sexta-feira, 9 de outubro de 2026

MONOTIPIA

MONOTIPIA


A monotipia é uma técnica de gravura que produz, como o próprio nome diz, uma única impressão, ou uma quantidade muito limitada de variações, a partir de uma matriz lisa, como acrílico, vidro, metal ou pedra polida.

Monotipia com aquarela (polykromos)

Livros feito com monotipia (thread)

Livros feitos com monotipia (thread)

Detalhe da monotipia em aquarela de Heidi Fourie, The lost ones (2021) (davidkrutprojects).

A palavra monotipia vem da junção do elemento grego mono: que significa "um", "único" ou "sozinho", do grego mónos, μόνος: que significa único, sozinho ou um só; com o termo typos, τύπος, typos, termo grego para marca impressa, modelo ou golpe, marca, impressão ou cunho (derivado do verbo typtein, "golpear ou bater") mais o sufizo -ia: sufixo nominal de origem latina e grega que indica estado, qualidade, atividade ou técnica.

O processo da monotipia foi inventado por Giovanni Benedetto Castiglione (1609-1664), um pintor italiano e que também foi o primeiro artista a produzir esboços como obras acabadas (ao invés de estudos para outro trabalho). Ele é o único italiano a ter inventado uma técnica de gravura. 
Castiglione começou a fazer monotipias na década de 1640, trabalhando normalmente em preto para branco, das quais mais de vinte sobreviveram, destas mais da metade são cenas noturnas. Poucos artistas usaram a técnica até Edgar Degas (1834-1917), que fez várias monotipias, muitas vezes trabalhando nelas ainda mais após a impressão; Lucien Pissarro (1863-1944) também fez várias. Paul Gaugin (1848-1903) usando uma variante técnica envolvendo traçados, mais tarde essa técnica foi retomada por Paul Klee. No século XX, a técnica tornou-se mais popular, quando muitos artistas também usam dessa técnica para produzir obras de arte. 

Segundo Kane, Kaczmarek & Waters (2022), as monotipias são conhecidas tanto como a "gravura pictórica" ​​quanto como a "pintura do gravador". Como descreveu David Krut, uma monotipia pode ser vista, essencialmente, como uma pintura que passou por uma prensa, resultando em uma qualidade de traço distinta daquela encontrada na pintura mais tradicional. Algumas monotipias e monoprints são mais complexas, envolvendo processos adicionais. Essas obras frequentemente combinam elementos de pintura, desenho e gravura.

Em termos de definição, como vimos, a monotipia é uma impressão única criada a partir de uma matriz à qual se aplicou tinta. Por gerar apenas uma impressão, essa técnica é singular, pois não permite produzir uma edição de múltiplas cópias. O pigmento restante após a impressão geralmente é insuficiente para uma segunda tiragem, a menos que mais tinta seja aplicada. A aplicação de mais tinta ou a impressão da "imagem fantasma" criará, invariavelmente, uma imagem diferente; assim, cada obra é única e irreproduzível naquela forma exata.

Portanto a monotipia é uma técnica de impressão única e híbrida que transita entre a gravura, a pintura o desenho e o estêncil, caracterizando-se por produzir apenas uma cópia original. O processo de monotipia consiste em aplicar tinta ou pigmento diretamente sobre uma superfície lisa e não porosa, como vidro, metal, pedra polida ou acrílico, para depois transferir essa imagem para o papel por meio de pressão manual, colher ou prensa. Por não possuir uma matriz gravada em relevo ou sulcos, o desenho original desaparece após a transferência, tornando cada impressão uma obra de arte absolutamente singular e irrepetível.
 
A grande beleza e definição dessa técnica está justamente no fato de ser um processo de impressão manual direta, onde a pressão das mãos, de uma colher de pau ou de um rolo de borracha é perfeitamente suficiente para transferir a tinta da matriz para o papel.
No entanto, a monotipia de adição com camadas espessas de tinta ou aquela feita sobre matrizes texturizadas (como placas de colagem/colagravura) são as que mais se beneficiam ou frequentemente utilizam uma prensa artística (prensa calcográfica) para melhor revelar os detalhes.
O objetivo desse comunicado é a apresentação de três maneiras simples de experimentar a monotipia em um atelier de arte ou mesmo em casa.

Lebogang Mabusela trabalhando no David Krut Workshop (DKW) em 2022, produzindo monotipias com tinta à base de óleo sobre placas de acrílico e utilizando toalhinhas de papel recortadas para adicionar detalhes texturizados em alguns pontos (davidkrutprojects).

Resumindo os procedimentos técnicos

• Monotipia redutiva ou por subtração (Campo escuro/Dark field) 
Você rola uma camada uniforme de tinta escura sobre toda a placa e usa panos, cotonetes ou pincéis para retirar a tinta, revelando as áreas de luz e os meios-tons.

• Monotipia aditiva (Campo claro/Light field) 
Você aplica a tinta (com pincéis, rolinhos ou tecidos), criando ou construindo uma imagem, diretamente sobre a placa limpa  para criar a imagem positiva.

• Monotipia por decalque/ou traço (Trace monotype) 
Você coloca uma folha de papel sobre uma placa entintada e desenha no verso do papel com um lápis ou outro instrumento pontiagudo. A pressão do lápis transfere a tinta apenas nas linhas do traço, criando um visual único semelhante a um desenho à mão.

• Uso de estêncils e máscaras 
Você posiciona papéis cortados (de forma geométrica ou orgânica), tecidos (como renda) ou folhas secas sobre a placa para bloquear a tinta em certas áreas ou deixar texturas impressas.


1) Monotipia redutiva ou por subtração

Cubra toda a superfície da sua placa lisa com uma camada fina e uniforme de tinta usando um rolinho preferencialmente de borracha macia, ou de outro material alternativo. Em seguida, use ferramentas simples como cotonetes, a ponta de um pincel, um paninho ou os dedos para remover a tinta e "desenhar" expondo o fundo. Depois, basta pressionar o papel sobre a placa para revelar o desenho negativo.

A técnica passo a passo
A monotipia de subtração é uma técnica de gravura em que o artista aplica uma camada uniforme de tinta sobre uma placa lisa e, em seguida, retira partes dessa placa a tinta para formar o desenho em negativo.

O Processo Passo a Passo

Preparo da matriz: Use uma superfície lisa e impermeável, como uma placa de vidro, acetato, acrílico ou metal.

Aplicação da tinta: Espalhe uma camada fina e homogênea de tinta (como tinta óleo, acrílica de secagem lenta ou guache) por toda a superfície usando um rolinho de borracha ou pincel.

Subtração (o desenho): Remova a tinta com ferramentas como cotonetes, palitos, pincéis limpos, pedaços de pano ou os dedos. As áreas onde a tinta é retirada formam os traços claros ou o fundo em negativo na impressão final.

Impressão: Pressione um pedaço de papel cuidadosamente sobre a placa entintada, alisando o verso com as mãos ou usando uma prensa para transferir a imagem. O resultado é uma estampa única com fundo colorido e traços em negativo.

Esmiuçando:
A monotipia de subtração é também conhecida como uma técnica negativa, ou seja é um processo de impressão manual onde a imagem é criada retirando-se a tinta de uma superfície lisa. Diferente da técnica por adição onde você pinta diretamente na matriz, i.e., adiciona tinta, na subtração o resultado final revela um fundo colorido com o desenho vazado (em negativo) na cor original do papel.
Por se tratar de uma técnica de monotipia, o resultado é sempre uma obra única e irrepetível. 

As monotipias em aquarela de Adele van Heerden apresentam, todas, o seu traço gráfico característico feito com giz Woody. Detalhe de Brief Respite, 2021. (davidkrutprojects)

Detalhe da monotipia em aquarela de Heidi Fourie, Inhabiting the same cosmos (Habitando o mesmo cosmos), 2021.(davidkrutprojects)

Monotipias em aquarela com chine-collé de Maaike Bakker. À esquerda: Another way, 2021; à direita: I can’t think of the word now…, 2021.(davidkrutprojects)


Materiais Necessários

Matriz: Uma superfície lisa e não porosa como placa de vidro, acetato, acrílico ou metal.
Tinta: Tintas de secagem lenta, como tinta a óleo, guache ou tinta de gravura.
Ferramentas de aplicação: Um rolo de gravura (rolo de borracha mais indicado para distribuição uniforme da tinta) ou pincel.
Ferramentas de subtração: Cotonetes, palitos, trapos, pincéis secos ou o próprio dedo.
Suporte: Papel para receber a impressão.

Passo a passo do processo

Entintagem: Aplique uma camada fina e uniforme de tinta sobre toda a extensão da matriz utilizando o rolo.
Subtração (o desenho): Com o auxílio de um cotonete, palito ou espátula, comece a remover a tinta da placa para desenhar. As linhas e formas que você limpar serão as áreas brancas (ou da cor do papel) na impressão final.
Preparo: Se desejar margens limpas, você pode colocar uma máscara de papel vazada sobre a matriz antes de imprimir.
Transferência: Coloque cuidadosamente a folha de papel sobre a matriz entintada.
Pressão: Pressione o verso do papel suavemente com as mãos espalmadas, o punho ou um rolo limpo para transferir a tinta.
Revelação: Remova o papel com cuidado, puxando por um dos cantos, para revelar a sua arte em negativo.


2) Monotipia  Aditiva ou de campo claro. 

Na monotipia por adição, devemos pintar ou desenhar diretamente sobre uma superfície lisa (como uma placa de acrílico ou o vidro de um porta-retratos) usando tinta acrílica ou guache ou tinta para xilogravura a base d´água. Antes que a tinta seque, coloque uma folha de papel por cima e pressione firmemente com as mãos ou com as costas de uma colher (pode ser uma colher de madeira) para transferir a imagem para o papel.

Mandla Mavengere trabalhando aditivamente em tinta à base de óleo com a impressora Sbongiseni Khulu na DKW, 2022.(davidkrutprojects).

Tracey Emin Mother (from Family Suite) 1994 © Tracey Emin. All rights reserved. DACS, London 2023.

Técnica de monotipia aditiva

Monotipia aditiva
https://youtu.be/tuLjNFLPtBk?si=R8PT6928wNa6iAEz

Robert Adams (nationalgalleries)

Naum Gabo (1890 - 1977). Opus ten.



3) Monotipia por decalque ou traço direto (desenho transferido)

Entinte completamente a sua placa lisa com o rolinho. Coloque delicadamente uma folha de papel em branco sobre a tinta fresca, sem pressionar. Desenhe no verso desse papel usando um lápis ou caneta esferográfica. A pressão do seu traço fará com que a tinta da placa grude no papel, criando um efeito de linha texturizada muito expressivo.


Monotipia é uma técnica de impressão manual que combina gravura, desenho e pintura, criando uma obra única e irrepetível. (insta).

Monotipia botânica.(2)

Monotipia botânica (3)

Monotipia botânica feita com o uso de prensa. Medida: 84 x 59 cm. Impressão em tinta tipográfica e tinta para gravura sobre papel Offset 180 gr. 2024.

Monotipia botânica feita com o uso de prensa. Medida: 84 x 59 cm. Impressão em tinta tipográfica e tinta para gravura sobre papel Offset 180 gr. 2024.

Monotipia botânica feita com o uso de prensa. Medida: 84 x 59 cm. Impressão em tinta tipográfica e tinta para gravura sobre papel Offset 180 gr. 2024.

Monotipia ou monoprint de Maja Maljevic. Gray Zone, 2021.(davidkrutprojects).

A obra de monotipia Leading Dreams (2022), de Mandla Mavengere.(davidkrutprojects)

Monotipia colorida (sierra).

Monotipia com geliprint (nancywalter).




Coda

A monotipia consolida-se como um território híbrido e fascinante entre a pintura e a gravura, onde o acaso e o controle técnico caminham lado a lado. Seus resultados revelam uma estética profundamente orgânica, fluida e expressiva, caracterizada por texturas táteis, passagens de cor esfumaçadas e linhas que carregam a energia direta do gesto do artista. Abaixo está uma breve comparação entre os três tipos de monotipias apresentado nesse artigo, especialmente sobre o uso da prensa artística. 


A beleza da monotipia está na sua singularidade absoluta: um encontro poético entre o desenho a pintura e a gravura onde o acaso e o gesto se fundem. O resultado é uma estética fluida, orgânica e impossível de replicar. Cada impressão carrega texturas únicas e a força de um momento efêmero do gesto do artista, transformando cada cópia em uma obra de arte irrepetível.








Fonte

The best sites for monotype
















(Coda: trata-se da seção final de uma composição musical. Serve para encerrar a peça de forma conclusiva, podendo repetir ou relembrar temas já apresentados.)

Publicada em 21/IX/2026

terça-feira, 22 de setembro de 2026

ARTE CONCEITUAL

MERDA DE ARTISTA
O Valor áureo do excremento: a estética radical de Piero Manzoni

A obra mostrada é “Merda d’artista” (1961), criada pelo artista italiano Piero Manzoni. Ela consiste em latas lacradas que, segundo ele, conteriam suas próprias fezes. A proposta não era chocar apenas por chocar, mas fazer uma crítica ao mundo da arte e ao valor que as pessoas dão às obras só porque foram feitas por um artista famoso. Piero Manzoni foi um artista ligado à arte conceitual, um movimento que valoriza mais a ideia do que a aparência da obra. Ele gostava de provocar o público e questionar o que realmente faz algo ser considerado arte. Para isso ele precificou o valor de cada lata ligando-a ao preço da mesma massa de ouro. Se colecionadores querem algo do artista nada mais intimo do que isso: isso pertence mesmo ao artista.

Em maio de 1961, o artista de vanguarda italiano Piero Manzoni (1933-1963) chocou o circuito cultural ao lacrar 90 latas de metal cilíndricas (com 6,5 cm de diâmetro e 4,5 cm de altura), rotuladas em quatro idiomas (italiano, inglês, francês e alemão) com a inscrição: "Merda d'Artista. Conteúdo líquido 30g. Conservada ao natural. Produzida e empacotada no mês de maio de 1961." O que parecia uma provocação escatológica juvenil revelou-se um dos mais profundos e impiedosos manifestos contra o mercado e o fetiche da mercadoria artística no século XX.

Piero Manzoni. “Merda do artista”. Contendo 30 g. Preservada fresca. 
Produzido e enlatada em Maio de 1961.

A exaltação das fezes como relíquia artística
Manzoni elevou os dejetos corporais ao status máximo de pureza criativa por meio do viés conceitual. Em uma carta enviada em dezembro de 1961 ao seu amigo Ben Vautier, ele explicou a lógica por trás do ato: "Se os colecionadores querem algo íntimo, realmente pessoal do artista, há a própria merda do artista, isso é realmente dele".

Ao fazer isso, Manzoni operou uma ironia hiperbólica sobre os conceitos de autoria e autenticidade. Inspirado nos readymades de Marcel Duchamp e no conceito de fetiche da mercadoria de Karl Marx, ele sugeriu que a genialidade mítica atribuída ao artista era capaz de transmutar qualquer resíduo biológico em algo sagrado. As fezes tornaram-se a extensão máxima da corporalidade criativa, superando seus trabalhos anteriores com balões inflados com seu hálito (Fiato d’artista) ou ovos cozidos marcados com sua impressão digital.

A Estratégia de Comercialização
A venda das latas foi estruturada sob uma crítica ácida ao sistema econômico. Manzoni determinou que cada lata contendo 30 gramas de excremento deveria ser comercializada exatamente pelo preço equivalente ao seu peso em ouro puro de 24 quilates. Na época, o valor estipulado foi de aproximadamente $37 dólares americanos por unidade.
Esta indexação direta ao ouro escancarou a volatilidade e o absurdo da precificação da arte. Manzoni provou que o valor de um objeto no mercado de arte não reside em sua matéria-prima ou valor de uso, mas sim no poder abstrato da assinatura do autor e na especulação financeira.

Onde estão as latas hoje e seu Valor de Mercado
Seis décadas após a sua criação, as latas originais transformaram-se em verdadeiros tesouros institucionais e objetos de desejo de bilionários.

Onde estão localizadas: Muitas das 90 unidades originais encontram-se acervadas permanentemente em grandes museus globais, como a Tate Modern em Londres, o Centre Pompidou em Paris, o Museum of Modern Art (MoMa) em Nova York e o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAN). Outras permanecem guardadas sob estrito sigilo por colecionadores privados que competem ferozmente em leilões.

Preço estimado atual: O valor de mercado das latas originais superou, de longe, a valorização do próprio ouro. Atualmente, em leilões de prestígio conduzidos por casas como a Sotheby´s e a Christie´s, uma lata original de Merda d´Artista esta avaliada entre $200.000 e $300.000 dólares. Em dezembro de 2016, a lata de número 69 atingiu o recorde histórico de venda na casa de leilões Il Ponte, em Milão, arrematada por 275.000 euros (o equivalente a cerca de $290.000 dólares na época).

Curiosamente, o mistério sobre o verdadeiro conteúdo das embalagens permanece intacto. Como abrir a lata destruiria o próprio objeto de arte e seu valor milionário, ninguém jamais confirmou oficialmente se o que há dentro é realmente excremento ou apenas gesso, perpetuando a maior piada conceitual da história da arte moderna.

Piero Manzoni (13 de julho de 1933 – 6 de fevereiro de 1963) foi um artista italiano bastante conhecido pela sua abordagem irônica frente à arte.


Piero Manzoni. “Merda do artista”. Contendo 30 g. Preservada fresca. 
Produzido e enlatada em Maio de 1961.

Piero Manzoni se tornou referência por uma série de obras que põem em questão o objeto de arte, em relação direta com a conceitual.

Seu trabalho raramente é feito com materiais de arte comuns, tinta, pincel, gravura, gesso, pedra, etc., em vez disso o artista constrói seu discurso usando desde pele de coelho à excrementos humanos, de modo a “explorar fontes mitológicas e realizar os valores autênticos e universais “.

Uma de suas obras “Artist’s Shit” (“Merda de Artista”) é um trabalho de 1961 que consiste em 90 latas cheia de fezes do artista, cada uma pesando cerca de 30 gramas e medindo 4,8×6,5cm.

A lata ainda vem com o seguinte rótulo descritivo nas línguas, italiano, francês, alemão e inglês:


Quando o trabalho foi criado, Piero Manzoni estava produzindo uma série de trabalhos que exploravam a relação entre arte e produção humana. Uma curiosidade: esta lata foi vendida por € 124.000 pela Sotheby em 23 de maio de 2007.

Em outubro de 2008, a lata 083 foi colocada novamente à venda na Sotheby com uma estimativa de £50-70,000.

Ela acabou sendo vendida por £ 97.250. As latas foram originalmente avaliadas de acordo com o seu peso equivalente ao ouro – $37 cada, em 1961. Uma loucura, não?



Fonte




CELANT, Germano. Piero Manzoni: Catalogo generale. Milão: Skira, 2004.

GRAW, Isabelle. "Some work went into this: Piero Manzoni, ‘Merda d’artista’, 1961". Texte zur Kunst, Edição 134.

THOMPSON, Jon. "Manzoni’s Critical Reification". In: Piero Manzoni: Paintings, Reliefs & Objects. Londres: Serpentine Gallery, 1998.

FONDAZIONE PIERO MANZONI. La Merda d'Artista: Historical Context and Epistolary Archive. Milão.

TATE MODERN. "Excremental value: Piero Manzoni's 'Merda d'artista'". Tate Etc. Issue 10, 2007.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

DO BIDIMENSIONAL AO 3D

INTRODUÇÃO A ESCULTURA

Do bidimensional ao tridimensional

A transição da superfície plana para o espaço físico é um dos momentos mais fascinantes da expressão humana, marcando o nascimento da escultura. Enquanto o desenho e a pintura simulam a profundidade por meio de ilusões ópticas, a escultura ocupa o espaço real, convidando o espectador a orbitar a obra e a percebê-la sob múltiplos ângulos e estímulos luminosos. Essa mudança da bidimensionalidade para a tridimensionalidade transforma a contemplação estética em uma experiência sensorial e tátil, onde o volume, a massa e o vazio dialogam diretamente com o ambiente ao redor.

Ao longo da história da arte brasileira, grandes mestres moldaram a identidade cultural do país conferindo tridimensionalidade às nossas dores, crenças e identidades. 
No período colonial, Antônio Francisco Lisboa (1738-1814), o Aleijadinho, tornou-se a referência máxima do Barroco e do Rococó com suas esculturas em pedra-sabão e madeira, repletas de expressividade e dramaticidade.
Séculos mais tarde, o Modernismo trouxe a força de Victor Brecheret (1894-1955), responsável por introduzir a geometrização e a monumentalidade em nossas praças, a sensibilidade de Bruno Giorgi (1905-1993), cujas formas fluidas e vazadas capturaram o espírito utópico e arquitetônico de Brasília e Amilcar de Castro (1920-2002), aprofundaram a geometrização e a matematicidade nas obras, através do Movimento Neoconcreto, consolidou uma linguagem artística única baseada em dois gestos fundamentais sobre o metal pesado: o corte e a dobra.
 
Sobre a obra de Amilcar de Castro

Método Construtivo. Amilcar trabalhava a partir de um bloco ou chapa maciça de aço (frequentemente aço carbono ou aço Corten). Sem adicionar ou desperdiçar material através de soldas ou descartes, ele fazia incisões precisas na placa e a dobrava. Diálogo com o Espaço: A dobra criava uma abertura tridimensional, transformando uma matéria plana e bidimensional em uma escultura volumosa que criava "vazios" e novos pontos de equilíbrio. 

Estética da Matéria. Suas obras pesavam toneladas, mas transmitiam uma sensação de leveza poética, como se o aço rígido e espesso tivesse sido manuseado com a suavidade de uma folha de papel. A oxidação natural do ferro também era integrada como cor e textura da própria obra. 

Legado Extrínseco
Presença Urbana: Suas esculturas monumentais integram a paisagem urbana de diversas cidades brasileiras, com forte presença em praças públicas e museus de Belo Horizonte e São Paulo. 
Memória: Hoje, o acervo e a memória de sua produção são preservados pelo Instituto Amilcar de Castro em Nova Lima (MG), que reúne centenas de suas criações.

Amilcar de Castro (MAC-USP) (1)

Amilcar de Castro em Porto Alegre.

Amilcar de Castro

Amilcar de Castro


Peter Callsen (1967- )

Peter Callesen
Peter Callesen (nascido em 1967) como um dos nomes mais poéticos e inovadores da escultura contemporânea. Com formação inicial em arquitetura antes de migrar para as artes plásticas no Goldsmiths College de Londres, Callesen revolucionou a arte conceitual ao transformar um objeto cotidiano e banal, a folha de papel branco no formato A4, em um campo de infinitas possibilidades narrativas e existenciais. Por meio de cortes cirúrgicos meticulosos e dobraduras precisas feitos a partir de uma única folha, ele eleva silhuetas bidimensionais a complexas figuras tridimensionais, como castelos, esqueletos e pássaros. O grande trunfo de sua estética reside na íntima relação entre presença e ausência: ao manter a escultura conectada ao espaço vazio deixado pelo corte no papel original, Callesen materializa uma profunda dicotomia sobre a impermanência, a fragilidade humana e o limiar trágico-romântico entre a fantasia e a realidade.

Peter Callesen

Peter Callesen (mymodernmet)

Peter Callesen (mymodernmet)

Peter Callesen (mymodernmet)

Peter Callesen (mymodernmet)

Peter Callesen (mymodernmet)

Peter Callesen (mymodernmet)

Peter Callesen (mymodernmet)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callesen (mymodernmet)

Mauritis Cornelis Escher (1898-1972)

Maurits Cornelis Escher (1898–1972) foi um dos artistas gráficos mais famosos do mundo, célebre por suas xilogravuras, litografias e meios-tons que desafiam a lógica visual. Nascido na Holanda, o artista ganhou reconhecimento internacional ao unir arte, matemática e ilusão de ótica, criando estruturas arquitetônicas impossíveis e preenchimentos geométricos perfeitos. 
Biografia resumida e Trajetória
Escher nasceu em Leeuwarden e manifestou interesse pelo desenho desde jovem. Ele ingressou na Escola de Arquitetura e Artes Decorativas de Haarlem, onde seu mentor, Samuel Jessurun de Mesquita, o incentivou a focar nas artes gráficas. 
A sua grande virada estética ocorreu após viagens à Itália e à Espanha. Ao visitar o palácio de Alhambra, em Granada, Escher ficou fascinado pelos mosaicos de arte islâmica. Essa experiência inspirou o desenvolvimento de sua técnica de tesselação (a divisão regular do plano usando figuras geométricas entrecruzadas que se transformam).
Pilares de sua Obra
O trabalho do artista opera na fronteira entre a ciência e o surrealismo, destacando-se por:
Geometria e Simetria: Exploração minuciosa de reflexões, rotações e translações de figuras.
Construções Impossíveis: Cenários que desafiam as leis da gravidade e as regras tradicionais de perspectiva.
Explorações do Infinito: Padrões repetitivos que diminuem ou aumentam progressivamente, sugerindo uma continuidade sem fim.

Mauritis Cornelis Escher (1898-1972)

Mauritis Cornelis Escher (1898-1972)

Mauritis Cornelis Escher (1898-1972)

Bert Simons
O designer e artista visual holandês Bert Simons (formado pela prestigiada Design Academy Eindhoven em 1991) uma mente brilhante na intersecção entre o artesanato tradicional e a tecnologia digital. Sediado em Roterdã, Simons ganhou projeção global na primeira década dos anos 2000 ao subverter o conceito de retrato com suas esculturas tridimensionais hiper-realistas feitas inteiramente de papel. Seu processo meticuloso e vanguardista inicia-se com o mapeamento facial por pontos (técnica similar à captura de movimento do cinema), cujos dados são processados no software de código aberto Blender para gerar uma textura plana e texturizada que ele imprime, recorta à mão e cola cirurgicamente ao longo de vários dias. O resultado de seus "clones" biodegradáveis, que retratam desde amigos até figuras públicas como o ex-prefeito de Roterdã, provoca um profundo efeito estético e psicológico de "vale da estranheza" (uncanny valley), desafiando nossas percepções sobre a identidade, a mortalidade e os limites entre o orgânico e o virtual na era da replicação digital.



Bert Simons
Retrato e máscara de papel vestível do Sr. Ivo Opstelten, prefeito de Roterdã entre 1999 e 2008. Dediquei os últimos dois meses a este retrato, ao todo, 248 horas de trabalho. Além do retrato em papel, também confeccionei uma máscara vestível que aparece em um curta-documentário de Jup de Heer sobre o Sr. Opstelten.

Bert Simons (em primeiro plano a obra Clone, autorretrato)
Bert Simons é um artista visual holandês amplamente conhecido por criar esculturas de papel hiper-realistas em 3D. Embora ele não possua uma página biográfica dedicada na Wikipédia em português, seu trabalho inovador é internacionalmente reconhecido no circuito da arte contemporânea e do design digital. O processo criativo de Simons mistura técnicas de modelagem digital avançada com escultura tradicional em papel: 
1) Ele começa mapeando o rosto de uma pessoa real com pequenos pontos de referência (similar à captura de movimento do cinema).
2) Esses dados são transferidos para o software de modelagem 3D de código aberto Blender, onde ele reconstrói a textura realista da pele e das feições.
3) Por fim, o modelo tridimensional é "achatado" de volta para o formato 2D, impresso e montado meticulosamente à mão para criar os impressionantes retratos físicos.

Bert Simons

Bert Simons

Bert Simons. Autorretrato

Bert Simons

Bert Simons. Processo de produção das esculturas de papel.

Bert Simons. Processo de produção das esculturas de papel e madeira.


Outros artistas, outras obras
em papel









Brasil

A evolução da escultura no Brasil também desafiou as próprias barreiras físicas da matéria no século XX, integrando o espectador de forma ativa. Artistas como Lygia Clark (1920-1988) e Hélio Oiticica (1937-1980), através do movimento Neoconcreto, romperam com o conceito tradicional de estátua estática e contemplativa. Com os seus famosos Bichos, Lygia Clark criou estruturas geométricas de metal articuladas que o público precisava manipular para que a escultura existisse plenamente. Assim, a arte tridimensional brasileira consolidou-se como um campo aberto de experimentação, onde o espaço, o objeto e o corpo humano fundem-se em um único acontecimento.

Lygia Clark. Bichos.

Lygia Clark. Bichos.

Hélio Oiticica

Hélio Oiticica

Hélio Oiticica. Penetrable. (1)

Hélio Oiticica. Hélio Oiticica, maquete para Subterranean Tropicália Projects: PN15 Penetrable, 1971 (FOTO: MIGUEL RIO BRANCO; CÉSAR E CLAUDIO OITICICA Reprodução. dasartes)


PAPECRAFT

Na contemporaneidade, essa passagem ganha novos contornos com práticas acessíveis e inovadoras, como a escultura em papercraft. Essa técnica traduz perfeitamente a jornada entre as dimensões: folhas de papel inicialmente planas, impressas com padrões bidimensionais, são meticulosamente cortadas, dobradas e coladas até se transformarem em bonecos e objetos tridimensionais complexos. O papercraft democratiza a linguagem escultórica, unindo a precisão da modelagem geométrica digital à manufatura artesanal, provando que o volume e a tridimensionalidade podem emergir dos materiais mais cotidianos.















Fonte












MONOTIPIA

MONOTIPIA A monotipia é uma técnica de gravura que produz, como o próprio nome diz, uma única impressão, ou uma quantidade muito limitada de...