FAZENDO TINTA ANCESTRAL
USANDO TÉCNICAS E MATERIAIS ATUAIS
Célia Xakriabá e Sônia Guajajara, deputadas federais indígenas eleitas. Note que elas ostentam uma pintura corporal na face. Créditos: Douglas Freitas @alassderivas Fonte: Reprodução/Apib. Disp.
(https://www.flickr.com/photos/apiboficial/48554524467/)
Segundo Faiad (2023) as cores são um dos fenômenos mais bonitos de serem apreciados. Seja pelas mãos da natureza, como na aurora boreal, seja pelas mãos de um artista, em uma pintura. Cientificamente é possível diferenciar o processo da produção de cores da aurora boreal e de uma pintura pelo conceito cor-luz e cor-pigmento.
Cor luz
Entende-se como cor-luz, a cor da onda eletromagnética oriunda do sol, da lâmpada, da lanterna etc. Assim, uma lâmpada vermelha emite diretamente uma radiação eletromagnética na região espectral da luz visível com comprimento de onda situado entre 350 e 750 nm. É o fenômeno da emissão que explica a aurora boreal, onde a interação de elétrons do plasma solar com os átomos existentes no ar, libera energia com um determinado comprimento de onda na região do visível.
O que é a cor? Como vemos as cores? Os objetos são ou não coloridos?
O que é cor?
Cor é um elemento muito importante para a transmissão de ideias, emoções, sensações e conceitos. De uma forma poética podemos falar que “As cores são ações e paixões da luz”, (Goethe). Foi na Grécia que se começaram os estudos acerca da cor, e muitas foram as descobertas até hoje. A cor que percebemos não é material, mas é uma sensação provocada pela luz sobre os nosso olhos. Por isso, onde não há luz, não existe cor, apenas preto e tons de cinza. =]Foi Isaack Newton que descobriu que a luz branca na verdade é composta por 7 cores, as cores do arco íris. Ele fez esta descoberta quando a luz passou por um prisma e descompôs a luz do sol e várias cores.
Bem, a luz bate no objeto, que reflete sobre a sua cor e absorve todos os outros raios luminosos. Ou seja, se iluminarmos, por exemplo, uma maçã vermelha, a maçã absorve todas as outras cores da luz e reflete apenas a cor vermelha para nossos olhos. É por isso que em dias quentes o melhor é vestir roupa branca, pois o branco reflete todas as cores da luz, já a preta absorve todas. (vidadeprofessor)
Luz e Cor
Por ser uma onda, a luz é descrita pelas variáveis frequência, comprimento de onda e amplitudes dos campos elétrico e magnético. Não existe uma grandeza fundamental associada à cor de uma onda eletromagnética. O conceito de cor está associado à percepção da luz pelo nosso cérebro. Para descrever essa percepção, foram criados vários modelos de cor, entre eles o RGB (red, green, blue) e o CMYK (cyan, magenta, yellow, black), cujas siglas estão associadas às cores primárias de cada um. O modelo RGB é usado principalmente para caracterizar a percepção de cor de objetos emissores de luz, como televisores e monitores de computador. Nesse modelo, as diversas cores são obtidas a partir da adição de diferentes quantidades de três cores primárias: vermelho, verde e azul. Essas cores estão representadas nos vértices do triângulo mostrado e nos discos coloridos superpostos mostrados na figura.(UFMG)
A adição de quantidades iguais de duas cores primárias produz as cores secundárias, indicadas nas laterais do triângulo. A adição das três cores primárias em igual quantidade produz a cor branca:
vermelho + verde = amarelo
verde + azul = ciano
azul + vermelho = magenta
vermelho + verde + azul = branco
As demais cores são produzidas pela adição das cores primárias em proporções diferentes. Assim, os modelos de cor permitem tratar as cores matematicamente.
Cor pigmento
A cor-pigmento, no entanto, funciona de maneira diferente por se caracterizar como uma luz que foi refletida por um objeto. A cor de uma camiseta, por exemplo, não se dá pela emissão direta de radiação das fibras do tecido, mas do processo de absorção parcial da luz e da reflexão de uma determinada frequência de onda (Figura 1). Pigmento é a substância que quando aplicada a um material lhe confere cor, então, se nessa camiseta tiver um pigmento que absorve a luz solar e reflete a radiação entre 625 e 740 nm, então dizemos que essa camiseta é vermelha. É manipulando pigmentos que artistas indiretamente se utilizam da absorção e reflexão da luz para produzir suas obras.
Reflexão da luz por objetos coloridos (khan)
Ao contrário da mistura de cores de fontes de luz, que é aditiva, a nossa percepção das cores de misturas de tintas e de pigmentos é subtrativa. As cores primárias subtrativas são ciano, magenta e amarelo (CMY) e as cores que cada um desses pigmentos subtrai são:
branco – vermelho = ciano,
branco – verde = magenta,
branco – azul = amarelo.
Isso significa, por exemplo, que percebemos um objeto como amarelo porque esse pigmento subtrai a cor azul da luz branca incidente e, portanto, o amarelo é refletido. Isso pode ser visto no triângulo de cores e, também, matematicamente:
branco – azul =
vermelho + verde + azul – azul =
vermelho + verde = amarelo
Uma mistura dos três pigmentos – ciano, magenta e amarelo – produz a cor preto, já que eles juntos subtraem todas as cores primárias do branco. No entanto, a cor preta formada com a adição desses pigmentos não é muito intensa, usualmente utiliza-se para impressão um pigmento específico para o preto. Assim, o modelo CMY passa a ser chamado CMYK (cyan, magenta, yellow, black). (UFMG)
Mas não é só pela arte que o ser humano manipula a cor-pigmento. A história da humanidade é marcada pelo uso de pigmentos e de seus significados sociais. Diversas comunidades ao redor do globo terrestre, ao longo de anos e gerações, construíram conhecimentos por meio da descoberta, seleção e manejo de vegetais, animais e minerais. É no conhecimento tradicional indígena referente a obtenção de corantes e na química da cor-pigmento que Vanuchi e Braibante fundamentam sua pesquisa em Educação em Ciências.
Cor luz (RGB) e cor pigmento (CMYK) (Schlee, 2020)
Pigmentos
Na pintura seja ela ancestral, corporal ou artística, o pigmento é a alma da cor. Não se trata apenas de uma substância que dá tonalidade, mas de um elemento chave que define a intensidade, a resistência e a qualidade da obra. Desde os tons mais vibrantes até às sutilezas das nuances, a escolha do pigmento certo influencia diretamente o resultado final.
Pigmento é uma colecção de pós finos que muda a cor da luz que transmite. Na realidade, esta cor é dada por uma questão de absorção de luz. Os pigmentos não emanam cor, mas recebem uma certa quantidade. Em suma, quando falamos de pigmento, referimo-nos a um pó muito fino que atua como um corante seco.
Exemplos de pigmentos (toten)
Pigmento azul (totenart)
Compreendido o conceito de pigmento, é fundamental classificar suas variações. Com base na composição química, eles se dividem em dois grupos principais:
Pigmentos Orgânicos e os Pigmentos Inorgânicos.
Pigmentos organicos
Os pigmentos orgânicos são aqueles que contêm carbono na sua composição química. Para falar corretamente, pode-se dizer que “os pigmentos orgânicos correspondem a moléculas que têm esqueletos, mais ou menos complexos, de hidrocarbonetos”.
Pigmentos inorgânicos
Por outro lado, os inorgânicos não contêm carbono. Independentemente da sua composição, a única diferença é que os pigmentos orgânicos tendem a colorir mais.
Construindo uma abordagem didática para os corantes naturais
Corantes naturais são aqueles extraídos de plantas, animais, minerais e, até mesmo, microrganismos. Urucum, mogno, jenipapo, açafrão e pau-brasil são alguns dos vegetais utilizados por distintas comunidades indígenas para obtenção das colorações. Os pigmentos obtidos são usados para fins estéticos, econômicos, bélicos, sociais e religiosos.
No artigo intitulado “O Uso de Corantes Naturais por Algumas Comunidades Indígenas Brasileiras: Uma Possibilidade para o Ensino de Química Articulado com a Lei 11.645/2008”, Vanuchi e Braibante apresentam a descrição química desses corantes naturais, bem como, algumas das comunidades que as utilizam. No quadro 1, esquematizo as informações trazidas pelas pesquisadoras.
É a partir da estrutura molecular dos pigmentos (Figura 2) que a Química orgânica é escolhida como disciplina base para a abordagem, sendo objeto didático de estudo as funções orgânicas, como alcoóis, aldeídos, cetonas, éter e ésteres.
AZUL JENIPAPO
Acima estão representadas as moléculas de dois importantes compostos orgânicos de origem vegetal:
A: Genipina (Genipin), uma aglicona derivada do iridóide glicosídeo geniposídeo, extraída do fruto da Gardenia jasminoides. A genipina é um composto químico orgânico incolor que atua como corante natural. Quando entra em contato com aminoácidos (proteínas) na presença de oxigênio, ela reage espontaneamente formando um pigmento que varia do azul-escuro ao preto. É encontrada e extraída principalmente de duas espécies de plantas: Jenipapo (Genipa americana): fruto nativo da América Tropical amplamente utilizado na cultura indígena. Em tupi, "jenipapo" significa fruta que serve para pintar e Gardênia (Gardenia jasminoides): planta ornamental rica em um composto percursor chamado geniposídeo. Uma aglicona derivada de um iridóide glicosídeo é a porção não glicídica (sem açúcar) que resulta da clivagem (quebra) de um iridóide glicosídeo. Para entender o conceito, os termos podem ser divididos da seguinte forma: Glicosídeo: é uma molécula em que um carboidrato (açúcar) está ligado a outra molécula orgânica por meio de uma ligação glicosídica. Iridóides: é uma classe de metabólitos secundários encontrados em plantas (frequentemente associados à defesa contra herbívoros). Estruturalmente, são monoterpenos bicíclicos, em sua maioria caracterizados por um anel ciclopentano fundido a um anel de seis membros com um oxigênio (pirano). Aglicona: também chamada de genina, é a estrutura química de base que sobra e ganha atividade biológica quando a molécula de açúcar é removida do glicosídeo.
B: Brasilina (Brazilin), é um homoisoflavonóide tetracíclico encontrado no cerne do Pau-Brasil (Paubrasilia echinata). Trata-se do precursor incolor que, ao sofrer oxidação natural pelo oxigênio e pela luz, transforma-se em brasileína, o corante vermelho historicamente utilizado para o tingimento de tecidos.
Jenipapeiro, árvore nativa das Américas do Sul e Central, comum em matas úmidas. É uma fruta oval, de casca parda e polpa aromática, com sabor agridoce, rica em ferro e vitamina C. (face).
Furto de jenipapo (insta). A árvore do jenipapo, cientificamente chamada de Genipa americana, pertence à família das Rubiáceas, a mesma do café. Esta espécie pode atingir de 8 a 20 metros de altura, com frutos que se desenvolvem entre setembro e abril, e sua maturação pode levar até um ano. O fruto do jenipapo é utilizado na produção de doces, licores, xaropes e bebidas, além de ter aplicações na medicina caseira e na indústria de tintas e rituais indígenas de pintura corporal.
"Jungle blue", corante natural. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou oficialmente o uso do corante azul extraído do jenipapo, fruta nativa da América do Sul. A autorização marca um avanço significativo na busca por ingredientes naturais e sustentáveis na indústria alimentícia, ao mesmo tempo em que abre caminho para inovações sensoriais e visuais no mercado. A liberação nacional acompanha movimentos internacionais. No último mês, o corante também foi regulamentado para uso em toda a região do Mercosul, incluindo Argentina, Paraguai e Uruguai, além de países associados. Ainda no início deste ano, o Codex Alimentarius, referência mundial em normas alimentares, reconheceu o ingrediente, enquanto o FDA (Food and Drug Administration), autoriza seu uso nos Estados Unidos desde dezembro de 2023. (minasumluxo, UESB).
(UESB)
(UESB)
Tons azuis do corante de jenipapo (imagem fonte: UESB). Pesquisadores de universidade brasileira desenvolveram duas técnicas eficientes para transformar o extrato de jenipapo em um corante em pó de alta qualidade: Secagem por pulverização (spray drying): método tradicional e de baixo custo, semelhante ao processo usado para fazer leite em pó. Encapsulamento em lipossomas seguido de liofilização: Técnica inédita na área que envolve proteger o corante em pequenas bolhas de gordura (lipossomas) e depois desidratá-lo sob congelamento e vácuo (liofilização). Esses processos garantem estabilidade ao produto final. O formato em pó facilita o armazenamento, aumenta o tempo de conservação e otimiza o uso industrial. O corante natural azul de jenipapo surge como um substituto seguro aos aditivos sintéticos, cujo consumo frequente está associado a riscos à saúde. Suas principais aplicações incluem: Alimentos e bebidas: Formulação de produtos com apelo natural. Cosméticos: Pigmentação de maquiagens, cremes e produtos capilares. Farmacêutica: Colorização de comprimidos, xaropes e cápsulas. Na natureza, pigmentos azuis que permanecem estáveis durante o processamento industrial são extremamente raros. Isso torna essa inovação tecnológica um diferencial estratégico e valioso para o mercado global.
VERMELHO URUCUM
Bixa orellana L. 1753, também conhecida como urucum, é um arbusto ou pequena árvore nativa do México e da América Central e do Sul. Essa planta é mais conhecida como fonte de urucum, um condimento natural vermelho-alaranjado obtido dos arilos cerosos que cobrem suas sementes. As sementes moídas são amplamente utilizadas em pratos tradicionais da América Central e do Sul, México e Caribe, e Brasil. O urucum e seus extratos também são usados como corante alimentar industrial para adicionar cor amarela ou laranja a muitos produtos, como manteiga, queijo, margarina, sorvetes, carnes e condimentos. Alguns povos indígenas do México, América Central e do Sul usavam originalmente as sementes para fazer tinta corporal vermelha e batom, além de usá-la como tempero. Por esse motivo, a Bixa orellana às vezes é chamada de árvore do batom.
Urucum, Bixa orellana L. (fonte: J.M.Garg. WP)
O urucum Bixa orellana L. é um elo perfeito entre a sabedoria ancestral, conhecimento etnobotânico e química orgânica prática. Os povos indígenas dominam processos químicos complexos há milênios, sem precisar de laboratórios modernos.
Elaborei uma explicação de como a extração do corante Bixina funciona na prática e na ciência:
O corante do urucum é constituído principalmente por dois pigmentos orgânicos da família dos carotenoides: a bixina (majoritária) e a norbixina.
Uma perspectiva antropológica: o contexto cultural
Para muitas etnias, como os Yanomami e os Xavante, o urucum vai além da estética. Ele carrega significados sociais, espirituais e utilitários:
Pintura Corporal: Identifica o status social, clãs e rituais.
Proteção: Atua como protetor solar natural contra UV e possui ação de repelente de insetos.
Espiritualidade: Conecta o indivíduo com o sagrado e com a floresta.
O método tradicional de extração varia, mas geralmente envolve coletar as sementes maduras e processá-las com água ou óleos vegetais (como o de pequi ou de babaçu).
O Método de Extração e sua Química
As sementes do urucum são cobertas por um arilo vermelho-alaranjado ricamente carregado de pigmentos chamados carotenoides. O segredo da extração indígena reside no princípio químico da solubilidade.
1. Extração por fricção mecânica e suspensão (via aquosa)
Muitas comunidades indígenas colocam as sementes em água morna e as esfregam manualmente.
A química por trás
O principal pigmento do urucum é a bixina (um dicarboxilato de monometilo apocarotenoide). Em sua forma natural, a bixina é lipossolúvel (dissolve-se bem em gordura) entretanto é pouco solúvel em água fria.
O processo
A fricção mecânica arranca fisicamente o arilo da semente. A água morna ajuda a amolecer essa camada protetora, criando uma suspensão (as partículas do corante ficam suspensas na água, e não totalmente dissolvidas). Quando a água evapora ou é filtrada, resta uma pasta vermelha densa.
2. Extração por afinidade química (via oleosa)
Para pinturas corporais duradouras, os indígenas misturam as sementes diretamente com óleos ou gorduras vegetais quentes.
A química por trás
Aqui aplica-se a regra clássica da química: "semelhante dissolve semelhante". Como a bixina possui uma longa cadeia de carbonos (caráter hidrofóbico/lipofílico), ela tem altíssima afinidade com as moléculas de gordura.
O Processo
O óleo extrai o pigmento da semente com extrema eficiência a nível molecular. O resultado é uma tinta homogênea, brilhante e resistente à água (suor e chuva), permitindo que a pintura corporal dure dias na pele.
3. Estabilização e Fixação
Em alguns preparados, cinzas de madeira ou seivas de outras plantas são adicionadas à mistura.
A química por trás
As cinzas são alcalinas (básicas). Quando adicionadas à bixina, ocorre uma reação de saponificação ou decréscimo de acidez que transforma a bixina em norbixina (que é hidrossolúvel). Isso altera sutilmente a cor (deixando-a mais avermelhada ou amarelada) e ajuda a fixar o pigmento na pele ou nos tecidos de fibra vegetal.
O corante do urucum é constituído principalmente por dois pigmentos orgânicos da família dos carotenoides: a bixina (em maior quantidade) e a norbixina.
Suas fórmulas químicas estruturais são detalhadas a seguir:
1. Bixina. É o principal pigmento responsável pela cor amarelo-avermelhada, compondo cerca de 80% dos pigmentos da semente. É um composto lipossolúvel (solúvel em gorduras e óleos). Fórmula molecular: C25H30O4. Características: É um diapo-carotenoide que possui um grupo éster metílico e um grupo de ácido carboxílico na cadeia.
2. Norbixina. É derivada da bixina. É um composto hidrossolúvel (solúvel em água) obtido pela remoção ou hidrólise do éster metílico da bixina. Fórmula molecular:C24H28O4. Características: É um ácido dicarboxílico que apresenta coloração laranja-avermelhada intensa.
Segundo França (2018), atualmente o mercado de corante de urucum corresponde a aproximadamente 90% do total do consumo de corantes naturais no Brasil e em torno de 70% de corantes naturais no mundo, podendo ser obtido em diversas tonalidades, que vão do laranja, amarelo, ocre, vermelho e castanho. Sua aplicação abrange desde a indústria de alimentos, até outros segmentos industriais, tais como têxtil, cosmético e farmacêutico. Economicamente a cultura das sementes do urucum é feita em sua maioria pela agricultura familiar, que produz mais de 13 toneladas por ano; sendo os maiores produtores as regiões Sudeste (37%), Norte (27%) e Nordeste (22%).
Particularmente no Brasil, as sementes do urucum são utilizadas para fabricar o colorífico, popularmente conhecido como colorau, e também para a obtenção dos colorantes bixina, norbixina e norbixato, comercializados na forma de pós, extratos líquidos e pastas (FREIRE, 2017).
Os colorantes mais importantes das sementes do urucum, como vimos, são a bixina, norbixina e norbixato ambas pertencentes à classe dos carotenóides. A norbixina é encontrada em pequenas quantidades na semente, e a bixina, é o colorante majoritário, representando aproximadamente 80% do total de carotenóides presentes na semente (FAO, 2006).
A fórmula molecular da bixina C25H30O4 (figura abaixo), contém um ácido carboxílico e um éster metílico nas extremidades e ocorre naturalmente na forma cis e com intensa insaturação, que lhe conferem grande instabilidade, sensível a fatores como alta temperatura, luminosidade, oxigênio e baixo pH. Logo a cis-bixina, pode ser facilmente convertida em seu isômero trans-bixina, que é a forma mais estável que tem propriedades semelhantes à forma cis; o isômero trans também exibe uma cor vermelha em solução, e solúvel em óleos vegetais. Sob condições específicas de temperatura e pH, a bixina pode ser convertido na cis-norbixina, de fórmula molecular C24H28O4 (figura abaixo), solúvel em água, isto é, a ácido dicarboxílico que é solúvel em solventes polares e fornece uma cor laranja (SANTOS, 2013; ALBUQUERQUE E MEIRELES, 2011; BARBOSA, 2009).
(Fonte: insta)
O gênero e Bixa. Tanto a especie Bixa arborea quanto a B. excelsa e B. urucarana possuem a tintura na casca, que é usada pelas comunidades indígenas tanto para extração de fibras quando para coloração das fibras e tecidos bem como da pintura corporal. A espécie Bixa urucurana Willd. é a forma silvestre do urucum (Bixa orellana L.), uma espécie de arbusto ou arvoreta neotropical nativa da América do Sul. Embora frequentemente tratada como sinônimo taxonômico do urucum domesticado, ela se destaca por seu porte, ambiente e importância histórica. As principais características e fatos sobre a espécie Bixa urucurana incluem, seu habitat, que diferente da espécie domesticada, ocorre espontaneamente e é frequentemente encontrada em ambientes ripários e áreas aluviais na região amazônica, no Cerrado e na Mata Atlântica. Pesquisas botânicas apontam essa variedade como o ancestral silvestre do urucum cultivado, com origem na porção norte da América do Sul (como Pará e Rondônia).
Bixina e Norbixina. De forma geral a bixina, na sua forma natural cis, é insolúvel, já na sua forma trans, é lipossolúvel, logo empregada em laticínios, como margarina, queijos, manteiga, e em outros produtos oleosos; já a norbixina, na sua forma cis é hidrossolúvel e na forma trans é 20 21 lipossolúvel, logo mais amplamente aplicada na produção de iogurtes, sorvetes, refrigerantes, cervejas e à formulação de alguns tipos de queijo (TOCCHINI & MERCADANTE, 2001; EMBRAPA, 2009). (França, 2028).
Os pesquisadores também descrevem o modo como determinadas comunidades indígenas realizam a extração dos pigmentos. Um caso interessante é o do urucum, em que comunidades diferentes realizam distintas formas de obtenção da coloração desejada: os Asurini do Trocará (TO), os Xikirin (PA) e os Karajá (MT) amassam as sementes com as mãos e espalham pelo corpo.
os Xerentes (TO) obtêm a tintura por meio da fervura prolongada da semente de urucum e após esfriar, espalham pelo corpo.
os indígenas do Alto Xingú ralam as sementes, peneiram e fervem em água até formar uma pasta.
É a partir desse saber tradicional de extração que os pesquisadores realizam uma atividade experimental de teste de solubilidade de pequenas amostras de urucum (sementes), mogno (casca), jenipapo (polpa do fruto) e açafrão (tubérculo) em diferentes solventes: água, álcool etílico, acetona, diclorometano e hexano.
História e Cultura indígena na aula de Química e Arte
Pela primeira vez, o Brasil terá um Ministério dos Povos Indígenas, sendo a deputada eleita Sônia Guajajara a primeira ministra da pasta. Essa maior visibilidade na política institucional da pauta indígena poderá fornecer para os professores caminhos para implementação da lei 11.645/2008 que obriga a inclusão da História e Cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros em todo o currículo escolar. Mas não cabe só ao professor essa tarefa. Secretarias Municipais e Estaduais de Educação deverão fornecer aos educadores formação adequada para a implementação da lei 11.645/2008 na sala de aula.
O relato de experiência da professora e mestra Vânia Vanuchi, atualmente doutoranda na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, planejado e analisado por um aparato acadêmico, mostra como a teoria e a prática docente podem estar politicamente engajadas com a ruptura de ideias racistas que fundamentam o pensamento social brasileiro, sem minimizar o conteúdo curricular. Vanuchi e Braibante materializam no ensino de Química uma célebre frase de Paulo Freire: “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”.
TINTAS ANCESTRAIS
Os povos originários produzem suas próprias tintas a partir de sementes, minerais e plantas das florestas. As cores que mais aparecem são:
o vermelho, obtido do urucum;
o preto, fornecido pelo sumo do jenipapo misturado à fuligem (carvão);
o amarelo, extraído do açafrão e o branco da tabatinga (argila).
O ocre foi a primeira pintura no mundo. Foi usado em todos os continentes habitados desde que se começou a pintar. Seu amarelo escuro está presente nas pinturas nas paredes de Aquidauana e Rio Verde. No Japão e nos Estados Unidos. Assim como na Sibéria e na França. Na Itália, há um vale com dez mil desenhos gravados nas rochas.
Esses "petroglifos" do Vale Camonica indicam que ali viveram povos que contavam histórias desenhando nas paredes. Todos têm a cor ocre. É a cor por excelência de todos os povos primitivos.
O ocre é uma substância denominada óxido de ferro. Na Antiguidade, o melhor ocre era o existente na cidade de Sinope, na Turquia atual, e era tão valioso que era envolvido em couro e marcado por um selo especial. Era chamado de "sinope selado". Os primeiros povoadores brancos da América do Norte chamaram os indígenas de "índios vermelhos" pelo modo que pintavam seus corpos com um ocre amarelo-avermelhado. Era tido como uma couraça contra o mal, como símbolo positivo do mundo. Também acreditavam que os protegiam do frio e insetos. Mas apesar desse tom do ocre da América do Norte, a palavra "ocre" procede do grego e significa "amarelo pálido", cor das terras daquela região. E nisso há quase unanimidade, o ocre é da cor da terra para inumeráveis povos.
(Lorenzetto, 2023).
As tintas são compostas basicamente por três componentes:
1) um aglutinante, (cola, óleo, goma laca ou compostos sintéticos)
2) os pigmentos, (que conferem cor a tinta)
3) cargas e solventes. Esses componentes são essenciais para garantir que a tinta tenha a consistência adequada para aplicação, facilitando a cobertura e a aderência às superfícies. Basicamente, os solventes atuam como um meio de transporte para os pigmentos e resinas presentes na tinta, permitindo que esses componentes se espalhem uniformemente.
Quando aplicada sobre uma superfície, a tinta, forma um filme que, quando seco, tem função decorativa ou de proteção.
OCRE, LARANJA E VERMELHO
Colorau (urucum) é um ótimo pigmento natural para criar tintas artesanais com tons entre o laranja e o vermelho, um tipo de ocre.
Para usar em papel ou tela, você precisa misturá-lo com um aglutinante (como cola branca) e um pouco de água para que a tinta fixe bem e não descasque.
Receita básica de tinta de colorau
Para preparar a sua tinta em casa, siga estas proporções simples:
2 colheres de sopa de colorau em pó
3 a 4 colheres de sopa de água morna
2 colheres de sopa de cola branca líquida.
Passo a passo de preparo
1) Dissolva o pó: Coloque o colorau em um potinho e adicione a água aos poucos. Misture bem até formar uma pastinha lisa e sem pelotes.
2) Dê liga: Adicione a cola branca e mexa sem parar até a mistura ficar uniforme. A cola serve como "cola mágica" que prende o pó do colorau no papel ou na tela.
3) Ajuste o tom: Se quiser uma tinta mais escura, use menos água. Se quiser mais clara, adicione mais água ou mais cola.
Fonte
Ficou interessado pelo universo dos corantes e como o conhecimento de povos originários podem ser integrados ao ensino de Química? Leia o artigo produzido por Vanuchi e Braibante na íntegra:
VANUCHI, Vânia da Costa Ferreira; BRAIBANTE, Mara Elisa Fortes. O uso de corantes naturais por algumas comunidades indígenas brasileiras: uma possibilidade para o ensino de química articulado com a Lei 11.645/2008. Revista Debates em Ensino de Química, v. 7, n. 2, p. 54-74, 2021.
Disponível em:






















