoeira, por exemplo, é uma luta de resistência, uma forma de defesa forjada como uma dança. A ideia do sincretismo também representa essa estratégia de sobrevivência, pois os povo africanos que vieram escravizados para o Brasil usaram as imagens católicas como uma artimanha para relembrar seus orixás. (arte)
Antônio Obá. At the gates of paradise. 2020. Óleo sobre tela.
A obra cria uma menção ao extinto Paradise Park (Flórida, EUA), que, à época segregacionista foi considerado como um refúgio para o entretenimento da população negra. O curioso nesse dado é que o parque foi criado justamente para apartar negros de brancos e, no entanto, vira, segundo relatos da época, um espaço de liberdade e celebrações, tanto que às margens da conquista de direitos civis, sendo o parque desativado, muitos lamentaram a perda de um lugar que, a essas alturas, se tornara um símbolo nostálgico de resistência. No entanto, vive a lembrança, figurada nas duas mulheres (espectros?) que guardam as portas do Paraíso. Evidenciando ainda mais essa vigilância, um Quero-quero, pássaro muito comum no centro-oeste brasileiro, conhecido por sua bravura em guardar e proteger seu ninho, atacando os transeuntes mais desavisados. A pintura elástica, assim, uma narrativa que parte desse local estrangeiro, mas encontra raízes num território familiar ao artista que, apesar de buscar imagens da época do referido parque, ambiente o mesmo com o céu e as cores da vegetação de um cerrado que lhe é tão íntimo refúgio.
Antônio Obá. Angelus. Óleo sobre tela.
Para falar sobre uma relação ciclica de morte e vida, Obá retoma a imagem de um incêndio que aconteceu em Boston, quando duas crianças caíram de uma escada de incêndio, a primeira morreu, mas acabou salvando a vida da sobrinha que caiu em seguida, sobre ela, por amortecer a sua queda. No centro da tela, o artista faz sua versão da clássica Pietà, uma figura ampara outra recostada a uma árvore – elemento de renovação da vida. No lado direito da tela, ele pinta crianças voando como se tivessem saído de uma fogueira. O artista representa o fogo, aqui, para falar sobre “consumação e elevação da vida”. A chama e a fumaça simbolizam, portanto, a possibilidade de transcendência.
Antônio Obá. Banhistas N3 - Espreita. Óleo sobre tela.
Era 1964 quando Martin Luther King foi preso por tentar almoçar numa área segregada no restaurante do hotel Monson Motor Lodge, na Flórida. Poucos dias depois, em clima de pacifico protesto, ativistas negros e brancos invadiram o hotel e pularam na piscina. Para o gerente do hotel, James Brock, aquela cena no espaço exclusivo para brancos devia ser imediatamente interrompida. Ele não pensou duas vezes e pegou uma garrafa de ácido clorídrico, usado para limpar azulejos, e jogou na água para forçar a saída dos manifestantes.Os ativistas foram presos, mas a repercussão do protesto foi tão grande que, no dia seguinte, o Senado estadunidense aprovou a Lei dos Direitos Civis que acabou com a legalidade da segregação racial em locais públicos e privados. Esta é uma das muitas telas que Obá faz referência ao episódio. Aqui, o artista representa 3 figuras humanas e um crocodilo na água convivendo de uma forma aparentemente pacifica. As figuras humanas, no entanto, parecem estar a espera de um ataque: somente os olhos estão do lado de fora, enquanto se aproximam da presa sorrateiramente. Há, aqui novamente, uma situação de lazer e ludicidade, mas também uma situação de risco e caça. A rampa aparece como uma oferta de caminho para o espectador a entrar na piscina. (arte)
Antônio Obá. Variação sobre Sankofa – Quem toma as rédeas abre caminhos.
Óleo sobre tela.
Na obra Variação sobre Sankofa, Obá partiu de uma imagem dos anos 1950 para criar a cena desta mulher que parece contemplar o horizonte, no entardecer. Ela aparece com cordas na mão como se ela tivesse desfeito um laço, abrindo a passagem para um caminho que até então não tinha sido explorado. O nó vira rédeas, que ela toma e controla, guiando as pessoas que estão atrás dela. (arte).
Antonio Obá, “Figura adâmica Wuso owoti a nea aka no ye”, 2025.
Antônio Obá. Desdobramentos em Sankofa, 2021. Óleo sobre tela
(50 × 50 cm).
Antônio Obá. Instalação, detalhe da obra "Revoada". 2023.
Em Revoada, Antonio Obá desenvolveu um trabalho em diálogo com o edifício e a história do novo museu, que foi uma instituição de ensino construída nos anos 1950 e atribuída a Ramos de Azevedo, engenheiro e arquiteto responsável pelos projetos, entre outros, do Teatro Municipal e da própria Pinacoteca do Estado. Na instalação, mãos suspensas, moldadas com silicone nos corpos de crianças e jovens que frequentaram as oficinas na Ocupação 9 de Julho do MSTC e no ateliê da Pinacoteca Contemporânea, entre março e abril de 2023, e depois forjadas em gesso branco, evocam, segundo ele, “mãos livres em pleno voo; mãos – o próprio ideal de sustento e liberdade presentes no ofício ao qual se dedicam. Mãos antes acorrentadas, hoje quase sem peso ou pesar, mas cientes de todos os traumas, como um ex-voto.
A exposição “Finca-Pé: Estórias da Terra”, no CCBB Rio de Janeiro (@ccbbrj) investiga a trajetória e produção de Antônio Obá, destacando a simbologia de sua obra na relação entre memória, identidade e ancestralidade. A mostra inclui a instalação “Finca-pé” (2024), composta por 24 esculturas de pés em bronze, galhos e folhagens, evocando enraizamento e retorno à terra natal do artista brasiliense. Além disso, são apresentados 30 desenhos em grafite e carvão, que dialogam com as pinturas de Marcos Siqueira, conectando-se à paisagem e elementos naturais do cerrado (insta).
Principais Temas e Características da obra de Antônio Obá
Corpo e Ancestralidade: O corpo é central, explorando a negritude, o desejo e a vivência de experiências afro-brasileiras.
Religião e Sincretismo: Obá utiliza iconografia cristã e afro-brasileira (como orixás) para tensionar construções culturais, com obras que remetem a santos e rituais.
Crítica Social: Aborda temas como racismo, eugenia, violência e a construção da história nacional.
Obras e Exposições de Destaque
Revoada (2023): Exposição individual marcante na Pinacoteca de São Paulo, focada na memória e educação.
Crianças suspensas (2022): Obra que evoca a relação entre infância, sacrifício e resistência.
Strange Fruit (2018): Série que aborda a violência racial através de elementos poéticos.
Finca-Pé (2024): Esculturas em bronze e instalações focadas na relação com a terra e ancestralidade.
Com trabalhos em coleções de prestígio como a Tate Modern e a Fondazione Sandretto Re Rebaudengo, Obá é reconhecido internacionalmente por transformar memória e dor em um "exercício de liberdade".
Rafael Pereira (1986 - )
Rafael Pereira nasceu em 1986, em São Paulo, é um artista visual contemporâneo, autodidata, que se destaca por sua produção pictórica focada na valorização da negritude e da ancestralidade afro-brasileira. Sua obra frequentemente revisita gêneros clássicos da pintura ocidental, como o retrato, para subverter o apagamento histórico de corpos negros.
As principais características e Temas de suas obras são:
Identidade e Memória: O trabalho do artista é descrito como um exercício de "refazimento da memória", criando fisionomias que dialogam com o passado e imaginam futuros para a população negra.
Estética, temática e técnica: Utiliza predominantemente tinta a óleo sobre tela, mas também trabalha com bastão oleoso sobre papel preparado.
Sua produção é reconhecida pelo uso de cores vibrantes que definem a ambiência das cenas, muitas vezes inspiradas pela natureza e por figuras históricas ou místicas do universo negro.
A arte de Rafael Pereira exalta e ressignifica a ancestralidade afrodiaspórica que constitui parte majoritária da sociedade e da formação cultural brasileira. O papel do negro em todos os domínios da história e o estigma do preconceito.
Influências: Sua pesquisa envolve vivências em viagens pelo Brasil e uma conexão profunda com o cotidiano e a natureza.
Este artista brasileiro contemporâneo apresenta uma obra marcada pelo diálogo entre a pintura modernista e a valorização da ancestralidade afro-brasileira. Residente em Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo, o artista utiliza memórias afetivas e a pesquisa cromática para construir figuras que celebram a altivez da negritude.
O artista é representado pela Galeria Estação, em São Paulo, espaço conhecido por integrar artistas autodidatas e contemporâneos ao circuito artístico erudito.
Primeira Individual (2023): Intitulada Lapidar Imagens, a mostra apresentou 20 pinturas que exploravam o retrato e a figuração sob uma ótica de autoconhecimento e migrações.
Residência Artística (2025): Integrou o programa de residência no Sertão Negro Ateliê e Escola (https://www.instagram.com/reel/DH9qjF6typg/), em Goiânia, um importante polo de fomento à arte afro-diaspórica fundado pelo artista Dalton Paula.
Exposição Recente (2026): A mostra [A Cabeça de Zumbi](https://www.sp-arte.com/exposicoes/rafael-pereira-a-cabeca-de-zumbi) marcou sua segunda individual, aprofundando temas de resistência e ancestralidade por meio de séries inéditas como Nbimda.
Rafael Pereira (1986 -)
Rafael Pereira, óleo sobre tela, (foto: Joao-Liberato)
Santídio Pereira (1996-)
Santíido Pereira com matrizes de xilogravura
Nasceu em 1996 na cidade de Isaías Coelho, no Piauí, Santídio Pereira vive e trabalha em São Paulo. Estudou História da Arte com o crítico e curador Rodrigo Naves, e é graduado em Artes Visuais pela Fundação Armando Álvares Penteado, em São Paulo.
A trajetória de Santídio Pereira tem sido permeada pela experimentação e estudo constante sobre os preceitos artísticos, impulsionando um desejo de criação e inovação dos padrões pré-estabelecidos, tanto no aspecto formal, quanto conceitual das linguagens artísticas. Seu trabalho já foi exibido em instituições brasileiras como Fundação Iberê Camargo (Porto Alegre), Centro Cultural São Paulo, Paço das Artes, MuBE – Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia, e MAM – Museu de Arte Moderna de São Paulo (todos em São Paulo) em exposições de espaços e instituições internacionais como a Galería Xippas (Punta del Este, Uruguay), b[x] Gallery (Nova York, EUA), Bortolami Gallery (Nova York, EUA), Fondation Cartier pour l’Art Contemporain – Triennale di Milano (Milão, Itália) Fondation Cartier pour l’Art Contemporain (Paris, França), Power Station of Art (Xangai, China), dentre outros. Seu trabalho integra coleções importantes, como Pinacoteca do Estado de São Paulo (Brasil), Coleção Cisneros (EUA), Acervo Sesc de Artes (Brasil), Museu de Arte do Rio – MAR (Brasil) e Fondation Cartier pour l’Art Contemporain (França). Santídio Pereira também foi contemplado com o Prêmio Piza (2021, Paris, França), além de ter participado da AnnexB Residência Artística (2019, Nova York, EUA).(bolsadearte)
Graffiti
Diego Mouro (1988-)
Diego Mouro, seus graffitis enfatizam a memória, o afeto, a ancestralidade e a sensibilidade.
Diego Mouro nasceu em São Bernardo do Campo em 1988; é um artista autodidata, sua prática transita entre a pintura à óleo e o muralismo contemporâneo, investigando a formação e as estratégias de resistência da cultura afro-diaspórica no Brasil. Mobilizado pela dimensão espiritual das sensibilidades negras em seus vestígios, práticas e saberes rituais, Mouro já teve o trabalho exposto no Brasil, França, México e África do Sul. A gestualidade, em seu trabalho, opera como vetor brincante entre o pictórico e suas fronteiras: a passagem do tempo, as noções de envelhecimento, de perda, e também do que resiste a essa passagem, são atravessadas pelas pinceladas. Mouro também reivindica, como pessoa negra, o direito a não tratar apenas de sua negritude: ao criar a série sobre flores, tema bastante frequente na história da arte branca, o artista adentra a disputa pelo direito a uma subjetividade que não seja rotulada a partir de sua raça, mas que a atravesse e transcenda.
Diego Mouro. “É andar devagarinho”, 2024, óleo sobre tela, 100 × 140 cm
Diego Mouro.“sá Rainha”, 2024, óleo sobre tela, 100 × 140 cm.
Diego Mouro. “sá Rainha”, 2024, óleo sobre tela, 100 × 140 cm
Diego Mouro vive e trabalha em São Paulo, capital. Seu trabalho ressalta os corpos negros, desconstruindo a estrutura racista onde esses corpos são exotizados e hiperssexualizados. Para ele, é preciso normalizar o afeto entre homens negros, pela necessidade de um povo se fortalecer assim em qualquer tempo.
Diego Mouro. Obra sem título. Graffiti. Rua São Paulo, 249 - Centro, Belo Horizonte - MG, Brasil.
Diego Mouro. Murais.
No mural do CURA, Diego busca trocas afetuosas que vão compondo o trabalho. A começar pela escolha da foto a ser pintada, do fotógrafo Fabio Setti, por quem tem grande admiração. Outra ação nesse sentido foi a proposta que fez em suas redes sociais para riscar o esboço no prédio: pediu que seus seguidores enviassem nomes de homens pretos por quem tivessem afeto. Diego escreveu todos esses nomes no prédio antes de desenhar propriamente, uma forma de homenagem e honra das raízes.(arteforadomuseu)
3. Atividade Prática
Mural de Reexistências
Os alunos deverão criar uma composição visual (colagem ou desenho) que conecte um elemento da cultura afro-brasileira ao seu próprio cotidiano.
Materiais
Revistas, tintas, papéis coloridos e materiais recicláveis.
Objetivo
Aplicar o conceito de "materialidade" usando recursos não convencionais para expressar identidade.
4. Roda de Conversa e Encerramento
Exposição rápida das obras.
Debate sobre como a arte pode combater o silenciamento histórico da população negra no ambiente escolar.
Sugestão de Recurso
Utilizar o Acervo Digital do Museu Afro Brasil para mostrar imagens de alta qualidade das obras citadas.