quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

ARTE ABSTRATA

ARTE ABSTRATA
ABSTRAÇÃO ELEMENTOS DA LINGUAGEM



Abstração é o processo mental de isolar, destacar ou generalizar um conceito, forma ou propriedade de um objeto concreto ou um fenômeno, salientando apenas no que é relevante e desconsiderando o que é considerado características desnecessários. É a capacidade de mover-se do mundo real para as ideias abstratas, comum na filosofia, nas artes, na matemática, na música e na computação etc.

Arte abstrata, ou abstracionismo, é um estilo artístico moderno que não busca representar com fidelidade cenas, objetos ou pessoas da realidade exterior. Surgiu no início do século XX, utiliza formas, cores, linhas e texturas para criar uma composição independente de referências visuais concretas, priorizando a expressão de emoções e ideias.

O abstracionismo surgiu pela primeira vez no início do século XX, por volta de 1906-1907 com Hilma Af Klint, e se expandiu a partir de 1910-1912. O abstracionismo surgiu como uma ruptura com a forma de retratar o mundo físico, focando em formas, cores e linhas independentes. O russo Wassily Wassilyevich Kandinsky (1866-1944) é amplamente considerado um dos pioneiros, com sua primeira aquarela abstrata datada de 1910.


Pioneiros e Obras

Hilma af Klint
A artista sueca Hilma af Klint (26/10/1862 – 21/10/1944) produziu obras abstratas por volta de 1906, e posteriormente Wassily Wassilyevich Kandinsky é creditado como um dos principais pioneiros das pinturas não representacionais por volta de 1910-1912.


Hilma af Klint (26/10/1862 – 21/10/1944)

Contexto
A arte abstrata surgiu em um momento da história de intensas mudanças (pré-Primeira Guerra Mundial), reagindo contra a arte figurativa e acadêmica.

No início do século XX (por volta de 1906-1910) na Europa, fruto de uma ruptura radical com as tradições academicistas e a representação realista
Influenciada pelas vanguardas (cubismo, expressionismo e suprematismo), pela fotografia, que assumiu a função de registrar o real, e por mudanças sociais intensasa abstração focou na subjetividade, na espiritualidade e em elementos puros como cor, forma e linha, tendo Wassily Kandinsky como um dos precursores.








Obras de Hilma Af Klint.

Wassily Wassilyevich Kandinsky
Wassily Wassilyevich Kandinsky, nasceu em Moscou, 16/XII/1866 - Neuilly-sur-Seine, 13/XII/1944), foi um artista plástico russo, professor da Bauhaus e introdutor da abstração no campo das artes visuais. Apesar da origem russa, adquiriu a nacionalidade alemã em 1928 e a francesa em 1939. 
Lecionou arte e arquitetura na tradicional escola de design, Bauhaus, de 1922 até o fechamento desta, ordenado pelos nazistas em 1933. De lá, ele foi para a França, onde viveu até o fim da vida, tornando-se cidadão francês em 1939, produzindo grande parte de sua vasta obra.

Wassily Wassilyevich Kandinsky 
(16/XII/1866 - 13/XII/1944)


Um de seus primeiros trabalho. Munich-Schwabing with the Church of St. Ursula óleo sobre tela (1908).





Wassily Kandinsky. Drawing. 1929.


O contexto de surgimento da Arte Abstrata 

O surgimento da arte abstrata no início do século XX foi possibilitado por uma combinação de: ruptura com os padrões clássicos de representação, influências de vanguardas artísticas anteriores e uma mudança na mentalidade sobre a função da arte. O abstracionismo propôs a criação de uma linguagem visual independente da imitação da natureza, ressaltando as formas, cores, linhas e planos.

I. Ruptura com o Academicismo
Houve uma rejeição aos modelos renascentistas e à necessidade de a arte retratar fielmente a natureza ou a figura humana. 
O que foi o academicismo? O academicismo na arte foi um estilo e método de ensino formalizado pelas academias europeias (sécs. XVII-XIX), focado no rigor técnico, regras clássicas e temas elevados (pintura histórica, mitologias etc...). Caracterizado pelo realismo, composição equilibrada e idealização, opunha-se à liberdade criativa, valorizando o desenho, o estudo de mestres e o modelo vivo.

II. Influência da Fotografia no surgimento da arte abstrata
Com a popularização da fotografia, a pintura foi liberada da função de documentar o real (mimese) (papel que antes cabia a pintura), permitindo aos artistas explorar novas linguagens. Essa liberdade levou aos artistas a explorar o “invisível” ou o subjetivo e interior em vez do exterior.  

A fotografia foi inventada em 1826 pelo francês Joseph Nicéphore Niépce, que realizou o primeiro registro permanente conhecido, chamado “heliografia”. No entanto a popularização desta técnica só ocorreu a partir de 1839, com o anúncio do daguerreótipo por Louis Mandé Daguerre, considerado o marco oficial da invenção. A popularização da fotografia a partir de sua invenção e longo do século XIX, a pintura foi gradualmente liberada de sua função milenar de documentar o real, a mimese. Se antes a tela era o principal meio para registrar eventos, retratar personalidades ou representar a natureza, a câmera fotográfica assumiu esse papel com uma precisão e agilidade até então inimagináveis. Essa ruptura não foi apenas técnica, mas profundamente conceitual: ao perder o “monopólio” da representação do visível, os artistas foram impelidos a explorar novas linguagens, voltando-se para o que antes parecia intangível, o subjetivo, o espiritual, o invisível.
A fotografia, no entanto, não se limitou a substituir a pintura em suas funções documentais. Ela própria tornou-se uma ferramenta de exploração artística que expandiu os limites da percepção. Com os avanços das câmeras e dos processos químicos, o fotógrafo deixou de ser um mero operador técnico para se tornar um intérprete da realidade. Através de escolhas como enquadramentos inusitados, longas exposições, dupla exposição ou foco seletivo, a fotografia passou a produzir imagens que não apenas registravam o mundo, mas o transformavam.
Essa nova capacidade de “ver através da máquina” teve um impacto direto sobre os pintores que viriam a fundar a abstração. Podemos citar alguns exemplos marcantes dessa influência:

1. As séries de Claude Monet e as fotografias de paisagem. 
Embora Monet seja frequentemente associado ao Impressionismo, suas séries como “Nymphéas” ou a “Catedral de Rouen” mostram uma dissolução da forma que beira a abstração. A popularidade das fotografias de paisagem e estudos de luz na época incentivou Monet a não buscar o retrato fiel do motivo, mas sim a captar as variações atmosféricas e de luminosidade, fragmentando a imagem em pinceladas que existem quase como entidades autônomas na tela.

2. Os fotogramas de Man Ray e a “rayografia”
Man Rey foi um artista ligado ao Dadaísmo e à fotografia. Esse artista criou imagens abstratas sem usar câmera. Colocava objetos diretamente sobre o papel fotossensível e os expunha à luz. O resultado era uma silhueta fantasmagórica, uma “escrita de luz” que revelava as formas sem descrevê-las realisticamente. Essa técnica influenciou pintores ao demonstrar que a arte poderia nascer do contato direto e abstrato com a matéria, e não da imitação do mundo.

3. As experiências de movimento de Giacomo Balla e a cronofotografia
O fotógrafo Eadweard Muybridge e os estudos cronofotográficos de Étienne-Jules Marey, que decompunham o movimento em sequências, tiveram um impacto profundo nos futuristas. O pintor italiano Giacomo Balla, em obras como “Dinamismo de um cão na coleira” (1912), tentou sintetizar na tela essa sobreposição de instantes capturados pela fotografia. Ao multiplicar as patas do animal e os pés da mulher, Balla criou uma imagem que não existe no olho humano, mas é gerada pela lógica da máquina, aproximando a pintura de uma representação abstrata do tempo e do movimento.

4. As ampliações de detalhes da natureza de Karl Blossfeldt
Karol Blossfeldt, fotógrafo alemão que, no início do século XX, fotografou plantas e sementes em ampliações extremas, revelando estruturas geométricas e arquitetônicas que o olho nu não percebia. Essas imagens, publicadas em livros como “Formas Originais da Arte”, serviram de inspiração para artistas abstratos, mostrando que a própria natureza, quando vista fora de escala, já continha padrões abstratos e designs puramente formais. Portanto, embora a fotografia tenha uma natureza indexical, um registro da luz que efetivamente tocou objetos reais, ela ensinou os artistas a desconfiarem da aparência superficial do mundo. Ao mostrar que a realidade podia ser fragmentada, ampliada, congelada ou distorcida, a fotografia deu aos pintores a coragem necessária para abandonar de vez a figuração. A arte não precisava mais “registrar” a época; ela podia, finalmente, explorar o interior do artista e a própria essência das formas, cores e ritmos, pavimentando o caminho para a abstração.

III. Evolução das Vanguardas Europeias
Movimentos como o Fauvismo, suprematismo, cubismo, orfismo, e o Expressionismo trouxeram o uso expressivo e subjetivo da cor em detrimento da representação mimético do mundo. Artistas como Cézanne, Van Gogh e Gauguin começaram a valorizar mais a cor e a forma do que a representação fiel, abrindo caminho para a abstração. O cubismo, ao fragmentar objetos e apresentar a figura sob diferentes perspectivas no mesmo plano, e o expressionismo, com o destaque na emoção, foram passos fundamentais para a desconstrução da figura.

IV. Influência da Música e movimentos teosóficos
Uma busca por uma espiritualidade e o exemplo da Música. Wassily Kandinsky, um dos precursores, percebeu que a arte poderia agir como a música instrumental: despertar emoções sem precisar representar nada concreto. Ao ver uma de suas próprias pinturas de cabeça para baixo, ele percebeu que a forma e a cor podiam ter força por si mesmas. Assim, a arte abstrata concentrou-se na busca pela espiritualidade e subjetividade em meio a um mundo em rápida transformação. 
A arte abstrata, então, buscou comunicar emoções, o inconsciente e o mundo psicológico interior, recebendo também influência dos movimentos teosóficos e pela busca da essência. (movimentos teosóficos. Os movimentos teosóficos constituem correntes de pensamento filosófico, esotérico e espiritualista que surgiram no final do século XIX, tendo como principal objetivo a busca pela “sabedoria divina” (do grego, theos, θεός, deus, e sophia, Σοφία, sabedoria). Eles combinam elementos do misticismo oriental (hinduísmo e budismo), esoterismo ocidental (neoplatonismo, gnosticismo) e filosofia, com o propósito de explorar os mistérios da natureza e os poderes ocultos do ser humano. Artistas como Hilma af Klint, Wassily Kandinsky e Piet Mondrian buscavam, através da abstração, conectar-se com planos espirituais ou ordens geométricas universais, distanciando-se do mundo material. 

V. Reação ao Racionalismo Industrial
O abstracionismo informal surgiu como uma reação ao tecnicismo e à precisão da civilização tecnológica industrial, buscando no interior do artista (subconsciente) uma nova linguagem poética.

VI. Novas Descobertas Científicas e Psicológicas
O estudo da psique humana (Sigmund Freud) e a quebra de paradigmas na física (como a teoria da relatividade Albert Einstein) influenciaram artistas a pensar que a realidade não é apenas o que vemos, permitindo interpretações não figurativas da vida e do ser humano.

VII. A “Arte pela Arte”
O declínio do mecenato tradicional permitiu que os artistas enfatizassem a expressão individual pura, em vez de encomendas utilitárias ou religiosas.
O marco inicial é geralmente atribuído à “Primeira Aquarela Abstrata” de Wassily Kandinsky (1910). Outros pioneiros incluem Piet Mondrian (abstração geométrica) e Kazimir Malevich.

Principais Vertentes do abstracionismo 

Dividiu-se inicialmente entre o abstracionismo lírico/expressivo (focado em emoções, com Wassily Kandinsky) e o abstracionismo geométrico (focado na matemática e razão, com Piet Mondrian e Kazimir Malevich).

A arte abstrata consolidou-se, portanto, como uma forma de libertar a arte do “consumo fácil” de imagens realistas, propondo uma experiência sensorial e reflexiva.


Arte abstrata ou abstracionismo no Brasil

O movimento ganhou força trinta anos mais tarde, com marcos na década de 1940 e a primeira Bienal de São Paulo em 1951.

A arte abstrata iniciou no Brasil no final da década de 1940, consolidando-se no início dos anos 1950, com o rompimento do figurativismo acadêmico. Experiências pioneiras ocorreram por volta de 1948/1949, mas foi a I Bienal de São Paulo (1951) que impulsionou o movimento, destacando artistas como Abraham Palatnik, Manabu Mabe e Luiz Sacilotto. 

Principais pontos sobre o início da abstração brasileira

Pioneirismo (década de 1940)
Artistas como Roberto de La Rocque (1948) e experiências isoladas de Ruy Meira e Cícero Dias antecederam a consagração do estilo.

O Marco de 1951
A I Bienal de São Paulo foi crucial para apresentar o concretismo e a arte abstrata ao público, com forte influência da geometria.

Grupos e Movimentos
O movimento concretista ganhou força com o grupo Ruptura (São Paulo) e o Frente (Rio de Janeiro), surgidos logo após a Bienal, focando na abstração geométrica e, posteriormente, no neoconcretismo.

Grandes Nomes
Além dos pioneiros, destacaram-se Lygia Clark, Hélio Oiticica, Geraldo de Barros e Tomie Ohtake























Adendo


Ícone, índice e símbolo são tipos de signos na semiótica, diferenciados pela relação com seu objeto: o ícone tem semelhança (foto), o índice tem conexão física ou causal (fumaça indica fogo), e o símbolo tem relação arbitrária e culturalmente aprendida (palavras, bandeiras). Um signo é qualquer coisa que representa outra, mas a forma dessa representação muda entre essas categorias.

Ícone (Semelhança)
Relação: 
Similaridade visual ou física com o objeto representado.
Exemplos: 
Uma fotografia, um desenho de uma árvore, um emoji de rosto, um ícone de microfone.

Índice (Indício/Causalidade)
Relação:
Conexão direta, existencial, de causa e efeito ou contiguidade (estar perto).
Exemplos:
Pegadas na areia (indicam alguém passou), fumaça (indica fogo), sintomas de uma doença, uma seta apontando.

Símbolo (Convenção/Arbitrariedade)
Relação:
Arbitrária, baseada em acordo social, cultural ou aprendizado, sem conexão natural com o objeto.
Exemplos:
Palavras, letras do alfabeto, números, a cruz cristã, o "homem verde" no semáforo, o símbolo de "sem áudio".

Resumo das Diferenças
Ícone: "Parece com".
Índice: "Aponta para" ou "é um efeito de".
Símbolo: "Significa por convenção".


Mimese
Mimese (do grego μίμησις, mímesis, imitação) é um conceito filosófico e artístico que define a representação, imitação ou reprodução da natureza, ações humanas e da realidade pela arte. Originado na Grécia Antiga, o termo aborda como artistas (poetas, pintores, atores) recriam o mundo, não apenas copiando, mas interpretando a realidade. Aristóteles (A Poética): Via a mimese como uma forma de representação das ações humanas, essencial para o aprendizado e prazer estético. Não é uma réplica exata, mas uma recriação artística que pode ser superior à realidade factual.
Platão: Considerava a mimese como "cópia da cópia", uma imitação imperfeita dos objetos sensíveis, que por sua vez já seriam cópias das Ideias perfeitas, distanciando o homem da verdade.
Aplicação: 
Aplica-se às artes visuais (pintura), literatura, teatro e comportamento, onde a "mímesis poética" é a base da narrativa. O termo também pode se referir ao mimetismo (biológico ou comportamental), como na imitação de sons, gestos ou vozes.

A mimese (do grego mímesis) é um conceito fundamental na estética e teoria da arte, frequentemente traduzido como "imitação", mas com nuances que variam entre a reprodução fiel (imitação) e o desejo de superação (emulação). Embora Platão e Aristóteles tenham explorado esse conceito, os significados evoluíram ao longo da história da arte e da literatura.

1. Mimese como Imitação (Imitatio)
No sentido de imitação, a mimese prioriza a representação, reprodução ou verossimilhança de um modelo, seja ele a natureza, um objeto ou uma ação humana. (Verossimilhança: atributo daquilo que parece intuitivamente verdadeiro, isto é, o que é atribuído a uma realidade portadora de uma aparência ou de uma probabilidade de verdade, fidedignidade).
 
Significado: 
É a tentativa de criar uma réplica ou uma representação de algo que já existe no mundo real ou na mente. Não se trata de uma cópia idêntica, mas de uma "cópia criativa" que busca captar a essência da coisa.

Platão 
Platão via a mimese como uma cópia da cópia (cópia da realidade sensível, que já é cópia do mundo das ideias), tornando a arte um afastamento da verdade e, portanto, inferior ao conhecimento do mundo das ideias.

Aristóteles
Aristóteles via de forma mais positiva, como uma "imitação da natureza" ou das ações humanas que traz conhecimento e prazer, permitindo que o artista represente o "possível ou provável" em vez de apenas o real.

Objetivo: 
Captar a essência, a forma ou a beleza do modelo.


2. Mimese como Emulação (Aemulatio)
Este sentido é mais ativo e competitivo. A mimese como emulação refere-se ao ato de imitar um mestre ou um modelo exemplar com o objetivo de superá-lo.

Significado 
É o "desejo de apreender" e seguir um modelo nobre, não para replicá-lo exatamente, mas para absorver suas qualidades e criar algo novo e, se possível, superior (uma "imitação criativa" ou "rivalidade").

Contexto 
Comum na tradição humanista e renascentista, onde artistas e escritores tentavam imitar os clássicos gregos e romanos, mas com a intenção de superá-los em técnica e expressão (aemulatio).

Objetivo 
Aprender com o mestre, honrá-lo, e ao mesmo tempo estabelecer a sua própria excelência através da superação.


2. FOTOGRAFIA

A fotografia não mimetiza o real de forma passiva ou absoluta; em vez disso, ela é uma representação interpretada da realidade, construída através de escolhas técnicas e subjetivas. Embora a fotografia tenha uma natureza indexical (um registro de luz que passou por objetos reais), ela transforma o real em imagem.

Aqui estão os pontos principais sobre a relação entre fotografia e realidade:

1. Representação, Não a Realidade em SiInterpretação: 
A fotografia é um ponto de vista, um recorte espacial e temporal que o fotógrafo escolhe, não a cena real completa.
Manipulação: Desde o enquadramento, ângulo, exposição e foco, até a edição final, a imagem é moldada para transmitir uma mensagem específica, podendo distorcer a realidade.
O conceito de "Fazer": Como Ansel Adams disse, "tu não tiras fotografias, tu fazes fotografias" — indicando um processo criativo e não meramente documental.

2. A Ilusão de RealismoFotorrealismo: 
A fotografia pode produzir imagens tão detalhadas que parecem a realidade, mas isso é uma técnica de representação, não a realidade.
Natureza Codificada: No século XX, a fotografia passou a ser vista menos como uma transparência da realidade e mais como uma transformação "eminentemente codificada" técnica e culturalmente.
A "Verdade" Questionada: Mesmo fotos documentais ou de notícias podem carregar manipulações deliberadas ou interpretações, desafiando a noção de verdade absoluta.

3. Fotografia vs. EspelhoEspelho: 
Mostra uma versão invertida da realidade, que nosso cérebro reconhece como habitual.
Câmera: Mostra a aparência sem inversão, frequentemente causando estranhamento por revelar detalhes que ignoramos no dia a dia, sendo uma "outra" visão do real.

4. A Fotografia como ConstruçãoCriação de Realidade: 
Algumas perspectivas argumentam que a fotografia não captura, mas cria uma realidade própria, especialmente na era digital e com o uso de inteligência artificial.
Subjetividade: O fotógrafo decide o que incluir e o que excluir, tornando a foto um testemunho da visão do autor tanto quanto do objeto.
Em resumo, a fotografia é uma ferramenta poderosa que navega entre a realidade e a ficção, servindo como registro, mas sempre filtrada pelo olhar do fotógrafo e pelas limitações da câmera.
























































quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

DESENHO

DESENHO 9º ANO
2026

O desenho é a arte e a técnica de representar formas, ideias e emoções por meio de traços, linhas, pontos, sombreamento (luz e sombra) e ilusão de volume, geralmente sobre uma superfície bidimensional (2D), utilizando-se grafite, carvão, lápis sangüínea, pastel oleoso ou seco, nanquim, tinha e pincel. 


Alberto Giacometti. Maçãs. Desenho, 1949.


Elementos da linguagem visual 

Na arte não existe certo ou errado, mas sim maneiras mais claras e menos claras de passar uma informação (sentimento). 

Ponto
Representação de forma, sua distribuição cria a ilusão de luz e sombra e volume e por isso a forma. 

Linha
Sua distribuição também é usada para representação de forma 

Forma
A forma é sugerida pela disposição de pontos e linhas no plano.
A partir do ponto, linha e forma podemos criar imagens. 

Cor/Tom

Textura

Luz e sombra (que nos dá a ilusão do volume)

Cor e tom
Cor e tom apresentam diferenças, visto que o primeiro conceito diz respeito ao matiz, ou seja, sua distinção em comparação às demais cores a partir da presença e mistura de outras cores em sua composição, já o tom da cor é relativo à intensidade, azul-claro ou escuro, por exemplo.

Diferença entre cor e tom
Assim, o matiz, uma das propriedades das cores, sendo as outras a saturação e a luminosidade, torna uma cor única, visto que é possível para a maioria das pessoas distinguir o verde do roxo, no entanto, os tons tornam as cores pastéis ou mais densas, dependendo da quantidade de luz ou falta dela.

A diferença entre cor e tom é, assim, o conceito, a definição, visto que enquanto as cores são únicas, sejam elas primárias, secundárias ou terciárias, os tons podem ser diversos para diferenciar essas cores.

A cor atua tanto como um processo criativo/preliminar (esboço) quanto como uma obra finalizada, sendo essencial na comunicação de ideias e conceitos (propaganda e literatura científica: ilustração e gráficos), comunicação visual, arte, engenharia e arquitetura.


EXERCÍCIOS 

1) CONSTRUINDO A FORMA COM LINHAS











Al. Kober


EXERCÍCIO COM LINHAS 

1) Desenho de objetos com linhas: usando somente lápis 6B
2) Desenho de objetos com linhas: usando giz pastel oleoso. Monocromático.
3) Desenho de objetos com linhas: usando giz pastel oleoso; respeitando as cores dos objetos.
2) Desenho de objetos com linhas: usando giz pastel oleoso. Pintando as áreas. Observe a luz as nuances de cores e tom, a sobra e a luz. (12/Fev/2026).
















quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

ARTE AFRO-BRASILEIRA

ARTE AFRO-BRASILEIRA
9° ANO 
(2026)


Artes Visuais

Patrimônio cultural e matrizes estéticas afro-brasileiras

Duração sugerida: 6 aulas 


1. Introdução: O que é Arte Afro-Brasileira?

A Arte Afro-Brasileira é o conjunto de manifestações artísticas produzidas no Brasil que têm origem, influência ou diálogo direto com as culturas africanas trazidas pelos povos negros escravizados e por seus descendentes
Ela se expressa nas artes visuais, na música, na dança, na religiosidade, na oralidade e nas formas de organização simbólica da vida cotidiana.

Sem título (série "Composição"), de Luiz 83, 2017/2018. 
Foto: Cortesia artista. (1)

Assim, nossa investigação deve focar na valorização cultural e no combate ao racismo, abordando a influência africana na identidade brasileira. Temas centrais incluem o sincretismo, a resistência (capoeira/maracatu) e artistas como Mestre Didi, utilizando grafismos, produção de desenhos, pinturas, têxteis e máscaras com materiais recicláveis.

Essa arte não é apenas estética: ela é também memória, resistência, identidade e afirmação cultural, sendo parte fundamental do patrimônio cultural brasileiro.

Algumas informações para reflexão

Muitos de nós desconhecemos por completos palavras como yorubá, jeje, fon, bantu, e sem saber somos herdeiros das culturas desses povos, que foram trazidos para o Brasil nos porões dos navios negreiros e hoje integram a nossa cultura brasileira.

Os primeiros africanos escravizados chegaram ao Brasil no início da colonização portuguesa, estimando-se que os primeiros navios desembarcaram entre 1531 e 1539, acompanhando o início da produção açucareira, com registros específicos mencionando a expedição de Martim Afonso de Souza em 1530. 

O tráfico intensificou-se a partir de 1550, consolidando-se como principal mão de obra.

Início do Tráfico: Embora a escravização de indígenas tenha ocorrido primeiro, a introdução de africanos escravizados começou cedo (décadas de 1530-1550) para suprir a demanda nos engenhos de cana-de-açúcar, principalmente no Nordeste.

Contexto: Portugal, com pequena população, recorreu à escravização africana para viabilizar a exploração colonial, transformando o Brasil no maior mercado de escravizados das Américas.

Duração: O regime escravagista durou cerca de 350 anos, terminando apenas com a Lei Áurea em 1888.

A maioria dos escravizados veio inicialmente da região da Guiné e, posteriormente, de Angola, Congo e do Golfo de Benin.


2. Patrimônio Cultural Afro-Brasileiro

O patrimônio cultural é tudo aquilo que um povo reconhece como valioso para sua história, identidade e continuidade. Ele pode ser:

Patrimônio material

Esculturas, máscaras, tecidos
Instrumentos musicais (atabaques, berimbaus)
Arquitetura (terreiros de candomblé)
Objetos rituais e artísticos

Patrimônio imaterial

Festas populares (Congado, Maracatu)
Religiosidade afro-brasileira (Candomblé, Umbanda)
Saberes tradicionais
Oralidade, cantos, mitos e símbolos

A arte afro-brasileira preserva e transmite esse patrimônio, conectando passado, presente e futuro.


3. Matrizes Estéticas e Culturais Afro-Brasileiras

As matrizes culturais africanas que influenciaram o Brasil vêm principalmente das regiões da África Ocidental e Centro-Ocidental, como:

Principais Povos e Regiões de Origem

Povos Bantos 
Originários da costa centro-ocidental (Angola, Congo) e da costa oriental (Moçambique). Eram a maioria, trazendo grande influência cultural e linguística.

Povos Sudaneses (África Ocidental)
Incluíam iorubás (nagôs), jejes, haussás e tapas, vindos da Costa da Mina (atuais Gana, Togo, Benim, Nigéria).

Outras Origens
Povos da Guiné, Namíbia e Sudão também foram registrados. 

Principais rotas do tráfico negreiro para o Brasil (terreirodegrios).

Retratos de negros e negras em Pernambuco, por volta de 1870 


Características estéticas frequentes:

Valorização do corpo como suporte artístico

Uso simbólico de cores (branco, vermelho, preto, azul)

Geometrização e estilização das formas

Relação entre arte, espiritualidade e cotidiano

Presença de símbolos ligados à natureza, ancestrais e divindades (orixás)


4. Cultura Afro-Brasileira

Características e importância

Resistência
A capoeira, por exemplo, nasceu como forma de luta e resistência à escravidão, sendo hoje Patrimônio Imaterial da Humanidade.

Identidade
Fundamental na construção da identidade brasileira, valorizando a cultura negra e promovendo a diversidade.

Crítica social
Utiliza a arte como ferramenta de denúncia, questionando o racismo, a violência e a hegemonia eurocêntrica, propondo novas narrativas.

Conexão com o passado
Reconecta com a ancestralidade africana, usando símbolos como o Sankofa (conhecimento do passado para o futuro).


A cultura afro-brasileira está presente em diversos aspectos do nosso dia a dia, como:

Música (samba, afoxé, maracatu)

Dança (capoeira, danças rituais)

Linguagem e expressões populares

Religiosidade

Artes visuais

A arte funciona como um meio de resistência cultural, especialmente durante e após o período da escravidão, quando as populações negras tiveram que preservar suas tradições de forma simbólica e criativa.


5. Produção Material Afro-Brasileira

A produção artística afro-brasileira inclui:

Esculturas em madeira e pedra
Cerâmicas e objetos rituais
Pinturas contemporâneas
Arte têxtil
Máscaras e adornos

Esses objetos muitas vezes têm função simbólica, espiritual e social, indo além do simples valor decorativo.


6. Artistas Africanos e Afro-Brasileiros

Artistas afro-brasileiros em destaque

Heitor dos Prazeres: Produz pinturas do cotidiano negro e do samba

Abdias Nascimento: Trabalha com arte, política e identidade negra

Rubem Valentim: Usa pintura em tela com símbolos afro-religiosos em linguagem geométrica

Rosana Paulino: Fotografia para investigar a memória, corpo negro e história

Emanoel Araújo: Produz esculturas, curadoria e patrimônio afro-brasileiro

Antonio Obá: Mescla o sagrado e o profano para discutir racismo religioso e violência contra o corpo negro.

Arjan Martins: Usa mapas e rotas do Atlântico como metáforas da diáspora africana.
 
Maxwell Alexandre: Aborda a vida e as questões sociais da periferia.

Campos da arte afrobrasileira
Artesanato, moda, pintura, escultura, com artistas como Antonio Obá, Arjan Martins, Jaime Lauriano, Maxwell Alexandre, Paulo Nazareth, Renata Felinto, que questionam o apagamento histórico e a representação do corpo negro.


Artistas africanos contemporâneos:

El Anatsui (Gana/Nigéria)
Esculturas com materiais reciclados

Yinka Shonibare
Identidade, colonialismo e cultura híbrida


7. Análise e Leitura de Imagens

Para analisar uma obra afro-brasileira, os alunos podem observar:

Quais cores predominam?

Que símbolos aparecem?

Há relação com religião, corpo ou ancestralidade?

Que sentimentos a obra transmite?

O material usado tem significado?

Importante: entender que a leitura da imagem envolve contexto cultural, histórico e simbólico.


8. Proposta de Criação Artística

Atividade prática

Tema: Identidade, ancestralidade ou cultura afro-brasileira

Os alunos poderão criar:

Um desenho simbólico

Uma colagem inspirada em padrões africanos

Uma pintura com cores simbólicas

Uma máscara estilizada (em papelão ou papel)


9. Técnica Artística (sugestões)

Colagem com revistas e papéis coloridos

Desenho com carvão, grafite e giz pastel oleoso

Pintura com guache ou tinta acrílica

Estamparia simples com carimbos feitos de EVA ou batata

Uso de formas geométricas e símbolos


MÁSCARAS

As máscaras africanas, fundamentais para a identidade cultural afro-brasileira, representam ancestralidade, espiritualidade e proteção, sendo usadas em cerimônias de iorubás como o Odun Egungun. 

Os principais povos africanos cujas tradições de máscaras influenciaram o Brasil, principalmente através das religiões de matriz africana (Candomblé, Xangô) e expressões culturais, são os Iorubás (Nigéria/Benim), com as máscaras Guelede e Egungun. Outras influências incluem povos de Angola, Gabão e Congo, cujos ritos refletem ancestrais. 
Iorubá (Nigéria/Benim): Conhecidos pelas máscaras Gueledé (homenagem ao poder feminino e fertilidade) e Egungun (representação dos antepassados), essenciais na cultura brasileira de matriz iorubana.
Punu (Gabão): Produzem máscaras brancas (Okuyi) com caolin (argila), representando ancestrais femininos.
Baga (Guiné): Conhecidos pelas máscaras D'mba (Nimba), representações da fertilidade.
Chokwe (Angola): Produzem máscaras Puo, focadas em fertilidade e símbolos sociais.
Maconde (Moçambique): Conhecidos pela máscara Mapiko, usada em rituais de iniciação. 
Essas máscaras chegam ao Brasil não apenas como arte, mas como objetos rituais que representam espíritos, antepassados e valores comunitários, frequentemente incorporando marcas de escarificação e tranças características de seus povos de origem. 

Confeccionadas tradicionalmente em madeira, essas peças simbolizam a ligação com antepassados, sendo integradas a trajes que cobrem o corpo em danças rituais.
 
Significado e Função 
Muito mais do que objetos decorativos, as máscaras africanas funcionam como instrumentos espirituais em rituais de colheita, fertilidade, iniciação e funerais, mediando a comunicação entre humanos e espíritos.

Presença e Acervo
O Museu Afro Brasil, localizado em São Paulo, possui um vasto acervo que demonstra a diversidade dessas expressões, incluindo peças de diversas etnias.

Influência na Arte Brasileira
A estética das máscaras africanas, com formas geométricas e linhas marcantes, influencia artistas brasileiros e inspira a valorização da herança cultural africana no país.

Conexão com a Religião
No contexto brasileiro, o uso de máscaras é fortemente associado à religiosidade de matriz africana, onde a dança, o som e o transe compõem o ambiente ritualístico.

Confecção
Tradicionalmente produzidas por iniciados, as máscaras podem incluir materiais como madeira, cerâmica, marfim, couro e metais, conforme descrito em YouTube e Toda Matéria. 

À esquerda, máscara do povo Grebo (Costa do Marfim). 
À direita, máscara Punu (Gabão) (2).

À esquerda, máscara do povo Bwa. À direita, máscara da etnia Senufo (2).

Da esquerda para a direita: máscara Fang, do Gabão, Guiné e República dos Camarões; máscara Bwa, de Burkina Faso; máscara Senufo, da Costa do Marfim , Mali e Burkina Faso. (ensinarhistoria)

Máscaras africanas diversas (2).

Máscara 1 e 2: Pwo Mwana (“mulher jovem”) do povo Chokwe, de Angola e República Democrática do Congo. Máscara 3 e 4: do povo Kuba, República Democrática do Congo (Domingues)


TÊXTEIS

Os têxteis afro-brasileiros representam uma fusão de técnicas, cores e significados ancestrais africanos com a identidade brasileira. Eles não são apenas tecidos, mas "arquivos vivos" que perpetuam a cultura de resistência, identidade e a religiosidade de matriz africana, especialmente através de estampas vibrantes, algodão e tecelagem manual.
Aqui estão os principais aspectos dos têxteis afro-brasileiros:

1. Pano da Costa (Alaká) Significado
É uma das indumentárias mais importantes, com forte ligação com as religiões de matriz africana (Candomblé e Umbanda).
Origem e Função: Originalmente da África Ocidental, era usado por mulheres. No Brasil, tornou-se um símbolo de status social e sacerdotisa dentro dos terreiros.
Confecção: Tradicionalmente feito em tear manual, com listras e fios de algodão, o pano da costa é uma peça de resistência cultural e técnica artesanal.

2. Tecidos e Estampas PrincipaisWax Print (Tecidos de Cera)
Tecidos coloridos e estampados que se popularizaram na moda africana e afro-brasileira, muitas vezes com padrões geométricos que contam histórias ou representam provérbios.

Kente: Tecido tradicional dos povos Ashanti (Gana), conhecido por ser feito de tiras estreitas costuradas juntas, criando padrões geométricos vibrantes.
Adinkra: Estampas feitas através de carimbos artesanais com símbolos que representam atitudes, provérbios ou provérbios ancestrais.
Algodão Branco: Muito utilizado em roupas rituais de orixás, simbolizando pureza e paz, especialmente no Candomblé.

3. Características e EstiloCores Vibrantes
Uso intenso de cores quentes que refletem a tradição africana e energia.
Materiais Naturais: Algodão, linho e rendas são preferidos, valorizando o toque leve e a origem natural.

Geometria: Padrões complexos e repetitivos que trazem um forte apelo visual e cultural.
Moda Afro-brasileira: Estilistas contemporâneos como Mônica Anjos, Goya Lopes, Negrif e Isaac Silva incorporam esses elementos para criar uma moda que empodera e celebra a ancestralidade.

4. Usos e Contextos Vestuário Ritualístico
Roupas de santo, turbantes (torços) e panos de ombro no candomblé/umbanda.
Moda Quilombola e Afro-urbana: Peças de uso diário, valorizando a identidade negra, o empoderamento e a sustentabilidade, comum em tecidos de algodão.

Decoração: Cestos, vasos e tecidos de decoração que incorporam palha, madeira e estampas africanas para criar ambientes com identidade.
Os têxteis afro-brasileiros funcionam como uma ferramenta de resistência, desafiando estereótipos e mantendo viva a memória de diferentes etnias africanas que influenciaram a cultura brasileira.






(Google imagens)

PINTURA

Ao longo da história da sociedade brasileira, a contribuição dos artistas negros foi negligenciada, onde omitiram nossas heranças artísticas. A arte afro-brasileira se potencializou e se firmou a partir da criticidade social, bem como a percepção de mundo e de pertencimento, destacando a criatividade e técnica do negro. É possível entender a arte afro-brasileira a partir da representatividade e expressividade em um campo de questões sociais, delineada pelas especificidades da cultura brasileira. A pesquisa faz uma reflexão essencial a partir da importância da arte afro-brasileira.

Pintura Afro-Brasileira: Expressões de Identidade, Memória e Resistência

A pintura afro-brasileira constitui um campo artístico fundamental para compreender a formação cultural do Brasil. Mais do que um estilo ou escola, ela representa um conjunto de produções que articulam tradições visuais de matriz africana com as experiências históricas e sociais da população negra no país, criando uma linguagem própria que desafia cânones eurocêntricos.

Contexto Histórico e Características

Embora a presença negra na arte brasileira remonte ao período colonial, muitas vezes relegada à condição de tema ou de mão de obra anônima (como nos entalhes e pinturas sacras), a consolidação de uma pintura afro-brasileira com autoria reconhecida ganha força no século XX. Suas características frequentemente incluem:

A reinterpretação de símbolos e cosmologias de origens africanas (iorubá, banto, jeje, entre outras).
A denúncia social e política do racismo e das desigualdades.
A celebração da cultura negra, seus ritos, festividades e personagens históricos.
A exploração da figura humana negra como protagonista, com toda sua subjetividade.
O uso de cores vibrantes e padrões que dialogam com texturas e ritmos.

Artistas e Obras Históricas (Séculos XIX e XX)

Antônio Rafael Pinto Bandeira (c. 1863-1896)
Pouco conhecido, é considerado um dos primeiros pintores negros de formação acadêmica no Brasil. Sua obra, de temática diversa, enfrentou as barreiras do racismo na Academia Imperial de Belas Artes.

Emmanuel Zamor (1840-1919)
Pintor e professor nascido no Rio de Janeiro, de ascendência africana. Estudou na Academia Imperial e posteriormente em Paris. Suas obras, como Paisagem com Rio e Árvores, mostram domínio da técnica acadêmica, ainda que sua trajetória tenha sido obscurecida pela historiografia tradicional.

Antônio Obá (c. 1880-1950)
Artista popular mineiro, autodidata, conhecido por seus ex-votos e pinturas religiosas que mesclam influências do barroco mineiro com representações de figuras negras em cenas sacras.

Heitor dos Prazeres (1898-1966)
Fundamental na transição entre a arte popular e a erudita. Pintor e sambista carioca, suas obras são celebrações da vida urbana negra. Em pinturas como Família no Morro (1957) e Roda de Samba (1960), retrata com cores planas e perspectiva simplificada o cotidiano, a música e a alegria das comunidades cariocas.

Ronaldo Rêgo (1930-2013)
Artista baiano que dedicou sua obra à representação dos orixás e dos rituais do candomblé, como na série Orixás, utilizando cores intensas e formas estilizadas para traduzir a força das divindades.

Gerações Contemporâneas (Final do Século XX e Século XXI)

A partir dos anos 1970 e 1980, com o Movimento Negro e a busca por uma "negritude" brasileira, a pintura ganha novos contornos.

Eustáquio Neves (1955-)
Artista mineiro que utiliza fotografia, mas cuja produção pictórica e intervenções em suportes diversos trabalham com a memória da diáspora e a ancestralidade. Sua série Filtro de Barro explora questões identitárias através de procedimentos químicos que "queimam" a imagem, aludindo a violências históricas.

Rubem Valentim (1922-1991)
Embora baiano, sua obra é um marco para a arte construtiva afro-brasileira. Desenvolveu um alfabeto plástico de símbolos derivados de ferramentas rituais do candomblé (oxés, ogós, símbolos gráficos dos orixás). Suas pinturas, como Emblema Logotipo Poético 1 (1975), são composições geométricas rigorosas em cores simbólicas (branco, vermelho, preto), elevando a cosmovisão afro-brasileira à condição de linguagem universal.

Mônica Ventura (1965-)
Pintora e ilustradora paulista, conhecida por retratar com sensibilidade e poder a mulher negra. Suas figuras, muitas vezes envoltas em padrões e cores quentes, transmitem dignidade e introspecção, como na série Mulheres de Axé.

Arjan Martins (1960-)
Carioca, sua pintura investiga as rotas transatlânticas, a cartografia colonial e a presença negra no mundo. Em telas de grande formato, como as da série Navegações, cria mapas imaginários onde rostos, barcos e instrumentos de navegação se fundem, discutindo deslocamentos e pertencimento.

Maxwell Alexandre (1990-)
Artista carioca da nova geração que alcançou grande reconhecimento internacional. Sua série Pardo é Papel (2017-em diante) utiliza o papel pardo (cor de sua pele, como afirma) como suporte para narrativas que misturam auto-representação, crítica ao sistema de arte, religiosidade e cenas do cotidiano da periferia. Suas pinturas, de estilo figurativo e gestual, são cheias de referências à cultura hip-hop, ao gospel e ao cenário artístico.

Dercy Santos (1949-)
Pintora baiana, iniciada no candomblé, cuja obra é profundamente ligada aos mitos e símbolos dos orixás. Utiliza técnicas mistas, incluindo areia e pigmentos naturais, criando texturas que remetem aos elementos da natureza.

A pintura afro-brasileira não é um movimento homogêneo, mas um campo de força em constante expansão. Dos pioneiros que romperam barreiras no sistema artístico acadêmico aos contemporâneos que atuam no circuito global, esses artistas constroem uma contra-narrativa visual essencial. Suas obras são atos de presença, memória e invenção, afirmando que a experiência negra é plural, complexa e central para a compreensão da arte e da sociedade brasileiras.



RUBEM VALENTIM (1922-1991) Emblema-Logotipo-Poetico. 1975 Acrilica sobre tela 700 x 500 cm.

Pintura sem título de Heitor dos Prazeres, 1962. 
Historicamente a festa tem cumprido um papel central na estruturação das comunidades periféricas e na subjetividade dos sujeitos que pertencem a elas. A festa foi uma conquista dos escravizados e o carnaval é um legado extraordinário deles. Não é sem propósito que ela, a festa, seja frequentemente demonizada pela elite branca e econômica – as festas populares elaboradas aqui e ali na obra desses artistas e que deveriam ser incorporadas aos currículos e programações que se pretendam decoloniais. A festa é uma estratégia de sobrevivência dos asfixiados, se exerce nas frestas de uma sociedade opressiva e têm múltiplas dimensões, inclusive religiosa. Ela esta sugerida na obra de um Heitor dos Prazeres (1898-1966), espécie de polímata que certa narrativa em vias de se tornar obsoleta reduziu a “pintor primitivo”, espécie de patriarca daquele mesmo partido que convencionamos chamar “popular” e que hoje acolhe artistas negros e negras como o pintor paulista André Ricardo, a gravadora baiana Eneida Sanches, a multiartista paranaense Lídia Lisboa e o poderoso xilogravador piauiense Santidio Pereira – artistas que embaralham e tornam bastante mais complexa esta categoria. Na realidade, essas e outras produções contestam as dicotomias que contrapõem o erudito ao popular, o centro à periferia e, em alguns casos, até noções de gênero fossilizadas.

Heloisa Hariadne. Espiral dos afetos que circulam enquanto deixa-se ser vestido e visto por dentro traumas que carregamos. 
Através de suas ações e de rituais cotidianos, a pintora paulista Heloisa Hariadne parece pretender um resgate dos usos e sentidos originais dos alimentos e de seu consumo. Os vegetais que a artista consome são assunto central de suas ações e de sua pintura de extração fauve, algo matissiana e africana. Nas composições diretas de acento pop, corpos negros trabalhados com massa de tinta extraídas de bastões de óleo são contrapostos a essa botânica feérica que ela cultiva, oferece em ritual e consome.

Moises Patricio. Série "Album de familia", 2020.
Moisés Patrício batizou como Álbum de família a série de retratos realizados em plena pandemia que apresenta os membros de sua família espiritual, isto é, os membros da casa de candomblé frequentada pelo artista. Existe um apelo, aliás, legítimo, que realça no discurso sobre a arte afro-brasileira os aspectos sobre a religiosidade dos seus autores, já que essa religiosidade é pauta frequente e em muitos casos central das suas biografias. Vide os baianos Deoscóredes Maximiliano dos Santos (1917-2013), o mestre Didi, escultor seminal, escritor e sacerdote e o também escultor, pintor, gravador, professor Rubem Valentim (1922-1991), e o notável artista e professor baiano de Macaúbas, Ayrson Heráclito. No entanto, deve-se admitir que a ascensão desses e de outros artistas foi construída no campo da arte e através do conhecimento adquirido por eles no exercício desse ofício. O que é intrínseco a arte deve interessar tanto quanto o que é externa a ela (da Silva, 2020).

Arjan Martins. Sem título, 2019. 

Luis 83. Sem título, da série "Composição". 2027-2018

Santidio Pereira. Xilogravura. s/d.

Santidio Pereira, em seu atelier.

Santidio Pereira. Xilogravura.

Essa recorrência à realização de retratos explícita na série de Patrício e tão marcante nas obras de artistas como Sidney Amaral (1970-2017), o performático e acidamente irônico Peter de Brito, o pintor No Martins, todos de São Paulo, e o carioca Arjan Martins, participa da construção de identidades que expressam suas individualidades, mas que também contribuem para a construção de uma autoestima coletiva, pois eles refutam a ideia de coisificação do corpo negro e organizam suas memórias
Além disso, esses retratos mitigam um déficit nas galerias reservadas à exibição desse gênero de pinturas. Pode ser que exista uma ideia qualquer que sugira a ausência de tradições artísticas negras brasileiras, o que não é de modo algum verdadeiro, e isto explicaria a falta de reconhecimento das autorias que fundamentam a construção de uma história de arte e justificaria o espanto de alguns diante do que chamam “moda”, “voga” ou “onda” de arte afro-brasileira. Não é por outro motivo que leva artistas afro-brasileiros como Aline Motta, Heráclito, Janaina Barros, Juliana dos Santos, Rosana Paulino, Marcelo D´Salete e Wagner Viana a serem também profundamente comprometidos com pesquisas nos campos da história e da antropologia (da Silva, 2020).


10. Encerramento e Reflexão

A arte afro-brasileira é parte essencial da história do Brasil. Estudá-la é reconhecer a contribuição dos povos africanos e afro-descendentes para nossa cultura, combater o preconceito e valorizar a diversidade.

Pergunta final para a turma:

Como a arte pode ajudar a preservar a memória e a identidade de um povo?





Fonte




https://ensinarhistoria.com.br/mascaras-africanas-recortar-colorir/

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