terça-feira, 18 de novembro de 2025

A ARTE

ARTE 

Da Beleza à Ideia

Até o final do século XIX, a arte no Ocidente era geralmente definida por sua mimese (imitação da natureza) e pela busca do belo. A virada para o século XX, com movimentos como o Cubismo e o Dadaísmo, quebrou esse paradigma. A arte já não precisava ser bonita ou imitar a realidade. Ela começou a questionar a si mesma.

Conceitos Modernos (Século XX)

1. A Arte como Expressão (Benedetto Croce & R. G. Collingwood)
Para estes filósofos, a arte não está no objeto físico, mas no impulso interior do artista. A obra de arte é a externalização de uma emoção ou intuição única. O quadro, a escultura ou a música são apenas veículos que tornam pública essa emoção interior.

Exemplo Prático: O grito na pintura O Grito, de Edvard Munch. O valor da obra não está na fidelidade da paisagem, mas na poderosa e angustiante emoção que ela comunica.

2. A Arte como Forma significante (Clive Bell)
Bell cunhou o termo "forma significante". Para ele, o que define uma obra de arte é a combinação de linhas, cores e formas de um modo que provoca uma emoção estética específica no espectador. O conteúdo (a história, a pessoa retratada) é irrelevante. O que importa é a relação pura entre os elementos visuais.

Exemplo Prático: Uma pintura abstrata de Piet Mondrian, composta apenas por retângulos e linhas pretas. Não há nada para "entender" na narrativa, mas a composição equilibrada e ritmada pode gerar uma forte resposta emocional.

3. A Arte como "Desvelamento" da verdade (Martin Heidegger)
Heidegger oferece uma visão quase mística. A arte, para ele, não é sobre entretenimento ou decoração. É um evento que revela a verdade (o "Ser") de um mundo. A obra de arte abre um novo horizonte de significado, mostrando-nos o que é uma cultura, uma época ou uma existência de uma maneira que não tínhamos percebido antes.

Exemplo Prático: Um par de sapatos velhos num quadro de Van Gogh. Heidegger não os vê como um simples objeto, mas como um artefato que "desvela" todo o mundo da camponesa: seu labor, sua ligação com a terra, sua fadiga e até mesmo sua insignificância frente a estruturas que a colocam e a mantem nesse local.

Conceitos Contemporâneos 
(segunda netade do século XX em diante)

Aqui, o terreno fica ainda mais instável e interessante. A arte se volta para o conceito, o contexto e a pergunta.

4. A Arte como Instituição 
(Teoria Institucional - Arthur Danto & George Dickie)
Esta é uma das teorias mais influentes. Ela afirma que uma obra de arte é qualquer coisa que o "mundo da arte" (um sistema de galerias, curadores, críticos, museus e artistas) consagre como tal. Não há propriedades físicas ou formais que definam a arte, mas sim um contexto social que a legitima.

Exemplo Prático: A Fonte (1917), de Marcel Duchamp. Um mictório comum assinado e colocado em um museu. O objeto em si é banal, mas o ato de Duchamp e a aceitação pelo "mundo da arte" o transformaram em uma das obras mais importantes do século XX.

5. A Arte como Ação e Experiência (Estética relacional - Nicolas Bourriaud)
Bourriaud propõe que a arte contemporânea não cria mais objetos para serem contemplados, mas encontros e experiências sociais. A arte é um campo de trocas humanas, um espaço de encontro que cria relações sociais temporárias. O importante não é o quê, mas o entre – o que acontece entre as pessoas.

Exemplo Prático: Uma instalação onde o público é convidado a cozinhar e comer juntos, ou uma performance que depende da interação dos espectadores para existir.

6. A Arte como Pergunta, não como Resposta
Muitos artistas contemporâneos, seguindo a tradição do Dadaísmo e da Arte Conceitual, usam a arte para fazer perguntas incômodas:
O que é um original? (com a reprodutibilidade técnica e a arte digital).
Onde estão os limites do suportável? (na Body Art e nas performances extremas).
Qual é o papel social do museu? (com críticas ao colonialismo e ao capitalismo).

A obra de arte, nesse caso, é um disparador de pensamento. Seu sucesso não está em ser bela, mas em ser geradora de debate.

Exemplo Prático: A Menina com o Balão, de Banksy, que se autodestruiu após ser leiloada. O gesto foi uma poderosa pergunta sobre o valor da arte, o mercado e a efemeridade.

Um "Jogo de Família"

Diante de tantas definições, como navegar? O filósofo Ludwig Wittgenstein oferece uma metáfora útil: o conceito de arte não é uma essência única, mas funciona como um "jogo de família".

Imagine uma grande família. Os membros não compartilham uma única característica (como o nariz ou a cor dos olhos) que os defina. Em vez disso, há uma rede de semelhanças: alguns têm o mesmo sorriso, outros a mesma estatura, outros o mesmo tom de voz. A arte é assim.
Uma obra pode se conectar a outras por:

Semelhança de Expressão (como o quadro de Munch).
Semelhança de Forma (como a tela de Mondrian).
Semelhança de Conceito (como o mictório de Duchamp).
Semelhança de Experiência Social (como o jantar relacional).

Não há uma regra única, mas um campo de possibilidades em constante expansão. A jornada da arte moderna à contemporânea é a transição de uma definição baseada em propriedades como (beleza, forma, expressão) para uma definição baseada em contexto e conceito (instituição, pergunta, relação). A arte hoje é, acima de tudo, um espaço de diálogo, um lugar onde uma sociedade reflete sobre seus valores, seus limites e seu próprio sentido.

Portanto, da próxima vez que você se deparar com uma obra que pareça incompreensível, em vez de perguntar "O que isto representa?", experimente perguntar: "Que conversa esta obra está tentando iniciar comigo e com o mundo?". Essa pode ser a chave para desvendar o seu mistério.


Arte rupestre


Arte rupestre no Parque Nacional da Serra da Capivara

Capela Sistina da Antiquidade no Sítio arqueo­lógico Cerro Azul, localizado na Serranía de La Lindosa, a 400 quilômetros da capital, Bogotá (veja).

Arte rupestre no Parque Nacional da Serra da Capivara


Cueva de las manos na Patagônia, Argentina, descoberta em 1941. Centenas de mãos pintadas há cerca de 9 mil anos por povos originários. A caverna também apresenta imagens de seres humanos, felinos, emas, o sol e desenhos geométricos pintados nas cores vermelho, amarelo, ocre, verde, preto e branco.

Pintura rupestre da "arara" na Gruta das Araras. Foto de João Carlos Moreno de Sousa, em visita ao sítio em Fevereiro de 2013.

A maior arte rupestre do mundo (1)

Figura vermelha. Arte Grega.


Altar de Zeus no Museu de Pérgamon, Berlin.
O Museu de Pérgamo em Berlim recebe seu nome do altar de Zeus reconstruído, proveniente de Pérgamo (Bergama), no oeste da Turquia.(1)

A Cratera de Derveni, do século IV a.C., com Dionísio e Ariadne representados nesta imagem. (2)

Doríforo (Portador de Lança, c. 440 a.C.) de Policleitos; Minneapolis Institute of Arts, Domínio público, via Wikimedia Commons.(3)

Nereus,_Doris,_Okeanos_Pergamon altar. Berlin. (4)

No Ocidente, observa-se um processo histórico complexo no qual religião e ciência, ambas inicialmente concebidas como vias privilegiadas de acesso à verdade, transformaram-se gradualmente em instituições políticas detentoras de poder, frequentemente subordinando o exercício autêntico da fé e o rigor introspectivo da razão aos interesses da vaidade, da autoridade e da ambição humana. A tradição greco-romana, sobretudo nos ensinamentos socráticos, na ética aristotélica e, posteriormente, no estoicismo, valorizava a “alétheia” como modo de vida: viver conforme a verdade implicava um compromisso ético com a coerência entre discurso e ação. Michel Foucault, em sua análise final sobre a “parrhesía”, observa como a modernidade institucional expropriou esse vínculo espiritual entre verdade e existência, convertendo-o em mera função técnico-burocrática. Como afirma:

“Se a prática científica, a instituição científica, a integração ao consenso científico bastam, por si sós, para garantir o acesso à verdade, é evidente que o problema da verdadeira vida como base necessária da prática de dizer-a-verdade desaparece. [...] A questão da verdadeira vida não parou de se extenuar, de se atenuar, de se eliminar no pensamento ocidental” (FOUCAULT, 2011, p. 207).

Assim, a verdade deixa de ser um modo de subjetivação e torna-se um atributo institucional, deslocando o foco da existência ética para a legitimidade do poder.

Nesse panorama, torna-se relevante compreender a arte não apenas como expressão sensível, mas como manifestação antropológica fundamental. A produção artística, desde seus primórdios na Pré-História, como atestam as pinturas rupestres de Lascaux e Altamira, os objetos cerimoniais do Paleolítico Superior e os grafismos geométricos gravados em ossos e cerâmicas, revela o impulso humano de transfigurar o real. Quando o artesão neolítico decora um vaso ou quando o caçador paleolítico grava animais nas paredes da caverna, não há mera ornamentação: há a irrupção simbólica do “eu” no mundo. A arte emerge como expressão do “self” e como extensão da liberdade criativa, fenômeno que percorre as civilizações, da idealização corporal grega ao naturalismo renascentista, das abstrações islâmicas à espiritualidade iconográfica bizantina.

A periodização da história da arte, ainda que esquemática, auxilia na compreensão desses processos. A arte pré-histórica (c. 50.000 a.C.) revela o nascimento do gesto simbólico; a arte antiga, florescida no Egito e Mesopotâmia (a partir de c. 4.000 a.C.), associa estética, técnica e religiosidade; a arte clássica greco-romana (século VIII a.C. ao V d.C.) estrutura as bases da proporção, da mimese e da representação do corpo; a arte medieval (476–1453) articula transcendência e iconografia cristã; o Renascimento (séculos XIV–XVI) retoma a racionalidade clássica unida ao humanismo; a arte moderna (século XIX–XX), com o Romantismo, o Realismo, o Impressionismo e as vanguardas, desloca o foco para a subjetividade e a experimentação; a arte contemporânea (pós-1950) desmaterializa o objeto artístico e privilegia conceitos, processos e crítica social. Dessa evolução decorre a variedade de formas, pintura, escultura, literatura, cinema, dança, teatro, performance, instalação, todas vinculadas à potência expressiva do humano.

O Nascimento de Vênus, Sandro Botticelli, c. 1485, Têmpera sobre tela, 
172.5 x 278.5 cm, Uffizi, Florença.(5)

A arte, diferentemente dos utensílios funcionais, não se define por sua utilidade. Fernando Pessoa sintetiza essa condição ao afirmar: “A obra de arte é primeiro obra, depois obra de arte”, indicando que a obra deixa de ser apenas objeto quando se abre à experiência estética. Assim, um vaso doméstico se torna arte quando sua forma ultrapassa a funcionalidade e passa a expressar significações. Conforme Marilena Chaui, a arte transforma o real ao dar forma ao informe, ao converter o visível e o invisível em experiência compartilhável. O pôr-do-sol, embora belo, não é arte: ele se converte em arte quando reinterpretado na linguagem humana, pintura, poesia, fotografia, música, e daí nasce a liberdade criadora. Merleau-Ponty, ao caracterizar a arte como “advento”, afirma que cada obra introduz no mundo aquilo que nunca existiu antes, instaurando uma temporalidade própria. No ensaio “A linguagem indireta e as vozes do silêncio”, o filósofo argumenta que o primeiro traço nas cavernas fundou a tradição porque, antes de tudo, recolheu a tradição da percepção, da observação.

A reflexão estética abrange categorias como o belo, o feio, o sublime, o trágico, o cômico, o grotesco e o kitsch, que variam historicamente e culturalmente. Antonio Candido recorda que “nenhuma arte é casual ou rudimentar: é expressão de um desejo de beleza”, ainda que tal beleza assuma formas contrastantes. Por isso, a universalidade da arte é relativa: uma pintura europeia do século XIX dificilmente possui o mesmo significado estético para uma comunidade indígena da Amazônia, cuja noção de arte está integrada ao ritual, ao mito e à vida coletiva, como demonstram estudos de Lévi-Strauss, Els Lagrou ou Viveiros de Castro. As práticas estéticas, desde a Pré-História, são inseparáveis da religião: como afirma Marilena Chaui, atividades como semear, caçar, cantar, esculpir ou dançar nasceram como gestos técnico-rituais, nos quais o simbólico e o sagrado se entrelaçavam.

A compreensão e apreciação da obra de arte dependem de repertório, imaginação e disposição interpretativa. A arte, ao mesmo tempo, reflete valores sociais e intervém na realidade, transformando a forma como os indivíduos percebem o mundo e a si mesmos. Para Merleau-Ponty, o artista nos revela o que sempre vimos sem ter visto, o que sempre sentimos sem ter sentido: ele recorta o mundo e nos devolve um fragmento intensificado da existência. Daí a ideia pessoana, pela voz de Alberto Caeiro, de “nascer a cada momento para a eterna novidade do mundo”. A arte, distinta da tecnologia, não progride linearmente; ela se renova incessantemente, acompanhando as metamorfoses da sensibilidade humana. É por isso que, independentemente de época, a arte constitui um modo de tornar a vida mais bela, mais significativa e mais plenamente vivida.





Fonte


DANTO, Arthur. O mundo da arte. Trad. Rodrigo Duarte. Artefilosofia. n 1. UFOP. 2006.

DANTO, Arthur. Após o fim da arte: A Arte Contemporânea e os Limites da História. Tradução de Saulo Krieger. São Paulo: Odysseus Editora, 2006.

DANTO, Arthur. A Transfiguração do lugar comum. Tradução de Vera Pereira. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

DICKIE, G. “What is art? An institutional analysis”. In: Art and the Aesthetic: an institutional analysis.(Ithaca: NY, Cornell UniversityPress, 1974), pp. 19-52.












https://pt.wikipedia.org/wiki/Pintura_do_Renascimento

RELEITURAS E ABSTRAÇÕES

 RELEITURAS E ABSTRAÇÕES


Al. Enzo


Al. Hoff


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