sexta-feira, 3 de outubro de 2025

TECNOLOGIAS NAS ARTES VISUAIS

TECNOLOGIAS NAS ARTES VISUAIS

7º ano



Duração:8 Aulas de 45 min. cada


Objetivos da Aula

• Compreender como a tecnologia influencia e transforma as artes visuais.

• Identificar técnicas e obras que utilizam recursos tecnológicos.

• Estimular a reflexão sobre os limites entre arte tradicional e digital.



Materiais Necessários

• Projetor e computador com acesso à internet.

• Imagens de obras de arte que usam alguma tecnologia seja fotografia, arte digital, videoarte e instalações interativas.

• Materiais para atividade prática: papel, lápis, celulares ou tablets (opcional).


Estrutura da Aula


1. Acolhida e Introdução 

• Cumprimentar os alunos e apresentar o tema: “História da tecnologia na arte, definição de tecnologia, como a tecnologia está presente na arte hoje?”.


• Questionar: “Vocês já criaram ou viram obras de arte feitas com o uso de alguma tecnologia?”.



2. Explicação Teórica 


Tecnologia

A palavra Tecnologia refere-se ao conjunto de conhecimento para realizar processos, métodos, técnicas e ferramentas usados para produzir bens, serviços e realizar objetivos, modificando o meio ambiente para satisfazer necessidades humanas. 

Sua etimologia vem do grego Techne, τέχνη, e significa arte, técnica, ofício, habilidade ou saber fazer; e Logos,  λόγος: refere-se a palavra, estudo, tratado, conjunto de saberes ou razão. Significando, portanto, o "estudo da técnica" ou a "razão do saber fazer".
A tecnologia é um conhecimento, um saber e uma prática, suas ferramentas, objetos, transformações.

Conhecimento e prática: é o conhecimento aplicado ao trabalho diário, ou seja, um conjunto de métodos e técnicas para realizar tarefas de forma mais eficiente.
Ferramentas e objetos: Abrange os processos, ferramentas e objetos criados para atender às necessidades e metas humanas.
Transformação: Uma força que molda a sociedade e o ambiente, impulsionando o progresso e oferecendo soluções para desafios.
Contexto profissional: No ambiente profissional, significa a utilização estratégica de processos e ferramentas para otimizar o trabalho, gerar inovação e potencializar o talento humano.

Portanto, a palavra tecnologia significa o estudo ou o conjunto de saberes sobre as técnicas ou um "saber fazer".

O que é arte tecnológica?

• Explicar que a tecnologia na arte vai além do computador: inclui fotografia, impressão, serigrafia (gravura), vídeo, impressão 3D, realidade aumentada, etc.

Exemplos:

• Pintura Digital: 
Artistas como David Hockney e suas obras no iPad.

David Hockney. A Closer Winter Tunnel, February - March, 2006.

David Hockney.

David Hockney. A green valley. Pintura digital em iPad. 2008.

David Hockney

David Hockney

David Hockney. Pintura em iPad.

David Hockney

David Hockney

David Hockney

David Hockney

• Videoarte: 
Exemplos de Nam June Paik, pioneiro na uso de TVs em instalações.



• Arte Generativa: 
Obras criadas por algoritmos (ex: obras do artista Refik Anadol).

Desde a participação de Refik Anadol, artista Turko-norte-americano, no programa de residência Google AMI Arts & AI em 2016, o artista e sua equipe têm sido pioneiros em treinar algoritmos personalizados de aprendizado de máquina para processar vastos conjuntos de dados públicos que revelam camadas não reconhecidas de nossas realidades externas, memórias coletivas e sonhos. trabalhou com mais de quatro bilhões de imagens e treinou mais de 300 modelos de IA com conjuntos de dados de imagem, som e texto. Parte desse resultado foi exibido no Espaço Itaú durante o festival em São Paulo em 2023. Além das obras do artista, o público terá a oportunidade de experimentar conteúdo 3D e design de movimento surpreendentes produzidos por IA, muito parecido com a atmosfera do grandes centro urbanos do mundo.

Refik Anadol.

Refik Anadol.

Refik Anadol.

Refik Anadol Studio anunciou hoje planos para o primeiro museu de artes de inteligência artificial (IA) do mundo. O museu, Dataland, deve ser inaugurado em 2025, com uma localização emblemática no empreendimento projetado por Frank Gehry, The Grand LA, no centro de Los Angeles. A localização no Grand fará com que o museu seja vizinho próximo de importantes instituições de arte do distrito, incluindo o Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles (Moca), o Museu Broad e o Centro de Artes Cênicas Walt Disney Hall, outro edifício de Gehry, para o qual o Grand fica do outro lado da South Grand Avenue.

• NFTs: Explique brevemente o conceito de arte digital tokenizada.

Um NFT (Non-Fingible Token; token não fungível) é um ativo digital único que representa a propriedade ou autenticidade de um item, como arte, música ou um item de jogo, através da tecnologia blockchain. Sua característica "não fungível" significa que é insubstituível por outro item de valor ou tipo semelhante, ao contrário de uma moeda, onde um real pode ser trocado por outro real. Cada NFT possui um código único e metadados específicos, servindo como um certificado digital de posse que é verificável e imutável na blockchain.

Como funciona?
Blockchain: Os NFTs utilizam a tecnologia blockchain, sendo registrados em um livro-razão digital distribuído e imutável. 
Tokenização: Um item digital ou físico é "tokenizado", ou seja, transformado em um token único e exclusivo. 
Registro de Propriedade: Esse token contém um código e metadados que registram a propriedade, rastreando a autenticidade e a história de cada NFT. 

O que um NFT representa?
Um NFT pode estar associado a diversos tipos de itens: 
Arte digital: Fotos, imagens, vídeos e outras formas de arte digital.
Música e áudio: Gravações musicais ou de eventos.
Itens de jogos: Como personagens virtuais ou objetos dentro de um jogo.
Colecionáveis: Cartões colecionáveis digitais e outros itens únicos.

Por que os NFTs têm valor?
O valor de um NFT é determinado pela demanda do mercado e pela percepção do valor atribuído ao item digital que ele representa. A singularidade, a autenticidade garantida pela blockchain e a escassez são fatores-chave que conferem valor a esses ativos digitais. 

Discussão

• A arte feita com tecnologia é "menos arte"?

• “Como a tecnologia ampliou as possibilidades de criação?”


3. Atividade Prática 

• Criação de arte com com uso de tecnologia: Use uma releitura para modificá-la com algum aplicativo. 
Criação de um “Desenho Digital” ou “Colagem Virtual”

• Opção 1 (sem dispositivos): Desenhar no papel e depois “intervir” com emojis ou elementos impressos, simulando uma colagem digital.

• Usar uma obra de artista brasileiro e intervir sobre ela com outro desenho, simulando camadas adicionadas sobre a obra.

• Opção 2 (com dispositivos): Usar aplicativos simples de desenho (como Sketchbook, Procreate ou Kleki) para criar uma obra com ferramentas digitais.


Regina Silveira. Destrutura Urbana 8 (1976). 50 x 70 cm. Serigrafia sobre papel.
Exemplar nº 8/10.

Regina Silveira. Destrutura Urbana 2. Serigrafia em cores 1975.

Regina Silveira. São Paulo. serigrafia. 1976.

Regina Silveira. São Paulo. serigrafia. 1976. (detalhe)


Instruções

1. Escolha um tema livre ou “O futuro da natureza”.

2. Use pelo menos 3 elementos tecnológicos (ex: pixels, ícones, códigos QR fictícios).

3. Compartilhe com a turma (em grupos ou individualmente).


4. Encerramento e Reflexão 

• Expor brevemente as criações dos alunos (projetor ou mural).

• Retomar as discussões iniciais: “A tecnologia substitui o artista ou é uma ferramenta?”

• Concluir destacando que a arte evolui com a sociedade, e a tecnologia é parte disso.



Avaliação

• Cada aula terá uma avaliação de 0 a 10, dependendo da participação do aluno em completar a atividade do dia. 

• Ao final desse tópico, o aluno apresentará um trabalho valendo 10. 

• Serão 4 notas que redundará em uma média final que será a nota.

• Participação nas discussões.

• Criatividade e uso consciente dos recursos tecnológicos na atividade prática.


Para Ampliar

• Sugerir canais no YouTube sobre arte digital.

• Indicar artistas brasileiros que usam tecnologia, como Giselle Beiguelman.

OBRAS DO SÉTIMO ANO 





















Al Hoff


























































Fonte














sábado, 27 de setembro de 2025

COMO FAZER CARVÃO PARA DESENHO

COMO FAZER CARVÃO PARA DESENHO 
BASTÕES (STICKS) DE CARVÃO MOIDO 

I
Como Fazer Seu próprio carvão para desenho

Modificado de: The Arty Teacher 

Este post do blog ARTE LIVRE explora como fazer materiais para pintura, como giz pastel oleoso e seco, pigmentos e corantes para tintas e carvão para desenho. 

Varetas de carvão já prontas para desenho.

Na prática de hoje vamos aprender uma receita fácil para produzirmos nosso próprio carvão para usarmos em nossos desenhos nas aulas de arte.

É uma honra unir duas paixões que mediam nossa existência no mundo: a arte e a química! Fazer seu próprio carvão para desenho é um processo mágico, quase uma alquimia. Escolher a madeira, limpá-la, cortá-la do tamanho apropriado e queimá-la é um processo cheio conhecimento que o homem acumulou ao longo de sua evolução.

Claro que para executar essa tarefa é necessário tomarmos bastante cuidado pois estaremos lidando com materiais cortantes, como um estilete ou faca, e com fogo que pode ser bem perigoso, caso não seguirmos regras estritas de segurança. 

O autor da receita enfatiza que seria necessário um estudo minucioso de risco para realizarmos essa atividade com alunos na escola, mas seria uma experiência memorável para todos. Memorável, pois além de aprender a fazer o seu próprio material estaremos aprendendo noções de ciência dos materiais, transformações químicas, decomposição, fenômenos físicos e químicos, além de noções de cuidados básicos e de segurança no trabalho. 


Introdução 

Desde os primórdios da arte, o carvão acompanhou a humanidade como um dos materiais mais simples e eficazes para registrar imagens. As primeiras evidências do seu uso remontam ao Paleolítico Superior (cerca de 40.000–10.000 anos atrás), período em que grupos de caçadores-coletores desenvolveram a pintura parietal e rupestre em cavernas da Europa, África e Ásia.

O carvão vegetal, obtido da combustão incompleta (pirólise) de ramos de árvores, oferecia uma vantagem notável: era fácil de produzir, transportável, aderente a superfícies rochosas e permitia traços tanto finos quanto áreas de sombreamento. Seu contraste marcante sobre a pedra clara tornava-o ideal para esboçar contornos de animais, figuras humanas e símbolos abstratos.

Nas cavernas de Chauvet e Lascaux (França), datadas de mais de 30 mil anos, vemos bisões, cavalos e leões delineados com carvão. Frequentemente, os artistas combinavam carvão com pigmentos minerais, como ocre vermelho (hematita) e amarelo (goethita), criando composições policromáticas. O carvão servia como "primeira linha" de desenho, e muitas vezes como reforço de sombras, sugerindo volume e movimento.

Além de instrumento gráfico, o carvão também tinha uma função ritual e simbólica. Em algumas culturas, sua presença em contextos funerários ou rituais indica que não era apenas um recurso prático, mas também carregava valor espiritual, talvez ligado ao fogo, à transformação e à ideia de passagem entre mundos.

Com o passar do tempo, o uso do carvão nas paredes não desapareceu. Ele permaneceu como recurso gráfico durante a Antiguidade, sendo usado em esboços sobre argamassa, em afrescos e em inscrições. Contudo, é na arte paleolítica que encontramos o registro mais fascinante: o momento em que um pedaço carbonizado de madeira se transformou em ferramenta de comunicação simbólica, fixando na pedra a memória de caçadas, mitos e cosmovisões.

Assim, o carvão, obtido da queima incompleta da madeira não foi apenas um resíduo do fogo, uma transformação pelo fogo: foi um dos primeiros instrumentos de arte da humanidade, marcando o nascimento da pintura e da narrativa visual nas paredes de cavernas e posteriormente de templos.

A madeira é constituída basicamente de compostos de carbono. 
Esses compostos de carbono se enquadram principalmente em três tipos distintos também chamados de biopolímeros. São três os biopolímeros constituintes da madeira: celulose, hemicelulose e lignina, estes formam as paredes celulares da madeira, além de água e outros compostos chamados extrativos. 
A proporção desses componentes varia entre espécies, influenciando a densidade e outras propriedades físicas da madeira. 

Estrutura geral da madeira

A madeira é um tecido vegetal secundário, formado pelo xilema produzido pelo câmbio vascular. É composta essencialmente por paredes celulares lignificadas e por um espaço capilar que pode conter água, resinas, óleos e outras substâncias. Sua composição depende da espécie, da idade da árvore, da parte do tronco e das condições ambientais.

Constituintes sólidos (matéria seca da madeira)

São aqueles que permanecem após a secagem completa (remoção da água). Representam a parte estrutural da madeira.
Os principais são:

1. Celulose (40–50%)
Polissacarídeo linear, principal componente das paredes celulares.
Confere resistência mecânica e elasticidade.

2. Hemiceluloses (20–30%)
Mistura de polissacarídeos ramificados (xilanas, mananas, glucanas).
Amarram as microfibrilas de celulose, funcionando como matriz de ligação.

3. Lignina (20–30%)
Polímero aromático tridimensional.
Confere rigidez, impermeabilidade e resistência ao ataque microbiano (defesa)
Torna a madeira resistente à compressão.

4. Extrativos sólidos (1–10%)
Taninos, gomas, pigmentos, cristais minerais (como oxalato de cálcio, sílica).
Influenciam cor, cheiro, durabilidade natural e resistência a insetos/fungos.

Constituintes líquidos

São os conteúdos não estruturais que se encontram nos lúmens (cavidades celulares) e nos capilares da madeira.

Água livre: presente nos lúmens celulares. Sai facilmente no processo de secagem.
Água de impregnação / higroscópica: ligada às paredes celulares (por pontes de hidrogênio). É mais difícil de remover.
Resinas, óleos, ceras: presentes em canais secretores (especialmente em gimnospermas como pinheiros). Conferem odor, proteção contra patógenos e valor econômico.
Seiva: seiva elaborada, ou fotossintatos, uma solução aquosa com açúcares, sais minerais, aminoácidos (presente em tecidos vivos como o alburno) que se move pelos vasos do floema. Seiva bruta: solução de água e sais que sobre da raiz em direção a parte aérea da planta via vasos do xilema

Constituintes voláteis

São substâncias que se desprendem da madeira quando aquecida ou degradada:

Água (liberada na secagem inicial).
Compostos orgânicos voláteis (COVs): aldeídos, álcoois, terpenos, fenóis. São responsáveis pelo aroma característico de certas madeiras (cedro, pinho, eucalipto).
Produtos da pirólise (quando a madeira é queimada sem oxigênio): gases combustíveis como monóxido de carbono, dióxido de carbono, metano, hidrogênio e vapores de alcatrão.


Diferenças básica entre espécies

As proporções de hemicelulose, lignina e extrativos variam de acordo com o tipo de madeira. Por exemplo: 

Madeiras macias (resinosas) 
Madeiras macias como pinho e cedro, o salgueiro, tendem a ter mais extrativos, o que lhes confere odor característico. 

Madeiras duras (folhosas)
Madeiras duras como carvalho, o pinheiro brasileiro, a laranjeira e nogueira, apresentam maior teor de hemicelulose e lignina. 

Todos esses três biopolímeros são constituídos de moléculas cuja base é o carbono. Para transformamos a madeira (e todos os seus biopolimeros de carbono) em carvão vegetal, devemos usar um processo conhecido como “pirólise”. 

A palavra pirólise, vem do grego antigo, πῦρ pyr, fogo e λύσις, lýsis, separação, quebra. Logo, a pirólise é um processo que envolve a separação de ligações covalentes na matéria orgânica (os biopolímeros) por decomposição térmica dentro de um ambiente inerte sem oxigênio.

Podemos dizer também que é o processo de decomposição térmica de materiais em temperaturas elevadas em uma atmosfera inerte. Esse processo envolve uma mudança na composição química.

Em termos mais simples, para obtermos carvão, ou seja carbono, é preciso pegar um pouco de madeira, colocá-la em um recipiente quase hermeticamente fechado e, em seguida, aquecer o recipiente até que tudo dentro dele, exceto o carbono, tenha evaporado.

Material e método 

Para isso você vai precisar:

1) Madeira: Pode ser vara ou graveto. Vime é recomendado, mas não pode estar verde demais. É necessário remover a casca com uma faca afiada. Seja o que for que usar, ela irá reduzir para cerca de metade do diâmetro.

2) Recipiente metálico: Uma lata de tinta nova e vazia ou uma lata de café são ideais.

3) Martelo e prego para fazer furos na tampa do recipiente.

4) Areia.

5) Fogo: Pode ser uma churrasqueira, um fogão a lenha ou qualquer coisa que seja grande o suficiente para cercar seu recipiente com brasas quentes.

Método: Como proceder 

1) Encha um quarto de um recipiente (uma lata metálica por ex.) com areia e corte as varas ou gravetos de madeira para que caibam dentro desse recipiente.

Lata com 1/3 de areia (fonte:1)

2. Encha o recipiente com areia até cobrir os gravetos completamente.

Recipiente com os gravetos  com a areia. (1)

3. Faça alguns furos na tampa do recipiente com um martelo e um prego.

4. Coloque o recipiente na vertical ou na horizontal e cubra-o completamente com lenha ou carvão.

Lata coberta com carvão em uma churrasqueira. (1

5. Acenda o fogo na churrasqueira ou a lareira. Mantenha o recipiente cercado por brasas para que o calor seja distribuído uniformemente.

Fogo aceso. Deixar queimado por 40 a 60 min dependendo da quantidade de gravetos. (1)

6. Quando o recipiente estiver frio, você pode abri-lo, mas com cuidado pois a areia dentro do container ainda pode estar quente.

Depois de be frio abrir a lata  despejar com cuidado o conteúdo sobre um jornal. Guardar a areia e o carvão pronto para ser usado. (1)

Quando tudo estiver completamente frio, despeje a areia e as varetas (agora carvão) em um jornal. Separe o carvão da areia.

(fonte: 1)

(fonte: 1)

Use o jornal para despejar a areia de volta no recipiente para reutilização.

Nota
Você pode repetir o processo usando a mesma areia várias vezes, mas o recipiente pode sofrer desgaste após cerca de três usos, pois com calor ocorre a oxidação do metal da lata tornando-a frágil e quebradiça. 

A Alquimia do carvão artístico: por que funciona?

Quimicamente, a carbonização remove água, materiais voláteis e transforma a celulose e a lignina da madeira, deixando praticamente carbono puro. É esse carbono que dá a cor preta intensa e a aderência única ao papel. A qualidade do seu carvão depende do tipo de madeira e do controle do processo.

Método 1: A lata no fogo (o clássico)

Materiais Necessários:
Galhos de madeira macia: Salgueiro, videira, sabugueiro (o ideal!) ou até mesmo gravetos de árvore frutífera (limpos e sem seiva).
Uma lata de metal com tampa: Lata de leite em pó, de azeite, etc. Forte e resistente ao calor.
Um prego e martelo.
Fonte de calor: Fogão a lenha, fogueira controlada ou churrasqueira.
Pinça longa ou luvas térmicas.

Processo passo a passo (o ritual)

1.  Preparação dos galhos: Corte os galhos no tamanho desejado para seus desenhos (cerca de 10-15 cm). Descasque-os. Eles devem estar totalmente secos.
2.  Preparação da lata (a câmara de combustão): Faça um pequeno furo na tampa da lata com o prego e martelo. Este buraco é crucial! Ele permite a saída dos gases da combustão, evitando que a lata exploda devido à pressão.
3.  Carregamento: Encha a lata com os galhos, mas sem compactar demais. Deixe algum espaço para a circulação de ar. Note que este método não leva a areia do método anterior.
4.  A carbonização (o fogo controlado):
   Tampe a lata firmemente.
   Coloque a lata diretamente nas brasas de uma fogueira ou no carvão em brasa de um churrasco. Não a coloque diretamente nas chamas altas, pois o calor excessivo e desigual pode queimar a madeira em vez de carbonizá-la.
   Deixe a lata no fogo por 1 a 3 horas. Você verá uma fumaça saindo pelo buraco na tampa. Inicialmente será uma fumaça branca/azulada (vapor e alcatrão) e depois ficará bem fina e quase invisível. Quando a fumaça parar de sair, é um bom sinal de que o processo está completo.
5.  O resfriamento (a paciência):
    Aqui está o segredo! Com muito cuidado, use a pinça ou luvas para retirar a lata do fogo. NÃO ABRA A LATA!
    Deixe a lata esfriar completamente, de preferência até o dia seguinte. Se você abrir a lata enquanto ainda estiver quente, o oxigênio entrará e o carvão irá queimar instantaneamente em cinzas, arruinando todo o trabalho.


Método 2: O Pote de Barro (para os puristas)

É similar ao método da lata, mas usando um pote de barro (florero) com tampa. A vedação não precisa ser perfeita. O processo é exatamente o mesmo: encha, tampe, coloque no fogo e esfrie completamente antes de abrir. O pote de barro pode ser descartado depois, pois provavelmente irá rachar.


Dicas do Artista-Químico

Escolha da Madeira
Melhores: Salgueiro e videira são os padrão-ouro. Produzem um carvão denso, quebradiço e de preto intenso.

Boas Alternativas
Galhos de laranjeira, limoeiro ou outras frutíferas.

Evite: Madeiras resinosas (como pinheiro), a resina queima de forma irregular e suja o carvão.

Espessura dos Galhos: Galhos finos (3-8 mm) serão mais quebradiços e ideiais para esboços e sombreamentos leves. Galhos mais grossos (1-2 cm) serão mais duráveis, ideais para traços fortes e blocos de cor.

Acabamento: Depois de frio, você pode "lixar" levemente as pontas do carvão em uma lixa para madeira para afiá-las ou criar pontas mais precisas.

Fixador Caseiro: Seu carvão caseiro será mais frágil que o industrial. Para fixar o desenho, você pode fazer um fixador spray caseiro diluindo cola branca (PVA) em água (proporção 1:4) e borrifando levemente sobre o desenho finalizado.


II

OUTRAS VARIANTES:
Carvão para desenho comum: feito por pirolisar (queimar sem oxigénio) madeira, tronco ou ramos.

Dois tipos: carvão vegetal (videira ou salgueiro), solto e macio; carvão comprimido, mais escuro e firme (feito a partir de pó de carvão + aglutinante).

Segurança: faça ao ar livre, longe de materiais inflamáveis, use luvas, óculos, máscara contra pó e muita ventilação, tanto durante a carbonização quanto ao moer.

O que acontece (explicação química simples) com a madeira numa combustão controlada com pouco oxigênio?

A madeira aquecida em ambiente com pouco ou nenhum oxigênio sofre pirólise: a celulose/lignina se decompõem, liberando voláteis (gases, alcatrões) e sobrando carbono estrutural, o carvão. Sem oxigénio evita-se combustão completa (cinzas + CO₂) e obtém-se material poroso, escuro e facilmente riscável.
Método caseiro, carvão de salgueiro ou videira

Materiais

1) Ramos secos de salgueiro, tília, amieiro, videira, ou de ramos de arvores frutíferas como limoeiro , laranjeira ou pedaços de madeira fina, cortados em 15 a 20 cm.

2) Lata metálica com tampo (ex.: lata de biscoito) ou tambor metálico com tampa; faz-se um pequeno furo na tampa.

3) Fogo de chão / fogueira segura.

4) Alicates, pinça longa e luvas térmicas (opcionais).

Passos

Preparar a madeira: ramos secos, sem casca solta, cortados. Madeira verde não funciona bem (vai estourar e produzir muita fumaça).

Colocar na lata: encha a lata com os ramos, feche (deixe um pequeno furo para saída de gases, isso controla a entrada de oxigénio).

Aquecimento (pirolisar): coloque a lata sobre uma fogueira. Aqueça por 1–2 horas até a fumaça espessa diminuir e depois ficar quase sem saída de fumaça, sinal de que os voláteis reduziram.

Apagar e resfriar: retire com alicate, tampe bem (ou enterre) para cortar o oxigénio e deixe esfriar totalmente (pode demorar). Abrir cedo significa que o carvão vai incendiar-se e transformar-se em cinzas.

Remover e limpar: retire o carvão; quebre em pedaços do tamanho desejado e raspe a camada mais frágil se quiser superfície mais limpa.

Armazenamento: seco, em caixa de papelão, evita humidade.

Dicas artísticas

Ramos finos (videira) dão carvão muito macio e ideal para esboço e sombreamento.

Madeira mais densa dá pedaços mais firmes, útil para traços mais escuros controlados.

III
Como fazer carvão comprimido (sticks): 
receita caseira básica


Carvão comprimido = pó de carvão + aglutinante (goma arábica é clássico e não-tóxico).

Materiais

Carvão vegetal moído fino (passe por peneira).

Goma arábica (solução aquosa ~10% peso/volume), ou cola de celulose ou cola PVA diluída (menos tradicional).

Opcional: kaolin/argila branca em pequena proporção para aumentar aderência / dureza.

Moldes (tubos, canudos, formas) ou simplesmente molde manual.

Fôrma/lixa para acabamento.

Proporção indicativa (comece com isso e ajuste)

4–6 partes de pó de carvão : 1 parte de solução de goma arábica (10%)

Se usar argila: substituir ~10–20% do pó por argila para dar “dureza”.

Passos

Moer: triture o carvão até pó fino (morteiro, pilão ou moinho). Evite nuvens de pó, use máscara.

Misturar: junte o pó com pequena quantidade da solução de goma arabica até formar uma pasta plástica (não muito líquida). Ajuste a quantidade de goma para consistência que dê coesão.

Moldar: enrole em cilindros com papel manteiga, coloque em moldes ou comprima com uma faca ou espátula em formas apropropriadas.

Secagem: deixar secar lentamente à sombra em local ventilado; secagem rápida ao sol pode rachar. Quando seco, é sólido e parecido com bastões comerciais.

Acabamento: lixe pontas, corte no comprimento desejado, enrole com papel para evitar sujeira nas mãos (opcional).

Fazer lápis de carvão

Método simples: fazer um bastão comprimido fino e inserir em um tubo de madeira (ou pegar um lápis oco). Ou usar canudos de papel rígido como “casca” temporária.

Profissionalmente usa-se grafite/charcoal “mine” fabricada e colocada em corpo de madeira com cola; fazer em casa é trabalhoso mas possível com molde e cascas de madeira cortadas.

Técnicas e uso do carvão (dicas de artista)

Fixador: o desenho a carvão é frágil e mancha. Use fixador spray (caseiro: mistura muito fraca de goma arábica + álcool, o melhor é comprar um fixador pronto.

Borrar vs apagar: esfuminos, pincéis e dedos espalham; borrachas maleáveis são ideais para realces.

Combinações: carvão vegetal + carvão comprimido para variedade de valores; use papel rugoso (120–300 g/m²) para boa aderência.


Segurança (repetindo: Muito importante)

Faça as carbonizações ao ar livre. Risco de incêndio e inalação de fumaça/tóxicos (alcatrões).

Proteja mãos evolhos; máscara P2/N95 ao moer pós e ao misturar aglutinantes.

Não descarte alcatrão ou líquidos de pirólise no solo (caso se formem no interior da lata), contenha e descarte conforme normas locais (pequenas quantidades oriundas de hobby normalmente podem ser secas e descartadas como resíduo sólido).

Aviso de Segurança Não pule esta parte!

Sempre trabalhe em área aberta e bem ventilada. O processo libera monóxido de carbono e outros gases tóxicos.
Tenha extintor de incêndio ou balde de areia por perto.
Use luvas térmicas e proteção para os olhos. O metal da lata fica incandescente.
Nunca, jamais, tente fazer isso dentro de casa ou em um apartamento.
Informe outras pessoas sobre o que você está fazendo.

Fazer seu próprio material é conectar-se com a essência da arte e de nossa própria evolução. Cada galho carbonizado terá uma textura e um comportamento únicos no papel. A imperfeição é parte da beleza.

Crianças só sob supervisão estrita.


Agora você não é apenas um artista, é um alquimista de traços e sombras.
Boa experiência e ótimos desenhos!




Fonte






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