PIGMENTOS USADOS NA ARTE:
ONDE ENCONTRÁ-LOS E COMO RECONHECÊ-LOS
“Por definição há cor,/
Por definição há doce,/
Por definição há amargo,/
Mas na realidade há átomos e espaço.”
(Demócrito de Abdera ca. 460 a.C. - 370 a.C.)
Os pigmentos falam de paixão, paixão em sua criação e em sua aplicação. Eles embelezam nosso mundo com alegria, deleite, simbolismo, proteção, identidade e significado. Permeiam todos os aspectos da vida humana, desde a comida que comemos, as roupas que vestimos e os edifícios que construímos, as casas que moramos. Colorem nossos corpos, por dentro e por fora. Os pigmentos ópticos se transformam e interagem com a luz para que possamos ver forma e cor; os pigmentos dérmicos protegem nossos corpos dos efeitos nocivos da luz ultravioleta do Sol e de picadas de insetos; os pigmentos em nossos alimentos proporcionam deleite aos olhos ou alertam sobre toxicidade.
Os animais dependem dos pigmentos para camuflagem, advertência e conexão. Eles também são os motores que governam o crescimento, o clima e a comida que comemos. Deram forma à nossa expressão artística desde o alvorecer da civilização. São produtos da "sabedoria da Natureza", da forja de Vulcano, dos fornos egípcios, dos povos originários das florestas, dos potes de tinta alquímicos e dos modernos laboratórios e fábricas. Sua marcha através da história humana e o efeito que tiveram sobre essa história são reconhecidos e notáveis. Esta jornada começa há 45.000 anos em cavernas paleolíticas ao redor do mundo. Termina no limiar de um futuro que transformará nossa própria definição de pigmento.
Segundo o magnifico trabalho de Carvalho e Cardozo (2023), os primeiros registros do uso de tintas e pigmentos remetem à arte rupestre, que está presente em todo o território brasileiro, sendo os registros mais conhecidos aqueles encontrados no Parque Nacional da Serra da Capivara, no estado do Piauí, que se destacam pela riqueza estilística, pelas técnicas de execução dos grafismos e também pela diversidade de cores (vermelho, amarelo, cinza, branco e preto), provenientes de óxidos de ferro, argilominerais e carvão. Casos similares também foram descritos em sítios arqueológicos dos estados de Minas Gerais, Bahia e Mato Grosso. (Carvalho e Cardozo, 2023)
Os pigmentos, processados primeiramente de forma empírica e posteriormente por uma tecnologia em desenvolvimento, seja no lar ou na forja, deram origem a algumas das mais notáveis obras de arte já concebidas.
As pinturas descobertas na caverna de Altamira em 1878, na Espanha, criadas há mais de 35000 a 23000 anos (período Aurignaciano), revelam uma criatividade e pensamento abstrato que desmontam por completo o conceito do "homem das cavernas" como um bruto primitivo.
Depois de ver algumas dessas artes rupestres em Lascaux (França), Pablo Picasso (1881–1973) comentou: "Eles inventaram tudo"; tomando "eles" como seus professores, ele desenvolveu seu talento característico de revelar a essência das coisas ao eliminar os detalhes desnecessários que obstruem a percepção verdadeira.
Pablo Picasso; Guernica, (wikiart) e abaixo, obras da caverna de Chauvet.
Um exemplo marcante desta conexão entre a arte rupestre e Picasso é o conjunto de desenhos de rinocerontes da caverna Chauvet. As representações do caos, violência, movimento, força e emoções que as acompanham parecem sinalizar uma conivência entre os artistas envolvidos, embora as pinturas estejam separadas uma da outra no tempo por dezenas de milhares de anos. Além disso, as pinturas da caverna Chauvet foram vistas pela primeira vez por humanos modernos em 1994, mais de 20 anos após a morte de Picasso.
Esta ligação psíquica ao longo de milênios é refletida inúmeras vezes em outras conexões mais concretas no uso de corantes e pigmentos que parecem unir o passado distante ao presente e apontar o caminho para o futuro. (Orna, 2022; Orna e Fontani, 2022).
Esta marcha nunca poderia ter progredido, nem mesmo começado, sem uma parceria íntima com a química. Começando com a lareira comum, uma vez que o Homo sapiens introduziu a realidade da mudança química em atividades rotineiras, essas mudanças encontraram seu caminho cada vez mais nas expressões culturais que chamamos de arte.
Pouco a pouco, a paleta de cores se expandiu, auxiliada pela tentativa e erro dos alquimistas e dos primeiros praticantes da química. Expedições e escavações arqueológicas desenterraram marcos inestimáveis de culturas perdidas que ainda estamos descobrindo hoje. Acompanhado por saltos quânticos ocasionais, a descoberta e o uso de pigmentos avançaram ao ritmo constante do desenvolvimento tecnológico e teórico. Os pigmentos também foram o indicador do progresso econômico e da prosperidade: tanto o desejo quanto a produção de produtos coloridos acompanharam o avanço da civilização.(Orna, 2022).
Independente da época que se esteja tratando, a tinta sempre será constituída por um pigmento, que da cor, e um solvente. A medida que o conhecimento foi aumentando outros constituintes foram agregados a tinta.
Tipos de tintas, composição básica das9 tintas (tintas a base de solvente e a base água. Adaptado Ikematsu (2007).
Constituintes básicos das tintas: Pigmentos e solventes. A resina nas tintas serve como agente ligante, formando uma película sólida que une os pigmentos e garante a aderência, o brilho, a durabilidade e a resistência a intempéries, umidade, abrasão e produtos químicos. Diferentes tipos de resinas oferecem propriedades específicas, como flexibilidade, tenacidade, proteção contra desbotamento e facilidade de limpeza, influenciando a qualidade e longevidade da pintura. Os aditivos adicionados às tintas são substâncias químicas adicionadas para melhorar e modificar características específicas, como a viscosidade, a resistência, a secagem, o brilho e a durabilidade. Eles atuam otimizando o desempenho da tinta, conferindo propriedades que não existiriam na sua formulação básica, tornando-a mais eficiente e adequada para diferentes condições e aplicações. (hmrubber)
Fontes Naturais
Minerais
Argilas, óxidos metálicos e outros minerais são fontes comuns de pigmentos inorgânicos, como o amarelo de ouro (sulfeto de arsênio) e o branco do dióxido de titânio.
Plantas
Muitas plantas produzem pigmentos coloridos que podem ser extraídos e utilizados na fabricação de tintas. Exemplos incluem o açafrão (amarelo), o urucum (vermelho), e pigmentos de várias cascas de árvores e folhas.
Animais
Em alguns casos, pigmentos podem ser obtidos a partir de fontes animais, como o uso de ossos carbonizados para produzir preto ósseo (bone black).
Fontes Sintéticas
Derivados do petróleo
Muitos pigmentos sintéticos são produzidos a partir de derivados do petróleo, pertencentes à química orgânica.
Síntese química
Outros pigmentos sintéticos são criados através de reações químicas específicas, utilizando diversos compostos químicos.
Outras considerações
Aglutinantes
Além dos pigmentos, as tintas também precisam de aglutinantes, que ajudam a fixar a tinta na superfície. Estes podem ser tanto naturais (como óleos, ceras ou resinas) quanto sintéticos (como resinas acrílicas ou alquídicas).
Processo de extração
Os pigmentos naturais são extraídos por meio de processos como cocção, maceração, infusão e turbolização ou turboextração, enquanto os sintéticos são produzidos em laboratório.
Cores e aplicações
A escolha do pigmento depende da cor desejada e da aplicação da tinta. Pigmentos inorgânicos costumam ter boa resistência a condições climáticas e químicas, enquanto pigmentos orgânicos podem oferecer uma gama mais ampla de cores e efeitos no entanto.
A busca por pigmentos envolve o conhecimento sobre geologia, química e arte. As características necessárias para um solo ou argila ser um bom pigmento são bastante específicas. Vamos dividir a resposta em duas partes: as características desejadas e onde encontrá-las.
Neste texto vamos tentar conhecer que características deve possuir o solo/argila (1) para que possamos usá-lo com um bom pigmento para tintas e onde podemos encontrar essas características.
Parte 1: Características Ideais do Solo/Argila para Pigmento
Um bom pigmento mineral (de origem argilosa ou terrosa) deve possuir as seguintes qualidades:
1. Cor Intensa e Pura
O que é: A argila deve ter uma cor forte e característica (ex.: um amarelo vibrante, um vermelho-sangue, um marrom escuro) sem ser "suja" ou acinzentada.
Por que é importante: Define a tonalidade base da tinta. Pigmentos com cores impuras ou baixa saturação produzem tintas pálidas e sujas.
2. Alto poder de cobertura (Poder tintorial):
O que é: A capacidade de uma fina camada de tinta esconder a superfície sobre a qual é aplicada.
Por que é importante: Um pigmento com bom poder de cobertura é mais econômico e eficiente, exigindo menos camadas para obter um resultado uniforme.
3. Estabilidade química (Inércia):
O que é: O pigmento não deve reagir quimicamente com o aglutinante (óleo, ovo, goma arábica etc.) nem com outros pigmentos na mistura. Deve ser resistente à luz (não desbotar com o tempo) e à atmosfera (não oxidar).
Por que é importante: Garante que a cor permaneça inalterada por séculos. Pigmentos instáveis podem escurecer, clarear ou mudar de cor completamente, arruinando uma obra de arte.
4. Textura e Tamanho de Partícula Finos:
O que é: O material precisa ser moído até se tornar um pó extremamente fino.
Por que é importante: Partículas grossas tornam a tinta áspera, de difícil aplicação e com baixo poder de cobertura. A moagem fina garante uma tinta lisa e homogênea.
5. Baixo Teor de Matéria Orgânica e Impurezas
O que é: A argila não deve conter restos de plantas, húmus, ou contaminantes como sal ou gesso.
Por que é importante: Matéria orgânica apodrece, escurece e pode destruir a ligação do aglutinante. Sais e outras impurezas podem migrar para a superfície da pintura formando eflorescências (uma crosta branca).
6. Boa miscibilidade
Deve ser miscivel, i.e., deve dispersar-se uniformemente no meio aglutinante, sem formar grumos.
Por que é importante: É fundamental para a preparação de uma tinta homogênea e de qualidade.
Parte 2: Onde Encontrar Essas Características
(A Origem das Cores)
A cor da argila é o principal indicador de sua composição mineralógica, que por sua vez define suas propriedades como pigmento.
Localização
Barrancos e cortes de estrada
São locais ideais para observar camadas de solo e argila expostas. Procure por faixas de cores vivas (vermelho, amarelo intenso).
Margens de Rios e Córregos
A água expõe e lava as camadas de argila.
Regiões de mineração
Áreas conhecidas por extração de ferro, manganês ou caulim são uma boa fonte.
Evite: Terrenos agrícolas (muita matéria orgânica), áreas poluídas e proximidade com o mar (sais).
Processo Básico de Teste e Preparação
Se você encontrar um material promissor, deve testá-lo:
1. Secagem e Limpeza: Deixe secar ao sol e retire manualmente pedras, raízes e detritos óbvios.
2. Moagem: Quebre os torrões com um martelo e depois moa fino em um pilão ou com um rolo sobre uma superfície dura. Peneire várias vezes (quanto mais fino, melhor).
3. Teste de Lavagem (Levigação): Misture o pó em um recipiente com água. Mexa e deixe decantar. As partículas mais finas e puras (as melhores para pigmento) ficarão suspensas por mais tempo. Despeje a água com essas partículas em outro recipiente e deixe evaporar. Você obterá um pó de qualidade superior.
4. Teste de Ligação: Misture uma pequena quantidade do pó com um aglutinante (ex.: goma arábica diluída em água para aquarela, ou ovo para têmpera) e pinte em um papel. Observe a cor, a textura e, após secar, a cobertura.
Um bom pigmento natural é essencialmente uma argila ou solo rico em óxidos metálicos (principalmente ferro) purificados pelo tempo, livre de contaminantes e de grãos muito finos. A busca por essas cores é uma prática ancestral, e os melhores locais são aqueles onde a geologia expõe essas camadas puras de minerais coloridos.
Fontes de pesquisa
A pesquisa de pigmentos é um campo fascinante que cruza Arte, Química, História, Arqueologia e Ciência dos Materiais.
Aqui está uma curadoria de referências fundamentais, categorizadas para facilitar sua jornada.
1. Referências Canônicas e Obras de Referência (Must-Have)
Estes são livros clássicos, considerados a base para qualquer estudo sério na área.
"Artists' Pigments: A Handbook of Their History and Characteristics" (Series)
Editores: Robert L. Feller, Ashok Roy, Barbara H. Berrie, etc.
O que é: Uma coleção de vários volumes (4 publicados), cada um dedicado a um conjunto específico de pigmentos. Cada capítulo é escrito por um especialista mundial sobre aquele pigmento em particular.
Por que é importante: É a obra de referência mais profunda e academicamente rigorosa. Aborda história, composição química, propriedades ópticas, métodos de identificação e degradação de cada pigmento. Publicada pela National Gallery of Art (Washington) e o Getty Conservation Institute.
"Colour: Making and Using Dyes and Pigments" por François Delamare & Bernard Guineau. O que é: Um livro belamente ilustrado que traça a história dos corantes e pigmentos desde a pré-história até os sintéticos modernos.
Por que é importante: Oferece uma visão geral acessível e visualmente rica, perfeita para contextualizar o uso dos pigmentos ao longo do tempo.
"The Materials and Techniques of Medieval Painting" por Daniel V. Thompson
O que é: Um clássico absoluto, originalmente publicado em 1936. Explica detalhadamente os processos dos artistas medievais: como preparavam seus próprios pigmentos, mediums e tintas.
Por que é importante: É uma janela para a prática tradicional. Se você quer entender a "alquimia" por trás da fabricação de tinta de forma histórica, este é o livro.
2. Recursos Online e Bancos de Dados (Gratuitos e Inestimáveis)
Kremer Pigmente - Pigment Library
O que é: O site da famosa empresa fornecedora de materiais para arte e conservação possui um arquivo digital fantástico. Para centenas de pigmentos, eles fornecem:
Ficha técnica com composição química, índice de cor, etc.
Espectros de Raman e FORS: Ferramentas essenciais para identificação científica.
Fotos de amostras e informações históricas.
Por que é importante: É um recurso prático e técnico, diretamente ligado aos materiais que um artista ou conservador pode comprar hoje.
The Colour Lex
O que é: Um projeto online dedicado a pigmentos específicos. Cada entrada é bem organizada, mostrando a história do pigmento, sua composição, como é feito, onde foi usado em obras de arte famosas e sua paleta de cores.
Por que é importante: Interface amigável e visual, perfeita para uma introdução clara e interessante sobre cada cor.
Websites de Institutos de Conservação
Getty Conservation Institute Publications: Oferecem artigos, vídeos e textos gratuitos sobre ciência da conservação, incluindo análise de materiais.
ICCROM (International Centre for the Study of the Preservation and Restoration of Cultural Property): Oferece recursos e bibliografias sobre conservação.
Museus de renome (como o Rijksmuseum, British Museum, Louvre) frequentemente publicam artigos de seus departamentos de conservação sobre a análise de obras, revelando os pigmentos usados.
3. Canais no YouTube (Aprendizado Visual)
Getty Museum
O que oferece: Possui playlists excelentes sobre conservação e ciência da arte. Seus vídeos mostram o uso de equipamentos como microscópios e espectrômetros para identificar pigmentos em obras reais.
Baumgartner Restoration
O que oferece: Embora focado em restauração, Julian Baumgartner frequentemente discute e identifica pigmentos (especialmente em pinturas a óleo) durante seu processo meticuloso. É uma aula prática de como os materiais se comportam ao longo do tempo.
The Brain Scoop (Field Museum)
O que oferece: Possui episódios específicos e muito bem feitos sobre cores na natureza e em artefatos, explicando a química por trás delas de forma descontraída.
4. Para uma Abordagem Prática e "Faça-Você-Mesmo" (DIY)
"The Organic Artist" e "Make Ink" por Nick Neddo
O que é: Livros focados em criar suas próprias ferramentas artísticas a partir de materiais naturais, incluindo a coleta e preparação de pigmentos de argila, rochas e carvão.
Por que é importante: Conecta a teoria à prática de forma tangível. Perfeito para artistas, educadores e entusiastas que querem experimentar o processo desde a pedra até a tinta.
"Earth Pigments and Paint of the American Southwest" por Mary Lisa Palmer
O que é: Um guia prático focado na rica tradição de pigmentos de terra de uma região específica, mas com princípios universais de identificação, coleta e processamento.
Como Estruturar sua Pesquisa:
1. Interesse Geral: Comece com Colour Lex e Colour: Making and Using Dyes and Pigments para ter uma visão geral cativante.
2. Aprofundamento Técnico: Para um pigmento específico (ex.: Ultramarino, Amarelo de Nápoles, Verde Veronese), consulte o capítulo correspondente nos manuais "Artists' Pigments".
3. Análise Científica: Use o banco de dados da Kremer para acessar dados espectrais e fichas técnicas.
4. Contexto Prático: Assista a vídeos de conservação do Getty para ver como a análise é feita em obras de arte do mundo real.
5. Experiência Prática: Siga os livros de Neddo ou Palmer para sair a campo, coletar argila e fazer sua própria tinta.
Esta caixa de ferramentas de referências o equipará desde o nível do entusiasta curioso até o pesquisador acadêmico. Boa pesquisa
Reconhecer pigmentos minerais para a produção de tintas é uma habilidade que combina geologia, química e tradição artesanal.
Aviso de Segurança Importante
Antes de começar, use sempre Equipamento de Proteção Individual (EPI):
Máscara respiratória (N95/P2 ou superior): A inalação de pó de minerais é EXTREMAMENTE perigosa. Muitos são metais pesados tóxicos (como chumbo, arsênio, mercúrio) ou sílica, que causa silicose.
Luvas e óculos de proteção.
Roupa que cubra braços e pernas.
Trabalhe em área bem ventilada, de preferência ao ar livre ou com exaustor.
Método passo a passo para reconhecimento de pigmentos
1. Prospecção e identificação inicial (no campo ou na amostra)
O primeiro passo é encontrar e identificar rochas e minerais com potencial.
Cor: Procure por rochas com cores vibrantes, intensas e consistentes. A cor do mineral em sua forma maciça (o "veio" na rocha) é um ótimo indicador.
Vermelhos/Alaranjados: Óxidos de ferro (Hematita, Goethita).
Amarelos: Ocre amarelo (Limonita/Goethita).
Castanhos: Ocre castanho (Limonita com mais impurezas).
Verdes: Cloritas, Glauconita, Malaquita (mais rara).
Azuis: Azurita (rara, mas excelente pigmento).
Brancos: Caulino, Giz (calcário), Gipso (gesso).
Pretos: Óxidos de Manganês (Pirolusita), Carvão vegetal/moído.
Traço ou Risco: Este é o método mais confiável para identificar um mineral pigmentar.
1. Pegue um fragmento do mineral.
2. Raspe-o contra a superfície de uma placa de porcelana não vidrada (disponível em lojas de geologia). Se não tiver, use o fundo áspero de um tile de cerâmica ou uma pedra lisa e dura.
3. Observe a cor do pó deixado na placa. Esta é a cor aproximada que o mineral terá como pigmento.
Exemplo: A Hematita (prateada ou escura) deixa um traço vermelho-tijolo. A Pirita (ouro tolo) deixa um traço preto, indicando que não serve para pigmento dourado.
Textura e Dureza: Minerais macios e terrosos (que se desfazem facilmente com a pressão de uma faca) são os ideais, pois são mais fáceis de moer. Exemplos: ocres, caulino. Minerais muito duros como o quartzo são difíceis de processar e não produzem cor intensa.
2. Coleta e Preparação
1. Colete pequenas quantidades da rocha ou solo colorido.
2. Quebra: Use um martelo de geólogo para quebrar as rochas em pedaços bem pequenos (< 2 cm). Coloque-as dentro de um saco resistente para martelar e evitar que fragmentos voem.
3. Moagem: Este é o passo crucial para transformar a rocha em pigmento.
Pilão e Morteiro: O método tradicional. Use um morteiro de aço ou pedra basáltica. Moa os fragmentos até obter uma textura de areia fina.
Moinho ou Gral: Para uma moagem mais fina e homogênea, use um moinho manual (de café, por exemplo, dedicado apenas a isso) ou um gral de porcelana. O objetivo é obter um pó o mais fino possível.
3. Purificação (Opcional, mas recomendado)
Para obter cores mais puras e intensas, é necessário separar o pigmento das impurezas (como areia e siltes).
Levigação (Sedimentação):
1. Coloque o pó moído em um recipiente transparente (um frasco de vidro grande é ideal).
2. Adicione água até quase encher e agite vigorosamente.
3. Deixe repousar por alguns segundos. As partículas mais pesadas (areia e impurezas) vão decantar (assentar) no fundo primeiro.
4. Despeje cuidadosamente a água turva (que contém as partículas mais finas do pigmento) em outro recipiente.
5. Repita o processo várias vezes no primeiro recipiente até a água sair limpa.
6. A água turva recolhida no segundo recipiente deve ser deixada em repouso por várias horas ou dias para que o pigmento fino se assente no fundo.
7. Escorra a água com cuidado e seque a pasta de pigmento ao sol ou num local quente.
4. Teste do pigimento (a hora da verdade)
Agora é testar se o pó realmente funciona como tinta.
Preparação do Medium: Os pigmentos puros precisam de um aglutinante para se fixarem a uma superfície. Você pode testar com:
Óleo: Óleo de linhaça (tradicional para tinta a óleo).
Ovo: Gema de ovo (têmpera à ovo).
Acrílico: Medium acrílico transparente.
Água e Goma Arábica: Para aquarela.
Leite ou Caseína: Uma opção tradicional.
Mistura: Em uma superfície lisa (placa de vidro, pedra), misture uma pequena quantidade do pigmento com algumas gotas do medium escolhido, moendo com uma espátula (processo de "moagem da tinta"). A proporção geral é de 1 parte de medium para 2 partes de pigmento, mas varie conforme a necessidade.
Aplicação: Use um pincel para aplicar a tinta caseira em um pedaço de papel, madeira ou tela. Observe:
Poder de Cobertura (Opacidade): Ela cobre bem a superfície?
Intensidade da cor: A cor é forte e vibrante?
Textura: A tinta é homogênea ou granulada? Se for granulada, precisa ser moída mais finamente.
Resumo dos principais métodos de reconhecimento
1. Traço (Risco): O método mais importante. Mostra a verdadeira cor do pigmento.
2. Moagem: Teste se o mineral produz um pó fino e colorido.
3. Levigação: Purifica e confirma a qualidade da cor.
4. Teste com Medium: Confirma o comportamento do pigmento como tinta.
Reconhecer pigmentos minerais é uma jornada de experimentação. Comece com os mais comuns e seguros, como os ocres (hematita e goethita), e sempre priorize a segurança.
(Continuará...)
Exemplos comuns de pigmentos orgânicos incluem as famílias químicas como Azo, Ftalocianina, Quinacridona, Perileno, Antraquinona, Dioxazina, Pirrol, Isoindolina, e o Negro de fumo. Estes pigmentos são derivados do petróleo ou do carvão e são usados para dar cor em diversas aplicações, como plásticos, tintas, cosméticos e têxteis.
Exemplos por família química:
Azo:
Produz cores como amarelo, laranja e vermelho. É uma das famílias mais antigas e historicamente significativas de pigmentos orgânicos sintéticos.
Ftalocianina:
Conhecidos por tons de azul e verde vibrantes e brilhantes, com boa estabilidade.
Quinacridona:
Utilizada para produzir tons de vermelho, magenta e violeta, com excelente estabilidade à luz, calor e solventes.
Perileno:
Outra família de pigmentos que oferece uma gama de cores vibrantes, frequentemente em tons de vermelho.
Antraquinona:
Oferecem cores que variam do amarelo ao vermelho e violeta.
Dioxazina:
Conhecidos por suas cores intensas e são amplamente utilizados na indústria.
Pirrol:
Fornecem cores vermelhas e laranjas brilhantes e são usados em revestimentos.
Isoindolina/Isoindolinona:
Outra família de pigmentos sintéticos que contribuem com cores vibrantes.
Negro de Fumo:
Um pigmento orgânico muito conhecido pela sua alta opacidade, estabilidade à luz e durabilidade, sendo uma exceção a outros pigmentos orgânicos em relação à toxicidade.
Fonte
ESCÓLIOS
“Eu diria que a impressão é a imagem dialética, a conflagração de tudo isso: algo que nos diz tanto do contato (o pé que afunda na areia) quanto da perda (a ausência do pé na sua impressão); algo que nos diz tanto do contato da perda quanto da perda do contato [...]” (DIDI HUBERMAN, 2008, p. 18).
(DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Editora 34, 1998.)
Didi-Huberman esclarece que Benjamin considerava a “imagem dialética” como “lugar por excelência, onde se poderia considerar o que nos olha verdadeiramente no que vemos”. Acrescenta que a noção benjaminiana de ‘legibilidade’ “deve ser compreendida como um momento essencial da imagem mesma”, pois a “leitura” ou “olhar crítico” possibilita indicar sem explicar ou constituir através da linguagem a “conflagração temporal em obra, ainda ilegível”. A língua seria, portanto, o lugar de ligação entre palavra e imagem – para Benjamin, essa ligação é sempre dialética, inquieta, aberta, em suma, sem solução (BENJAMIN, 1984; 1993 apud DIDI-HUBERMAN, 1998, p. 169-184)





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