MERDA DE ARTISTA
O Valor áureo do excremento: a estética radical de Piero Manzoni
A obra mostrada é “Merda d’artista” (1961), criada pelo artista italiano Piero Manzoni. Ela consiste em latas lacradas que, segundo ele, conteriam suas próprias fezes. A proposta não era chocar apenas por chocar, mas fazer uma crítica ao mundo da arte e ao valor que as pessoas dão às obras só porque foram feitas por um artista famoso. Piero Manzoni foi um artista ligado à arte conceitual, um movimento que valoriza mais a ideia do que a aparência da obra. Ele gostava de provocar o público e questionar o que realmente faz algo ser considerado arte. Para isso ele precificou o valor de cada lata ligando-a ao preço da mesma massa de ouro. Se colecionadores querem algo do artista nada mais intimo do que isso: isso pertence mesmo ao artista.
Em maio de 1961, o artista de vanguarda italiano Piero Manzoni (1933-1963) chocou o circuito cultural ao lacrar 90 latas de metal cilíndricas (com 6,5 cm de diâmetro e 4,5 cm de altura), rotuladas em quatro idiomas (italiano, inglês, francês e alemão) com a inscrição: "Merda d'Artista. Conteúdo líquido 30g. Conservada ao natural. Produzida e empacotada no mês de maio de 1961." O que parecia uma provocação escatológica juvenil revelou-se um dos mais profundos e impiedosos manifestos contra o mercado e o fetiche da mercadoria artística no século XX.
Piero Manzoni. “Merda do artista”. Contendo 30 g. Preservada fresca.
Produzido e enlatada em Maio de 1961.
A exaltação das fezes como relíquia artística
Manzoni elevou os dejetos corporais ao status máximo de pureza criativa por meio do viés conceitual. Em uma carta enviada em dezembro de 1961 ao seu amigo Ben Vautier, ele explicou a lógica por trás do ato: "Se os colecionadores querem algo íntimo, realmente pessoal do artista, há a própria merda do artista, isso é realmente dele".
Ao fazer isso, Manzoni operou uma ironia hiperbólica sobre os conceitos de autoria e autenticidade. Inspirado nos readymades de Marcel Duchamp e no conceito de fetiche da mercadoria de Karl Marx, ele sugeriu que a genialidade mítica atribuída ao artista era capaz de transmutar qualquer resíduo biológico em algo sagrado. As fezes tornaram-se a extensão máxima da corporalidade criativa, superando seus trabalhos anteriores com balões inflados com seu hálito (Fiato d’artista) ou ovos cozidos marcados com sua impressão digital.
A Estratégia de Comercialização
A venda das latas foi estruturada sob uma crítica ácida ao sistema econômico. Manzoni determinou que cada lata contendo 30 gramas de excremento deveria ser comercializada exatamente pelo preço equivalente ao seu peso em ouro puro de 24 quilates. Na época, o valor estipulado foi de aproximadamente $37 dólares americanos por unidade.
Esta indexação direta ao ouro escancarou a volatilidade e o absurdo da precificação da arte. Manzoni provou que o valor de um objeto no mercado de arte não reside em sua matéria-prima ou valor de uso, mas sim no poder abstrato da assinatura do autor e na especulação financeira.
Onde estão as latas hoje e seu Valor de Mercado
Seis décadas após a sua criação, as latas originais transformaram-se em verdadeiros tesouros institucionais e objetos de desejo de bilionários.
Onde estão localizadas: Muitas das 90 unidades originais encontram-se acervadas permanentemente em grandes museus globais, como a Tate Modern em Londres, o Centre Pompidou em Paris, o Museum of Modern Art (MoMa) em Nova York e o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAN). Outras permanecem guardadas sob estrito sigilo por colecionadores privados que competem ferozmente em leilões.
Preço estimado atual: O valor de mercado das latas originais superou, de longe, a valorização do próprio ouro. Atualmente, em leilões de prestígio conduzidos por casas como a Sotheby´s e a Christie´s, uma lata original de Merda d´Artista esta avaliada entre $200.000 e $300.000 dólares. Em dezembro de 2016, a lata de número 69 atingiu o recorde histórico de venda na casa de leilões Il Ponte, em Milão, arrematada por 275.000 euros (o equivalente a cerca de $290.000 dólares na época).
Curiosamente, o mistério sobre o verdadeiro conteúdo das embalagens permanece intacto. Como abrir a lata destruiria o próprio objeto de arte e seu valor milionário, ninguém jamais confirmou oficialmente se o que há dentro é realmente excremento ou apenas gesso, perpetuando a maior piada conceitual da história da arte moderna.
Piero Manzoni (13 de julho de 1933 – 6 de fevereiro de 1963) foi um artista italiano bastante conhecido pela sua abordagem irônica frente à arte.
Piero Manzoni. “Merda do artista”. Contendo 30 g. Preservada fresca.
Produzido e enlatada em Maio de 1961.
Piero Manzoni se tornou referência por uma série de obras que põem em questão o objeto de arte, em relação direta com a conceitual.
Seu trabalho raramente é feito com materiais de arte comuns, tinta, pincel, gravura, gesso, pedra, etc., em vez disso o artista constrói seu discurso usando desde pele de coelho à excrementos humanos, de modo a “explorar fontes mitológicas e realizar os valores autênticos e universais “.
Uma de suas obras “Artist’s Shit” (“Merda de Artista”) é um trabalho de 1961 que consiste em 90 latas cheia de fezes do artista, cada uma pesando cerca de 30 gramas e medindo 4,8×6,5cm.
A lata ainda vem com o seguinte rótulo descritivo nas línguas, italiano, francês, alemão e inglês:
Quando o trabalho foi criado, Piero Manzoni estava produzindo uma série de trabalhos que exploravam a relação entre arte e produção humana. Uma curiosidade: esta lata foi vendida por € 124.000 pela Sotheby em 23 de maio de 2007.
Em outubro de 2008, a lata 083 foi colocada novamente à venda na Sotheby com uma estimativa de £50-70,000.
Ela acabou sendo vendida por £ 97.250. As latas foram originalmente avaliadas de acordo com o seu peso equivalente ao ouro – $37 cada, em 1961. Uma loucura, não?
Fonte
CELANT, Germano. Piero Manzoni: Catalogo generale. Milão: Skira, 2004.
GRAW, Isabelle. "Some work went into this: Piero Manzoni, ‘Merda d’artista’, 1961". Texte zur Kunst, Edição 134.
THOMPSON, Jon. "Manzoni’s Critical Reification". In: Piero Manzoni: Paintings, Reliefs & Objects. Londres: Serpentine Gallery, 1998.
FONDAZIONE PIERO MANZONI. La Merda d'Artista: Historical Context and Epistolary Archive. Milão.
TATE MODERN. "Excremental value: Piero Manzoni's 'Merda d'artista'". Tate Etc. Issue 10, 2007.



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