sábado, 27 de setembro de 2025

COMO FAZER CARVÃO PARA DESENHO

COMO FAZER CARVÃO PARA DESENHO 
BASTÕES (STICKS) DE CARVÃO MOIDO 

I
Como Fazer Seu próprio carvão para desenho

Modificado de: The Arty Teacher 

Este post do blog ARTE LIVRE explora como fazer materiais para pintura, como giz pastel oleoso e seco, pigmentos e corantes para tintas e carvão para desenho. 

Varetas de carvão já prontas para desenho.

Na prática de hoje vamos aprender uma receita fácil para produzirmos nosso próprio carvão para usarmos em nossos desenhos nas aulas de arte.

É uma honra unir duas paixões que mediam nossa existência no mundo: a arte e a química! Fazer seu próprio carvão para desenho é um processo mágico, quase uma alquimia. Escolher a madeira, limpá-la, cortá-la do tamanho apropriado e queimá-la é um processo cheio conhecimento que o homem acumulou ao longo de sua evolução.

Claro que para executar essa tarefa é necessário tomarmos bastante cuidado pois estaremos lidando com materiais cortantes, como um estilete ou faca, e com fogo que pode ser bem perigoso, caso não seguirmos regras estritas de segurança. 

O autor da receita enfatiza que seria necessário um estudo minucioso de risco para realizarmos essa atividade com alunos na escola, mas seria uma experiência memorável para todos. Memorável, pois além de aprender a fazer o seu próprio material estaremos aprendendo noções de ciência dos materiais, transformações químicas, decomposição, fenômenos físicos e químicos, além de noções de cuidados básicos e de segurança no trabalho. 


Introdução 

Desde os primórdios da arte, o carvão acompanhou a humanidade como um dos materiais mais simples e eficazes para registrar imagens. As primeiras evidências do seu uso remontam ao Paleolítico Superior (cerca de 40.000–10.000 anos atrás), período em que grupos de caçadores-coletores desenvolveram a pintura parietal e rupestre em cavernas da Europa, África e Ásia.

O carvão vegetal, obtido da combustão incompleta (pirólise) de ramos de árvores, oferecia uma vantagem notável: era fácil de produzir, transportável, aderente a superfícies rochosas e permitia traços tanto finos quanto áreas de sombreamento. Seu contraste marcante sobre a pedra clara tornava-o ideal para esboçar contornos de animais, figuras humanas e símbolos abstratos.

Nas cavernas de Chauvet e Lascaux (França), datadas de mais de 30 mil anos, vemos bisões, cavalos e leões delineados com carvão. Frequentemente, os artistas combinavam carvão com pigmentos minerais, como ocre vermelho (hematita) e amarelo (goethita), criando composições policromáticas. O carvão servia como "primeira linha" de desenho, e muitas vezes como reforço de sombras, sugerindo volume e movimento.

Além de instrumento gráfico, o carvão também tinha uma função ritual e simbólica. Em algumas culturas, sua presença em contextos funerários ou rituais indica que não era apenas um recurso prático, mas também carregava valor espiritual, talvez ligado ao fogo, à transformação e à ideia de passagem entre mundos.

Com o passar do tempo, o uso do carvão nas paredes não desapareceu. Ele permaneceu como recurso gráfico durante a Antiguidade, sendo usado em esboços sobre argamassa, em afrescos e em inscrições. Contudo, é na arte paleolítica que encontramos o registro mais fascinante: o momento em que um pedaço carbonizado de madeira se transformou em ferramenta de comunicação simbólica, fixando na pedra a memória de caçadas, mitos e cosmovisões.

Assim, o carvão, obtido da queima incompleta da madeira não foi apenas um resíduo do fogo, uma transformação pelo fogo: foi um dos primeiros instrumentos de arte da humanidade, marcando o nascimento da pintura e da narrativa visual nas paredes de cavernas e posteriormente de templos.

A madeira é constituída basicamente de compostos de carbono. 
Esses compostos de carbono se enquadram principalmente em três tipos distintos também chamados de biopolímeros. São três os biopolímeros constituintes da madeira: celulose, hemicelulose e lignina, estes formam as paredes celulares da madeira, além de água e outros compostos chamados extrativos. 
A proporção desses componentes varia entre espécies, influenciando a densidade e outras propriedades físicas da madeira. 

Estrutura geral da madeira

A madeira é um tecido vegetal secundário, formado pelo xilema produzido pelo câmbio vascular. É composta essencialmente por paredes celulares lignificadas e por um espaço capilar que pode conter água, resinas, óleos e outras substâncias. Sua composição depende da espécie, da idade da árvore, da parte do tronco e das condições ambientais.

Constituintes sólidos (matéria seca da madeira)

São aqueles que permanecem após a secagem completa (remoção da água). Representam a parte estrutural da madeira.
Os principais são:

1. Celulose (40–50%)
Polissacarídeo linear, principal componente das paredes celulares.
Confere resistência mecânica e elasticidade.

2. Hemiceluloses (20–30%)
Mistura de polissacarídeos ramificados (xilanas, mananas, glucanas).
Amarram as microfibrilas de celulose, funcionando como matriz de ligação.

3. Lignina (20–30%)
Polímero aromático tridimensional.
Confere rigidez, impermeabilidade e resistência ao ataque microbiano (defesa)
Torna a madeira resistente à compressão.

4. Extrativos sólidos (1–10%)
Taninos, gomas, pigmentos, cristais minerais (como oxalato de cálcio, sílica).
Influenciam cor, cheiro, durabilidade natural e resistência a insetos/fungos.

Constituintes líquidos

São os conteúdos não estruturais que se encontram nos lúmens (cavidades celulares) e nos capilares da madeira.

Água livre: presente nos lúmens celulares. Sai facilmente no processo de secagem.
Água de impregnação / higroscópica: ligada às paredes celulares (por pontes de hidrogênio). É mais difícil de remover.
Resinas, óleos, ceras: presentes em canais secretores (especialmente em gimnospermas como pinheiros). Conferem odor, proteção contra patógenos e valor econômico.
Seiva: seiva elaborada, ou fotossintatos, uma solução aquosa com açúcares, sais minerais, aminoácidos (presente em tecidos vivos como o alburno) que se move pelos vasos do floema. Seiva bruta: solução de água e sais que sobre da raiz em direção a parte aérea da planta via vasos do xilema

Constituintes voláteis

São substâncias que se desprendem da madeira quando aquecida ou degradada:

Água (liberada na secagem inicial).
Compostos orgânicos voláteis (COVs): aldeídos, álcoois, terpenos, fenóis. São responsáveis pelo aroma característico de certas madeiras (cedro, pinho, eucalipto).
Produtos da pirólise (quando a madeira é queimada sem oxigênio): gases combustíveis como monóxido de carbono, dióxido de carbono, metano, hidrogênio e vapores de alcatrão.


Diferenças básica entre espécies

As proporções de hemicelulose, lignina e extrativos variam de acordo com o tipo de madeira. Por exemplo: 

Madeiras macias (resinosas) 
Madeiras macias como pinho e cedro, o salgueiro, tendem a ter mais extrativos, o que lhes confere odor característico. 

Madeiras duras (folhosas)
Madeiras duras como carvalho, o pinheiro brasileiro, a laranjeira e nogueira, apresentam maior teor de hemicelulose e lignina. 

Todos esses três biopolímeros são constituídos de moléculas cuja base é o carbono. Para transformamos a madeira (e todos os seus biopolimeros de carbono) em carvão vegetal, devemos usar um processo conhecido como “pirólise”. 

A palavra pirólise, vem do grego antigo, πῦρ pyr, fogo e λύσις, lýsis, separação, quebra. Logo, a pirólise é um processo que envolve a separação de ligações covalentes na matéria orgânica (os biopolímeros) por decomposição térmica dentro de um ambiente inerte sem oxigênio.

Podemos dizer também que é o processo de decomposição térmica de materiais em temperaturas elevadas em uma atmosfera inerte. Esse processo envolve uma mudança na composição química.

Em termos mais simples, para obtermos carvão, ou seja carbono, é preciso pegar um pouco de madeira, colocá-la em um recipiente quase hermeticamente fechado e, em seguida, aquecer o recipiente até que tudo dentro dele, exceto o carbono, tenha evaporado.

Material e método 

Para isso você vai precisar:

1) Madeira: Pode ser vara ou graveto. Vime é recomendado, mas não pode estar verde demais. É necessário remover a casca com uma faca afiada. Seja o que for que usar, ela irá reduzir para cerca de metade do diâmetro.

2) Recipiente metálico: Uma lata de tinta nova e vazia ou uma lata de café são ideais.

3) Martelo e prego para fazer furos na tampa do recipiente.

4) Areia.

5) Fogo: Pode ser uma churrasqueira, um fogão a lenha ou qualquer coisa que seja grande o suficiente para cercar seu recipiente com brasas quentes.

Método: Como proceder 

1) Encha um quarto de um recipiente (uma lata metálica por ex.) com areia e corte as varas ou gravetos de madeira para que caibam dentro desse recipiente.

Lata com 1/3 de areia (fonte:1)

2. Encha o recipiente com areia até cobrir os gravetos completamente.

Recipiente com os gravetos  com a areia. (1)

3. Faça alguns furos na tampa do recipiente com um martelo e um prego.

4. Coloque o recipiente na vertical ou na horizontal e cubra-o completamente com lenha ou carvão.

Lata coberta com carvão em uma churrasqueira. (1

5. Acenda o fogo na churrasqueira ou a lareira. Mantenha o recipiente cercado por brasas para que o calor seja distribuído uniformemente.

Fogo aceso. Deixar queimado por 40 a 60 min dependendo da quantidade de gravetos. (1)

6. Quando o recipiente estiver frio, você pode abri-lo, mas com cuidado pois a areia dentro do container ainda pode estar quente.

Depois de be frio abrir a lata  despejar com cuidado o conteúdo sobre um jornal. Guardar a areia e o carvão pronto para ser usado. (1)

Quando tudo estiver completamente frio, despeje a areia e as varetas (agora carvão) em um jornal. Separe o carvão da areia.

(fonte: 1)

(fonte: 1)

Use o jornal para despejar a areia de volta no recipiente para reutilização.

Nota
Você pode repetir o processo usando a mesma areia várias vezes, mas o recipiente pode sofrer desgaste após cerca de três usos, pois com calor ocorre a oxidação do metal da lata tornando-a frágil e quebradiça. 

A Alquimia do carvão artístico: por que funciona?

Quimicamente, a carbonização remove água, materiais voláteis e transforma a celulose e a lignina da madeira, deixando praticamente carbono puro. É esse carbono que dá a cor preta intensa e a aderência única ao papel. A qualidade do seu carvão depende do tipo de madeira e do controle do processo.

Método 1: A lata no fogo (o clássico)

Materiais Necessários:
Galhos de madeira macia: Salgueiro, videira, sabugueiro (o ideal!) ou até mesmo gravetos de árvore frutífera (limpos e sem seiva).
Uma lata de metal com tampa: Lata de leite em pó, de azeite, etc. Forte e resistente ao calor.
Um prego e martelo.
Fonte de calor: Fogão a lenha, fogueira controlada ou churrasqueira.
Pinça longa ou luvas térmicas.

Processo passo a passo (o ritual)

1.  Preparação dos galhos: Corte os galhos no tamanho desejado para seus desenhos (cerca de 10-15 cm). Descasque-os. Eles devem estar totalmente secos.
2.  Preparação da lata (a câmara de combustão): Faça um pequeno furo na tampa da lata com o prego e martelo. Este buraco é crucial! Ele permite a saída dos gases da combustão, evitando que a lata exploda devido à pressão.
3.  Carregamento: Encha a lata com os galhos, mas sem compactar demais. Deixe algum espaço para a circulação de ar. Note que este método não leva a areia do método anterior.
4.  A carbonização (o fogo controlado):
   Tampe a lata firmemente.
   Coloque a lata diretamente nas brasas de uma fogueira ou no carvão em brasa de um churrasco. Não a coloque diretamente nas chamas altas, pois o calor excessivo e desigual pode queimar a madeira em vez de carbonizá-la.
   Deixe a lata no fogo por 1 a 3 horas. Você verá uma fumaça saindo pelo buraco na tampa. Inicialmente será uma fumaça branca/azulada (vapor e alcatrão) e depois ficará bem fina e quase invisível. Quando a fumaça parar de sair, é um bom sinal de que o processo está completo.
5.  O resfriamento (a paciência):
    Aqui está o segredo! Com muito cuidado, use a pinça ou luvas para retirar a lata do fogo. NÃO ABRA A LATA!
    Deixe a lata esfriar completamente, de preferência até o dia seguinte. Se você abrir a lata enquanto ainda estiver quente, o oxigênio entrará e o carvão irá queimar instantaneamente em cinzas, arruinando todo o trabalho.


Método 2: O Pote de Barro (para os puristas)

É similar ao método da lata, mas usando um pote de barro (florero) com tampa. A vedação não precisa ser perfeita. O processo é exatamente o mesmo: encha, tampe, coloque no fogo e esfrie completamente antes de abrir. O pote de barro pode ser descartado depois, pois provavelmente irá rachar.


Dicas do Artista-Químico

Escolha da Madeira
Melhores: Salgueiro e videira são os padrão-ouro. Produzem um carvão denso, quebradiço e de preto intenso.

Boas Alternativas
Galhos de laranjeira, limoeiro ou outras frutíferas.

Evite: Madeiras resinosas (como pinheiro), a resina queima de forma irregular e suja o carvão.

Espessura dos Galhos: Galhos finos (3-8 mm) serão mais quebradiços e ideiais para esboços e sombreamentos leves. Galhos mais grossos (1-2 cm) serão mais duráveis, ideais para traços fortes e blocos de cor.

Acabamento: Depois de frio, você pode "lixar" levemente as pontas do carvão em uma lixa para madeira para afiá-las ou criar pontas mais precisas.

Fixador Caseiro: Seu carvão caseiro será mais frágil que o industrial. Para fixar o desenho, você pode fazer um fixador spray caseiro diluindo cola branca (PVA) em água (proporção 1:4) e borrifando levemente sobre o desenho finalizado.


II

OUTRAS VARIANTES:
Carvão para desenho comum: feito por pirolisar (queimar sem oxigénio) madeira, tronco ou ramos.

Dois tipos: carvão vegetal (videira ou salgueiro), solto e macio; carvão comprimido, mais escuro e firme (feito a partir de pó de carvão + aglutinante).

Segurança: faça ao ar livre, longe de materiais inflamáveis, use luvas, óculos, máscara contra pó e muita ventilação, tanto durante a carbonização quanto ao moer.

O que acontece (explicação química simples) com a madeira numa combustão controlada com pouco oxigênio?

A madeira aquecida em ambiente com pouco ou nenhum oxigênio sofre pirólise: a celulose/lignina se decompõem, liberando voláteis (gases, alcatrões) e sobrando carbono estrutural, o carvão. Sem oxigénio evita-se combustão completa (cinzas + CO₂) e obtém-se material poroso, escuro e facilmente riscável.
Método caseiro, carvão de salgueiro ou videira

Materiais

1) Ramos secos de salgueiro, tília, amieiro, videira, ou de ramos de arvores frutíferas como limoeiro , laranjeira ou pedaços de madeira fina, cortados em 15 a 20 cm.

2) Lata metálica com tampo (ex.: lata de biscoito) ou tambor metálico com tampa; faz-se um pequeno furo na tampa.

3) Fogo de chão / fogueira segura.

4) Alicates, pinça longa e luvas térmicas (opcionais).

Passos

Preparar a madeira: ramos secos, sem casca solta, cortados. Madeira verde não funciona bem (vai estourar e produzir muita fumaça).

Colocar na lata: encha a lata com os ramos, feche (deixe um pequeno furo para saída de gases, isso controla a entrada de oxigénio).

Aquecimento (pirolisar): coloque a lata sobre uma fogueira. Aqueça por 1–2 horas até a fumaça espessa diminuir e depois ficar quase sem saída de fumaça, sinal de que os voláteis reduziram.

Apagar e resfriar: retire com alicate, tampe bem (ou enterre) para cortar o oxigénio e deixe esfriar totalmente (pode demorar). Abrir cedo significa que o carvão vai incendiar-se e transformar-se em cinzas.

Remover e limpar: retire o carvão; quebre em pedaços do tamanho desejado e raspe a camada mais frágil se quiser superfície mais limpa.

Armazenamento: seco, em caixa de papelão, evita humidade.

Dicas artísticas

Ramos finos (videira) dão carvão muito macio e ideal para esboço e sombreamento.

Madeira mais densa dá pedaços mais firmes, útil para traços mais escuros controlados.

III
Como fazer carvão comprimido (sticks): 
receita caseira básica


Carvão comprimido = pó de carvão + aglutinante (goma arábica é clássico e não-tóxico).

Materiais

Carvão vegetal moído fino (passe por peneira).

Goma arábica (solução aquosa ~10% peso/volume), ou cola de celulose ou cola PVA diluída (menos tradicional).

Opcional: kaolin/argila branca em pequena proporção para aumentar aderência / dureza.

Moldes (tubos, canudos, formas) ou simplesmente molde manual.

Fôrma/lixa para acabamento.

Proporção indicativa (comece com isso e ajuste)

4–6 partes de pó de carvão : 1 parte de solução de goma arábica (10%)

Se usar argila: substituir ~10–20% do pó por argila para dar “dureza”.

Passos

Moer: triture o carvão até pó fino (morteiro, pilão ou moinho). Evite nuvens de pó, use máscara.

Misturar: junte o pó com pequena quantidade da solução de goma arabica até formar uma pasta plástica (não muito líquida). Ajuste a quantidade de goma para consistência que dê coesão.

Moldar: enrole em cilindros com papel manteiga, coloque em moldes ou comprima com uma faca ou espátula em formas apropropriadas.

Secagem: deixar secar lentamente à sombra em local ventilado; secagem rápida ao sol pode rachar. Quando seco, é sólido e parecido com bastões comerciais.

Acabamento: lixe pontas, corte no comprimento desejado, enrole com papel para evitar sujeira nas mãos (opcional).

Fazer lápis de carvão

Método simples: fazer um bastão comprimido fino e inserir em um tubo de madeira (ou pegar um lápis oco). Ou usar canudos de papel rígido como “casca” temporária.

Profissionalmente usa-se grafite/charcoal “mine” fabricada e colocada em corpo de madeira com cola; fazer em casa é trabalhoso mas possível com molde e cascas de madeira cortadas.

Técnicas e uso do carvão (dicas de artista)

Fixador: o desenho a carvão é frágil e mancha. Use fixador spray (caseiro: mistura muito fraca de goma arábica + álcool, o melhor é comprar um fixador pronto.

Borrar vs apagar: esfuminos, pincéis e dedos espalham; borrachas maleáveis são ideais para realces.

Combinações: carvão vegetal + carvão comprimido para variedade de valores; use papel rugoso (120–300 g/m²) para boa aderência.


Segurança (repetindo: Muito importante)

Faça as carbonizações ao ar livre. Risco de incêndio e inalação de fumaça/tóxicos (alcatrões).

Proteja mãos evolhos; máscara P2/N95 ao moer pós e ao misturar aglutinantes.

Não descarte alcatrão ou líquidos de pirólise no solo (caso se formem no interior da lata), contenha e descarte conforme normas locais (pequenas quantidades oriundas de hobby normalmente podem ser secas e descartadas como resíduo sólido).

Aviso de Segurança Não pule esta parte!

Sempre trabalhe em área aberta e bem ventilada. O processo libera monóxido de carbono e outros gases tóxicos.
Tenha extintor de incêndio ou balde de areia por perto.
Use luvas térmicas e proteção para os olhos. O metal da lata fica incandescente.
Nunca, jamais, tente fazer isso dentro de casa ou em um apartamento.
Informe outras pessoas sobre o que você está fazendo.

Fazer seu próprio material é conectar-se com a essência da arte e de nossa própria evolução. Cada galho carbonizado terá uma textura e um comportamento únicos no papel. A imperfeição é parte da beleza.

Crianças só sob supervisão estrita.


Agora você não é apenas um artista, é um alquimista de traços e sombras.
Boa experiência e ótimos desenhos!




Fonte






terça-feira, 23 de setembro de 2025

PERFORMANCE

 A ARTE DA PERFORMANCE



A performance como disciplina artística: definição sintética

A performance, no sentido que aqui nos interessa, é uma prática artística temporal, muitas vezes efêmera, centrada numa ação realizada (ou encarnada) por um artista perante uma audiência ou perante o espaço público, em que o processo e a presença corporal constituem o próprio “suporte” da obra, mais do que um objeto perene. 
Trata-se portanto de uma modalidade em que o evento, a sua duração e a relação com o público (presencial ou mediado) são primaciais, primordiais; registos fotográficos ou audiovisuais funcionam frequentemente como documentos secundários e são tratados como registro do que aconteceu. (Encyclopedia Britannica).

Genealogia e precursores históricos

A genealogia da “performance art”, da arte da performance é complexa e entrelaça-se com várias tradições culturais e vanguardas do século XX:

Antecedentes rituais e dramáticos, elementos “performativos” existem em ritos comunitários, tragédias gregas e festivais populares; esses antecedentes demonstram que a ação encarnada como tecnologia de sentido antecede a modernidade ocidental. (Encyclopedia Britannica)

Vanguardas históricas, Futurismo, Dada e os cabarés (p. ex. Cabaret Voltaire) trouxeram o gesto performativo ao âmbito artístico: eventos, leitura performática e escânda­los como práticas que borram os limites entre arte e vida. 
RoseLee Goldberg e outros historiadores traçam essa continuidade entre os eventos das vanguardas e a performance contemporânea. (damianofina.it)

“Happenings” (acontecimentos) e “intermedia”, surgidos no final dos anos 1950 e início da década de 1960, por artistas como Allan Kaprow formularam os happenings: obras-evento que valorizavam ação quotidiana, participação e a indeterminação do resultado. Estes eventos foram fundamentais para deslocar o foco do objeto para a ação processual. (The Art Story)

Fluxus, body art e conceitos correlatos
Fluxus (George Maciunas, Yoko Ono, Nam June Paik, entre outros) e artistas do “Body art” e do “desmaterializado” (Lucy Lippard) consolidaram a noção de que a arte pode residir em ações, instruções e rituais corporais que recusam a mercadoria tradicional (o objeto material da arte). (Performance Art Resources)

Marcos canônicos nas artes visuais (seleção crítica)

A seguir, mostro algumas performances que funcionam como nós de referência na historiografia contemporânea:

Yves Klein, Anthropometries (1960): uso do corpo como “pincel” e encenação pública que questiona as categorias de pintura e ação. Visto como antecedente imediato da “performatividade” na arte. (damianofina.it)


Allan Kaprow, 18 Happenings in 6 Parts (1959): estabelecimento do happening como forma, sublinhando participação e processo. (Monoskop)

Carolee Schneemann “Meat Joy” (1964) e “Interior Scroll” (1975): confrontos com a sexualidade, corporalidade e tabus, articulando feminismo, corpo e espetáculo. (Wikipedia)

Joseph Beuys, ações e discursos (anos 60–70): mitopoética autobiográfica, ampliação do conceito de arte (“social sculpture”). (Encyclopedia Britannica)

Vito Acconci, “Seedbed” (1972) e Chris Burden, “Shoot” (1971): exploração dos limites do risco, intimidade e relação artista-público; exemplares da chamada “endurance” e da performance de risco. (Wikipedia)

Marina Abramović, “Rhythm 0” (1974), The Artist Is Present (2010): testes extremos de vulnerabilidade e presença (endurance, confiança, responsabilidade do espectador). Abramović tornou-se paradigma do corpo-como-meio. (Wikipedia)

Ana Mendieta, Regina José Galindo, Tania Bruguera: referências que deslocam a performance para o campo do trauma, política identitária, territorio e corpo como arquivo político. (Wikipedia)

Esses marcos não apenas documentam operações estéticas, mas constituem genealogias conceituais, cada obra reconfigura relações entre corpo, linguagem, instituição e sociedade.

Conceitos centrais e tipos de performance

Alguns conceitos que atravessam a prática:

Happening/evento: ação participativa, muitas vezes não especificada e aberta ao acaso. (Monoskop)

Body art/arte corporal: uso explícito do corpo do artista como matéria-prima. (Encyclopedia Britannica)

Endurance art: ênfase na duração e sobrecarga física/psíquica (e.g. Abramović). (Wikipedia)

Fluxus/intermedia: obras breves, frequentemente baseadas em instruções, que dissolvem categorias disciplinares. (Performance Art Resources)

Diferenças disciplinares: 
performance art × teatro × dança 
× artes visuais

Uma das questões centrais para historiadores e críticos é demarcar, sem simplificações, o que distingue a performance na arte dos outros ramos performativos.

Performance art vs. Teatro

O teatro tradicional estrutura representação e ficção: atores interpretam papéis num enredo predeterminado; existe uma “moça” de representação que sustenta a ilusão dramática. 
A performance art tende a rejeitar a ilusão ficcional em favor da “presença real”, aquilo que Victor Turner chamou de distância entre rito e espetáculo, e que críticos contemporâneos rearticulam como a diferença entre “fazer” e “fingir”. Em muitos trabalhos de performance art a dor, o risco e a ação são efetivos (não simulados), o que cria uma ética distinta em relação ao teatro. No entanto, as fronteiras são porosas: vários projetos contemporâneos misturam dramaturgia e prática performativa. (The Guggenheim Museums and Foundation)

Performance art vs. Dança

A dança formal (e disciplinas derivadas) produz técnicas codificadas, repertório e treino corporal específico (virtuosismo motor). A performance art pode incorporar movimento, mas geralmente não subordina a ação a técnicas codificadas nem à estética do virtuosismo; em vez disso, prioriza a ideia, o gesto, a relação com o público e a contingência. Ainda assim, há híbridos (performances coreográficas experimentais) que cruzam ambos os campos. (Culturebot)

Performance art vs. Artes Visuais 
(pintura, escultura, instalação)

Nas artes visuais a ênfase histórica recai sobre objetos permanentes; a performance desloca a materialidade para o tempo e o corpo. Contudo, a performance frequentemente articula-se com instalação e vídeo (ex.: ações entre objetos, site-specific), e as instituições museológicas passaram a colecionar documentação, comissariar performances e comissionar trabalhos ao vivo. A chamada “desmaterialização” da obra (conceitualismo dos anos 60–70) é ponto de contato entre performance e práticas conceituais. (Encyclopedia Britannica)

Problemas metodológicos e éticos para o crítico-historiador

A prática performativa coloca desafios singulares: ephemeridade, dependência de testemunho, fragilidade documental e questões éticas (quando a ação implica dano, risco ou exploração). 
O historiador deve equilibrar descrição atenta (cronologia, contexto institucional, biografia) e leitura crítica, sem reduzir a obra a mero espetáculo sensacionalista. Documentação audiovisual é útil, mas é insuficiente para abarcar a experiência vivida e as relações de presença e responsabilidade entre artista e audiência. (Monoskop)

Contribuições teóricas e política da performance

A performance reconfigura categorias de autoria, propriedade e público. A partir dos anos 60 a performance foi veículo de críticas ao mercado de arte (Fluxus), de afirmação de identidades marginalizadas (feminismos, pós-colonialismo) e de experimentos coletivos. Teóricos e curadores (RoseLee Goldberg; institutos como Performa) ajudaram a consolidar um campo que hoje articula pesquisa, comissionamento e práticas públicas. (Monoskop)

Síntese interpretativa (valor crítico)

Do ponto de vista estético e historiográfico, a performance é uma prática que radicaliza a pergunta sobre “o que é arte?”: desloca o centro da obra do objeto para o acontecimento, problematiza a divisão entre vida e arte e faz da presença, do risco e da responsabilidade estética os seus meios cognitivos. Como forma de investigação artística, a performance permanece um laboratório privilegiado para testar limites éticos, políticos e ontológicos da produção cultural contemporânea.


Fonte



Mansur Ramires, N. M. O que é performance? Entre contexto histórico e designativos do termo. (2017). 


Bibliografia consultada (seleção comentada)

(As entradas abaixo correspondem às fontes utilizadas para os trechos mais decisivos do texto.)

RoseLee Goldberg, Performance: Live Art Since the 60s, panorama canônico e genealogia crítica que conecta vanguardas históricas e práticas contemporâneas. (Monoskop)

Encyclopaedia Britannica, verbetes “performance art” e “body and performance art”, definição sintética e histórico-crítica útil para delimitação conceitual. (Encyclopedia Britannica)

Monografias e PDFs sobre happenings e Kaprow; arquivo Monoskop com materiais sobre 18 Happenings in 6 partes. (Kaprow como nodo fundacional dos eventos artísticos processuais.) (Monoskop)

Artigos de síntese sobre Fluxus, intermedia e a “desmaterialização” da arte (coleções e recursos críticos). (Performance Art Resources)

Textos e listas históricas que documentam performances canônicas (Abramović, Burden, Acconci, Schneemann) e a categoria endurance art. (Wikipedia)


sexta-feira, 15 de agosto de 2025

TINTAS E PIGMENTOS PARA ARTE

TINTAS PARA GRAVURA
1. XILOGRAVURA


"Todo mundo sabe o que é fazer uma impressão, todo mundo sabe fazer, todo mundo, um dia ou outro, a fez, nas marcas dos passos sobre a areia da praia, nos dedos manchados de tinta ou em frottages de moedas sobre uma folha de papel".
Georges Didi-Huberman (1997).


Breve história da Xilogravura:
Origem, evolução e uso contemporâneo (1)

A xilogravura é uma das técnicas de impressão mais antigas do mundo, consistindo na gravação de imagens em uma matriz de madeira, que depois é entintada e pressionada sobre papel ou tecido. Sua história atravessa séculos e culturas, desde usos religiosos até a arte contemporânea.  

1. Origem e surgimento da xilogravura  

China (século V a X d.C.)  

• A xilogravura surgiu na China, onde era usada para imprimir padrões em tecidos e, posteriormente, textos e imagens.
• O livro mais antigo impresso com essa técnica é o "Sutra do Diamante" (868 d.C.), descoberto na Caverna de Dunhuang (1). O Sutra do Diamante foi impresso pela primeira vez em 868 d.C. Essa impressão, feita na China, é considerada o livro impresso datado mais antigo do mundo. O texto foi impresso em blocos de madeira entalhada, a xilogravura. No próprio livro consta a data de sua impressão dia 11 de maio de 868 d. e seu autor/editor: Wang Jie. O Sutra do Diamante é um texto budista importante e essa impressão é considerada um marco na história da impressão.

Japão (Século VIII em diante)

• No Japão, a técnica da xilogravura continuou sendo desenvolvida e associada à produção de Ukiyo-e "retratos do mundo flutuante" popularmente conhecido com "estampa japonesa" (3, 4). Katsushika Hokusai (1760-1849) e Utagawa Hiroshige (1797-1858) (2) durante o Período Edo (6,7)  (séculos XVII–XIX) (8) usaram perspectivas inovadoras, mudanças na luz e no clima, bem como atividade humana para envolver os espectadores em seus projetos paisagísticos.

Europa (Século XIV – Renascimento)

• A xilogravura chegou à Europa por meio do comércio com o Oriente e foi usada inicialmente para iluminuras religiosas e cartas de baralho.
• No século XV, serviu para ilustrar livros impressos (como a Bíblia de Gutenberg) antes da popularização da gravura em metal.
• Artistas como Albrecht Dürer elevaram a técnica a um nível artístico, criando obras-primas como "O Apocalipse" (1498), uma série de quinze xilogravuras datadas de cerca de 1496-1498 do mestre alemão Albrecht Dürer e cujas melhores cópias existentes se encontram no Staatliche Kunsthalle, em Karlsruhe. e "Cavaleiro, Morte e o Diabo" (em alemão: Ritter, Tod und Teufel) de 1513, também de Dürer.

Albrecht Dürer. Visão de Cristo dos sete candeeiros.

Albrecht Dürer. O martírio de São João.

Albrecht Dürer. São João e os vinte e quatro anciãos no céu.

Albrecht Dürer. Cavaleiro, Morte e o Diabo (Ritter, Tod und Teufel). 1513 (9).



2. Uso Tradicional e Cultural  

Brasil (Séculos XIX–XX) 
 No Nordeste brasileiro, a xilogravura tornou-se popular através da literatura de cordel, onde ilustrava capas de folhetos.  
 Artistas como J. Borges e Gilvan Samico, Rubem Grilo, transformaram a técnica em uma expressão artística reconhecida internacionalmente. 

Rubem Grilo. Chuva. (swissinfo)

Rubem Grilo. Cavaleiro.(swissinfo)

Rubem Grilo. Rua.(swissinfo)

Rubem Grilo. Mar calmo.(swissinfo)

Rubem Grilo. A tarde.(swissinfo)

Rubem Grilo. Pescadores. (swissinfo)

Rubem Grilo. Despedida.(swissinfo)

América Latina e África 
 No México, foi usada em movimentos políticos, como nas gravuras revolucionárias de José Guadalupe Posada (calavera Catrina).  
 Em países africanos, a técnica foi adaptada para contar histórias locais e tradições orais.  

3. A Xilogravura na Atualidade  

Arte Contemporânea  
 Artistas como Franz Masereel (1, 2) (Bélgica) e Milton Dacosta (Brasil) usaram a xilogravura para criar obras expressionistas e abstratas.  
 Hoje, é valorizada por seu caráter artesanal e estética única, sendo explorada em exposições e bienais. 

Ilustração e Design  
 A técnica é usada em ilustrações editoriais, capas de livros e até em tatuagens (estilo "woodcut").  
 Designers digitais simulam o visual da xilogravura em softwares como Photoshop, mantendo sua essência rústica.  

Preservação Cultural  
• No Brasil, festivais como o "Gravura Popular" (PE) e oficinas , mantêm viva a tradição, especialmente no cariri cearense e no sertão nordestino. Também podemos citar o exemplo do Atelier Livre de Porto Alegre que ainda mantém oficinas e cursos de xilogravura em sua grade curricular.

A xilogravura é uma ponte entre o passado e o presente, desde seus primórdios na Ásia até seu uso inovador na arte moderna. Seja como ferramenta de comunicação, expressão cultural ou linguagem artística, ela continua a inspirar gerações, provando que técnicas ancestrais ainda têm espaço no mundo contemporâneo.
 

Fontes 

Hind. Arthur M. A History of Woodcut. 1935. Boston, Massachussets, Houghton Mifflin Company. 

Neto, Lira. Xilogravura: A Arte do Povo. Fortaleza, CE. Gráfica e Editora Central, 2005.

Yoshiuda, Ayomi. The Complete Woodblock Print". The Complete Woodblock Prints. Quioto, Japão; Seigensha Art Publishing, Inc. 2021.

Acervos do Museu da Xilogravura. Cordel – Brasil; e Museu do Ukiyo-e (Japão).


TINTAS

Com toda essa rica história e sua duração no tempo, a xilogravura permanece sendo uma técnica de impressão que utiliza matrizes de madeira entalhadas, entintadas com um fino filme de tinta. A tinta adequada é essencial para se obter bons resultados durante a impressão. 
Aqui estão algumas receitas caseiras de tinta para xilogravura, baseadas em fontes tradicionais e técnicas artesanais.


1. Tinta a base de óleo (Tinta Gráfica Tradicional) (1)

Ingredientes

• Pigmento em pó (preto de fumo, terra natural, óxidos etc.)
• Óleo de linhaça ou óleo vegetal refinado
• Secante de cobalto (opcional, para acelerar a secagem)

Preparo

1. Misture o pigmento em pó com uma pequena quantidade de óleo de linhaça até formar uma pasta espessa.
2. Adicione óleo aos poucos até atingir a consistência desejada (nem muito líquida, nem muito pastosa).
3. Para melhor aderência, passe a tinta em um moinho de vidro ou use uma espátula para misturar bem.
4. Se necessário, adicione um pouco de secante de cobalto (2-3% do volume) para acelerar a secagem.

Fonte: Técnicas tradicionais de gravura, como descritas em "The Complete Printmaker" (John Ross, Clare Romano, Tim Ross).


2. Tinta à Base de Cera (Caseira e Econômica)

Ingredientes

• Cera de abelha ou parafina
• Óleo de soja ou óleo de cozinha
• Pigmento em pó (ex.: carvão moído)

Preparo

1. Derreta a cera em banho-maria.
2. Adicione óleo aos poucos até obter uma mistura homogênea.
3. Incorpore o pigmento e mexa bem até ficar uniforme.
4. Deixe esfriar e ajuste a consistência (se ficar muito dura, aqueça e adicione mais óleo).

Observação: Essa tinta é mais rústica e seca rápido, ideal para impressões experimentais.

Fonte: Adaptação de receitas artesanais de "Making Art Safely" (Merle Spandorfer et al.).


3. Tinta à Base de Guache ou Têmpera (Alternativa Aquosa)

Ingredientes

• Guache ou tinta acrílica
• Goma arábica ou mel (para dar liga)
• Água (para ajustar a viscosidade)

Preparo

1. Misture o guache com uma pequena quantidade de goma arábica ou mel para melhor aderência.
2. Dilua com água se necessário, mas mantenha a tinta cremosa.
3. Teste em papel absorvente antes de usar na matriz.

Vantagem: Secagem rápida e fácil limpeza, mas pode não ter a mesma durabilidade que tintas à base de óleo.

Fonte: Técnicas adaptadas de "Non-Toxic Printmaking" (Mark Graver).


4. Tinta de Terra (Natural e Artesanal)

Ingredientes

• Terra ou argila seca (peneirada) de diferentes cores ou tonalidades
• Óleo de linhaça ou cola à base de água
• Água (se necessário)

Preparo

1. Peneire a terra para remover impurezas.
2. Misture com óleo ou cola até formar uma pasta homogênea.
3. Para versões aquosas, adicione água e uma pitada de sal (como conservante).


Fonte

Kimon Nicolaïdes. (1969). The Natural Way to Draw. Técnicas ancestrais descritas em (1).

Tinta a base d'água

As tintas gráficas a base de água (tintas à base d'água) encontradas no mercado são muito práticas, principalmente por serem de fácil limpeza (com uma bucha e água corrente, ou com álcool se limpa tudo). A escolha por essa tinta também se dá por seu odor suave (semelhante ao guache), o que a torna prática para o uso em ambientes domésticos. 
No Brasil são vendidas as marcas Speedball, Lukas e Talens, de qualidades diversas: as duas primeiras têm aspecto mais líquido e a terceira é mais concentrada (exigindo o uso conjunto de glicerina líquida (g). 

As desvantagens desse tipo de tinta são: 

1. ela seca muito rápido (podendo causar desperdício e exigindo um trabalho mais ágil); 
2. Alguns pigmentos coloridos desbotam; 
3. Não permite o uso de transparências (é sempre opaca). Entretanto são boas opções para quem está experimentando a técnica.

Tinta a base de óleo

As tintas gráficas à base de óleo são em geral mais indicadas para quem quer trabalhar com xilogravura mais à fundo. O resultado da impressão com essas tintas é muito mais rico em termos de tons, cores e transparências, além de possibilitar uma maior captação dos detalhes da gravação e dos veios da madeira. Essas tintas possuem odor um pouco mais forte do que as tintas à base de água, e para limpá-las é preciso usar solventes, como aguarraz ou thinner (G), por isso é recomendável usar esse tipo de tinta em espaços bem ventilados. Uma boa dica é usar uma mistura de óleo de cozinha e detergente para limpar a tinta das mãos. Também encontramos solventes de odor mais suave, como o solvente Cromossolv, da marca Cromos. 

Tintas das marca Sakura, Speedball, Lukas e Talens, já amplamaente testadas e todas são muito boas e recomendáveis. 
A Cromos vende latas de 2kg, que duram muito quando bem conservadas (a tampa deve estar bem fechada e não se deve retirar o papel que a protege). 

Já experimentei usar a tinta base transparente para produzir tintas coloridas e o resultado foi bastante satisfatório. Para isso, deve-se acrescentar Carbonato de Cálcio (1) ou carbonato de magnésio (que dá opacidade à tinta) e o pigmento diluído em aguarrás.

Para quem tem interesse pelo preparo de tintas, desenvolvemos uma tinta alternativa à base de água, de baixo custo, e que pode ser usada em ambientes escolares. 

Para prepará-la é necessário: 

2 colheres de Goma Arábica (aglutinante); 
3 gotas de Glicerina (umidificante); 
1/2 colher de Carbonato de Cálcio ou Talco (1) (que dá consistência e opacidade) e pigmento de qualquer cor, a gosto. 

É possível usar pigmento líquido ou em pó (que deve ser diluído em álcool). Basta misturar tudo, testando as quantidades de cada ingrediente para que fique com um aspecto pegajoso. Se a tinta estiver secando muito rápido, acrescente uma gota de glicerina.

Dicas Gerais

• Teste sempre em pequenas quantidades antes de aplicar na matriz.
• Consistência ideal: A tinta deve cobrir o relevo da madeira sem escorrer.
• Limpeza: Use óleo vegetal para tintas gordurosas e água para aquosas.

Essas receitas permitem explorar a xilogravura com materiais acessíveis e baratos adaptando-se a diferentes estéticas e recursos. Boas impressões!


Tinta tipográfica

Tinta: Pigmento + aglutinante
As tintas tradicionais, ou antigas, eram e ainda são compostas por pigmentos naturais, extraídos de minerais, plantas, ossos calcinados, fuligem ou carvão, e um aglutinante, como gordura animal, clara de ovo ou resinas vegetais, que fixavam a cor ao substrato onde são aplicadas. 
Pigmentos comuns incluem ocre e óxidos de ferro para o vermelho, carvão ou ossos carbonizados (calcinados) para o preto, e o caro lápis-lazúli ou azurita para o azul, muitas vezes tóxicos e que exigiam grande habilidade para serem manipulados e usados com segurança.

A tinta tipográfica atual é uma tinta espessa, viscosa e pastosa, especialmente formulada para a impressão em relevo, como a tipografia, podendo ser utilizada na xilogravura. Ela é composta por três ingredientes principais: um pigmento que dá cor, um veículo (aglutinante) que carrega o pigmento e permite que ele se fixe no substrato, e modificadores que controlam a secagem e outras propriedades da tinta (WP).

Elaboração
A tinta tipográfica, também conhecida como tinta de impressão tipográfica (1), é um tipo de tinta projetada para ser utilizada em processos de impressão onde a imagem ou texto é transferida para o papel através de relevo. Isso significa que as áreas que serão impressas na tinta estão em um nível mais alto do que as áreas que não serão impressas, criando um efeito de relevo no resultado final. Assim, a tinta deve ser bem mais espessa e viscosa do que outros tipos de tinta, pois deve aderir bem à matriz e depois ao ser pressionada contra o suporte deve ter facilidade em se ligar ao suporte onde será depositada. 

Composição da tinta tipográfica

Pigmento 
É a substância responsável pela cor da tinta. Pode ser um pigmento mineral, orgânico ou sintético. (WP1,2,3,4).

Veículo (Aglutinante)
É o líquido que carrega o pigmento e permite que ele se fixe no papel. Geralmente é composto por óleos secativos, resinas e aditivos que controlam a viscosidade, tempo de secagem e outras propriedades da tinta.

Modificadores
São aditivos que ajudam a controlar a secagem da tinta, a sua resistência ao desgaste, o brilho e outras propriedades desejadas.

Características da tinta tipográfica

Viscosidade
A tinta tipográfica precisa ser espessa e viscosa para aderir bem ao relevo dos tipos móveis e transferir a imagem de forma nítida.

Aderência
É importante que a tinta tenha boa aderência ao papel para garantir que a impressão não borre ou desbote facilmente.

Secagem
O tempo de secagem da tinta pode variar dependendo do tipo de veículo e dos aditivos utilizados, mas geralmente é um fator importante a ser considerado na escolha da tinta.

As tintas tipográficas são diferentes de outras tintas de impressão. Cada tipo de impressão seja ela tipográfica, xilográfica, serigráfica, offset, e litgráfica, exigem tintas com características específicas para garantir um bom resultado. A tinta tipográfica, por exemplo, é mais espessa e viscosa do que as tintas offset, que são mais fluidas. Isso se deve ao fato de que a impressão tipográfica utiliza uma matriz em relevo, (por isso esse tipo de tinta pode ser usado em xilogravura) enquanto a offset utiliza um processo de transferência indireta.

Tintas para impressão offset

As tintas para impressão offset geralmente são formuladas com resinas, óleos secativos e solventes hidrocarbônicos não polares que formam vernizes de alta viscosidade. Elas são projetadas para serem utilizadas em impressoras offset, que utilizam placas planas para transferir a imagem para o papel.

Tintas para serigrafia

As tintas para serigrafia, por outro lado, são mais pastosas e amanteigadas. Elas são projetadas para serem utilizadas em telas de seda, nylon e poliéster, onde a tinta é forçada pelo rodo através das aberturas da emulsão polimerizada (stencil serigrárfico) da tela para criar a imagem no suporte ou substrato. 

(Polimerização da emulsão serigráfica: o processo de polimerização ocorre quando a emulsão é exposta à luz (geralmente luz UV) na presença de um sensibilizador, como o bicromato de amônia ou um diazo.








Fonte







Desenvolvimento histórico da xilogravura no Japão em confronto com o desenvolvimento da gravura na Europa. HASHIMOTO, Madalena Natsuko. Estudos Japoneses, 1992. 























Ross, J., Romano, C., & Ross, T. The Complete Printmaker. 2018. Routledge (2018). New York, NY.

Spandorfer, M., Merians, D., & Carroll, J. Making Art Safely: Alternative Methods and Materials in Drawing, Painting, Printmaking, Graphic Design, and Photography.
1993. Editora: Van Nostrand Reinhold. New York, NY.


Graver, M. Non-Toxic Printmaking: Printmaking Handbook. 1997. 2011 (2ª edição) Ed. A&C Black (1997). London, UK (1997).

Nota: Mark Graver é uma autoridade central no movimento de printmaking não-tóxico. Este livro é focado especificamente em alternativas seguras para as técnicas de intaglio.

Nicolaïdes, K. The Natural Way to Draw. A Working Plan for Art Study.
Ano de publicação: 1941 (publicação original). Editora: Houghton Mifflin Company. Boston, Massachusetts, EUA.





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