sexta-feira, 18 de setembro de 2026

DO BIDIMENSIONAL AO 3D

INTRODUÇÃO A ESCULTURA

Do bidimensional ao tridimensional

A transição da superfície plana para o espaço físico é um dos momentos mais fascinantes da expressão humana, marcando o nascimento da escultura. Enquanto o desenho e a pintura simulam a profundidade por meio de ilusões ópticas, a escultura ocupa o espaço real, convidando o espectador a orbitar a obra e a percebê-la sob múltiplos ângulos e estímulos luminosos. Essa mudança da bidimensionalidade para a tridimensionalidade transforma a contemplação estética em uma experiência sensorial e tátil, onde o volume, a massa e o vazio dialogam diretamente com o ambiente ao redor.

Ao longo da história da arte brasileira, grandes mestres moldaram a identidade cultural do país conferindo tridimensionalidade às nossas dores, crenças e identidades. 
No período colonial, Antônio Francisco Lisboa (1738-1814), o Aleijadinho, tornou-se a referência máxima do Barroco e do Rococó com suas esculturas em pedra-sabão e madeira, repletas de expressividade e dramaticidade.
Séculos mais tarde, o Modernismo trouxe a força de Victor Brecheret (1894-1955), responsável por introduzir a geometrização e a monumentalidade em nossas praças, a sensibilidade de Bruno Giorgi (1905-1993), cujas formas fluidas e vazadas capturaram o espírito utópico e arquitetônico de Brasília e Amilcar de Castro (1920-2002), aprofundaram a geometrização e a matematicidade nas obras, através do Movimento Neoconcreto, consolidou uma linguagem artística única baseada em dois gestos fundamentais sobre o metal pesado: o corte e a dobra.
 
Sobre a obra de Amilcar de Castro

Método Construtivo. Amilcar trabalhava a partir de um bloco ou chapa maciça de aço (frequentemente aço carbono ou aço Corten). Sem adicionar ou desperdiçar material através de soldas ou descartes, ele fazia incisões precisas na placa e a dobrava. Diálogo com o Espaço: A dobra criava uma abertura tridimensional, transformando uma matéria plana e bidimensional em uma escultura volumosa que criava "vazios" e novos pontos de equilíbrio. 

Estética da Matéria. Suas obras pesavam toneladas, mas transmitiam uma sensação de leveza poética, como se o aço rígido e espesso tivesse sido manuseado com a suavidade de uma folha de papel. A oxidação natural do ferro também era integrada como cor e textura da própria obra. 

Legado Extrínseco
Presença Urbana: Suas esculturas monumentais integram a paisagem urbana de diversas cidades brasileiras, com forte presença em praças públicas e museus de Belo Horizonte e São Paulo. 
Memória: Hoje, o acervo e a memória de sua produção são preservados pelo Instituto Amilcar de Castro em Nova Lima (MG), que reúne centenas de suas criações.

Amilcar de Castro (MAC-USP) (1)

Amilcar de Castro em Porto Alegre.

Amilcar de Castro

Amilcar de Castro


Peter Callsen (1967- )

Peter Callesen
Peter Callesen (nascido em 1967) como um dos nomes mais poéticos e inovadores da escultura contemporânea. Com formação inicial em arquitetura antes de migrar para as artes plásticas no Goldsmiths College de Londres, Callesen revolucionou a arte conceitual ao transformar um objeto cotidiano e banal, a folha de papel branco no formato A4, em um campo de infinitas possibilidades narrativas e existenciais. Por meio de cortes cirúrgicos meticulosos e dobraduras precisas feitos a partir de uma única folha, ele eleva silhuetas bidimensionais a complexas figuras tridimensionais, como castelos, esqueletos e pássaros. O grande trunfo de sua estética reside na íntima relação entre presença e ausência: ao manter a escultura conectada ao espaço vazio deixado pelo corte no papel original, Callesen materializa uma profunda dicotomia sobre a impermanência, a fragilidade humana e o limiar trágico-romântico entre a fantasia e a realidade.

Peter Callesen

Peter Callesen (mymodernmet)

Peter Callesen (mymodernmet)

Peter Callesen (mymodernmet)

Peter Callesen (mymodernmet)

Peter Callesen (mymodernmet)

Peter Callesen (mymodernmet)

Peter Callesen (mymodernmet)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callsen (creative)

Peter Callesen (mymodernmet)

Mauritis Cornelis Escher (1898-1972)

Maurits Cornelis Escher (1898–1972) foi um dos artistas gráficos mais famosos do mundo, célebre por suas xilogravuras, litografias e meios-tons que desafiam a lógica visual. Nascido na Holanda, o artista ganhou reconhecimento internacional ao unir arte, matemática e ilusão de ótica, criando estruturas arquitetônicas impossíveis e preenchimentos geométricos perfeitos. 
Biografia resumida e Trajetória
Escher nasceu em Leeuwarden e manifestou interesse pelo desenho desde jovem. Ele ingressou na Escola de Arquitetura e Artes Decorativas de Haarlem, onde seu mentor, Samuel Jessurun de Mesquita, o incentivou a focar nas artes gráficas. 
A sua grande virada estética ocorreu após viagens à Itália e à Espanha. Ao visitar o palácio de Alhambra, em Granada, Escher ficou fascinado pelos mosaicos de arte islâmica. Essa experiência inspirou o desenvolvimento de sua técnica de tesselação (a divisão regular do plano usando figuras geométricas entrecruzadas que se transformam).
Pilares de sua Obra
O trabalho do artista opera na fronteira entre a ciência e o surrealismo, destacando-se por:
Geometria e Simetria: Exploração minuciosa de reflexões, rotações e translações de figuras.
Construções Impossíveis: Cenários que desafiam as leis da gravidade e as regras tradicionais de perspectiva.
Explorações do Infinito: Padrões repetitivos que diminuem ou aumentam progressivamente, sugerindo uma continuidade sem fim.

Mauritis Cornelis Escher (1898-1972)

Mauritis Cornelis Escher (1898-1972)

Mauritis Cornelis Escher (1898-1972)

Bert Simons
O designer e artista visual holandês Bert Simons (formado pela prestigiada Design Academy Eindhoven em 1991) uma mente brilhante na intersecção entre o artesanato tradicional e a tecnologia digital. Sediado em Roterdã, Simons ganhou projeção global na primeira década dos anos 2000 ao subverter o conceito de retrato com suas esculturas tridimensionais hiper-realistas feitas inteiramente de papel. Seu processo meticuloso e vanguardista inicia-se com o mapeamento facial por pontos (técnica similar à captura de movimento do cinema), cujos dados são processados no software de código aberto Blender para gerar uma textura plana e texturizada que ele imprime, recorta à mão e cola cirurgicamente ao longo de vários dias. O resultado de seus "clones" biodegradáveis, que retratam desde amigos até figuras públicas como o ex-prefeito de Roterdã, provoca um profundo efeito estético e psicológico de "vale da estranheza" (uncanny valley), desafiando nossas percepções sobre a identidade, a mortalidade e os limites entre o orgânico e o virtual na era da replicação digital.



Bert Simons
Retrato e máscara de papel vestível do Sr. Ivo Opstelten, prefeito de Roterdã entre 1999 e 2008. Dediquei os últimos dois meses a este retrato, ao todo, 248 horas de trabalho. Além do retrato em papel, também confeccionei uma máscara vestível que aparece em um curta-documentário de Jup de Heer sobre o Sr. Opstelten.

Bert Simons (em primeiro plano a obra Clone, autorretrato)
Bert Simons é um artista visual holandês amplamente conhecido por criar esculturas de papel hiper-realistas em 3D. Embora ele não possua uma página biográfica dedicada na Wikipédia em português, seu trabalho inovador é internacionalmente reconhecido no circuito da arte contemporânea e do design digital. O processo criativo de Simons mistura técnicas de modelagem digital avançada com escultura tradicional em papel: 
1) Ele começa mapeando o rosto de uma pessoa real com pequenos pontos de referência (similar à captura de movimento do cinema).
2) Esses dados são transferidos para o software de modelagem 3D de código aberto Blender, onde ele reconstrói a textura realista da pele e das feições.
3) Por fim, o modelo tridimensional é "achatado" de volta para o formato 2D, impresso e montado meticulosamente à mão para criar os impressionantes retratos físicos.

Bert Simons

Bert Simons

Bert Simons. Autorretrato

Bert Simons

Bert Simons. Processo de produção das esculturas de papel.

Bert Simons. Processo de produção das esculturas de papel e madeira.


Outros artistas, outras obras
em papel









Brasil

A evolução da escultura no Brasil também desafiou as próprias barreiras físicas da matéria no século XX, integrando o espectador de forma ativa. Artistas como Lygia Clark (1920-1988) e Hélio Oiticica (1937-1980), através do movimento Neoconcreto, romperam com o conceito tradicional de estátua estática e contemplativa. Com os seus famosos Bichos, Lygia Clark criou estruturas geométricas de metal articuladas que o público precisava manipular para que a escultura existisse plenamente. Assim, a arte tridimensional brasileira consolidou-se como um campo aberto de experimentação, onde o espaço, o objeto e o corpo humano fundem-se em um único acontecimento.

Lygia Clark. Bichos.

Lygia Clark. Bichos.

Hélio Oiticica

Hélio Oiticica

Hélio Oiticica. Penetrable. (1)

Hélio Oiticica. Hélio Oiticica, maquete para Subterranean Tropicália Projects: PN15 Penetrable, 1971 (FOTO: MIGUEL RIO BRANCO; CÉSAR E CLAUDIO OITICICA Reprodução. dasartes)


PAPECRAFT

Na contemporaneidade, essa passagem ganha novos contornos com práticas acessíveis e inovadoras, como a escultura em papercraft. Essa técnica traduz perfeitamente a jornada entre as dimensões: folhas de papel inicialmente planas, impressas com padrões bidimensionais, são meticulosamente cortadas, dobradas e coladas até se transformarem em bonecos e objetos tridimensionais complexos. O papercraft democratiza a linguagem escultórica, unindo a precisão da modelagem geométrica digital à manufatura artesanal, provando que o volume e a tridimensionalidade podem emergir dos materiais mais cotidianos.















Fonte












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